Colheita e pós-colheita definem qualidade e valor do café brasileiro, destaca especialista
Boas práticas simples podem evitar perdas e elevar o padrão dos lotes, com impacto direto na remuneração do produtor
15:20
Fonte: CNA
A qualidade do café brasileiro começa a ser definida ainda no campo, mas é na colheita e, principalmente, no pós-colheita que o produtor decide o valor final do seu produto. Falhas nesse processo podem comprometer todo o potencial da lavoura, mesmo quando a produção apresenta bom desenvolvimento agronômico.Segundo Aldir Alves Teixeira, CEO da Experimental Agrícola do Brasil/illycaffè, erros operacionais simples continuam sendo um dos principais gargalos da cafeicultura. “A presença de frutos verdes e o manejo inadequado após a colheita são fatores que impactam diretamente a qualidade da bebida e, consequentemente, o preço recebido pelo produtor”, afirma.De acordo com o especialista, a colheita seletiva é o primeiro passo para evitar perdas. A recomendação é iniciar a operação com no máximo 5% de frutos verdes ou verdoengos. “Colher no ponto correto de maturação é determinante. Misturar frutos compromete o padrão do lote e reduz seu valor comercial”, explica.Outro ponto crítico é o tempo entre a colheita e o processamento. O acúmulo de café recém-colhido, prática ainda comum em algumas propriedades, pode desencadear fermentações indesejadas. “Deixar o café amontoado por horas é suficiente para iniciar a deterioração da qualidade”, alerta.:: Pós-colheita exige agilidade e controleApós a colheita, o café deve ser rapidamente encaminhado para o processamento. O processo de lavagem e descascamento deve ser feito no mesmo dia, sem remover a mucilagem, preservando as características do grão, como corpo e doçura. O início imediato da secagem também é fundamental para preservar as características sensoriais do grão.“O pós-colheita é uma etapa técnica e exige disciplina operacional. Camadas finas no terreiro, revolvimento constante e controle de umidade fazem toda a diferença no resultado”, destaca Aldir.A recomendação é que o café seja seco até atingir cerca de 11% de umidade, garantindo estabilidade e evitando defeitos. O manejo correto inclui, no início da secagem, o enleiramento, no período da tarde, em camadas baixas no sentido da declividade, sem nenhuma cobertura. Só deverá ser coberto após a meia seca com lona, jamais com lençol plástico preto. O armazenamento deverá ser feito em ambiente adequado, protegido de umidade, luminosidade e variações bruscas de temperatura.Mesmo em propriedades com diferentes níveis de investimento, o uso de tecnologias simples e boas práticas pode reduzir perdas e aumentar a eficiência. “Não estamos falando apenas de alta tecnologia. Organização, timing e atenção aos detalhes já trazem ganhos expressivos de qualidade”, reforça.Para mercados mais exigentes, como o de cafés especiais, esses cuidados são ainda mais determinantes. Além da qualidade física e sensorial, aspectos como rastreabilidade e sustentabilidade ganham peso na comercialização.:: Dez práticas essenciais para garantir qualidadeIniciar a colheita com menos de 5% de frutos verdes;Evitar amontoar o café recém-colhido;Lavar e descascar no mesmo dia;Encaminhar o café ao terreiro sem excesso de água;Iniciar a secagem imediatamente, em camadas finas;Revolver o café ao longo do dia e enleirar à tarde no sentido da declividade do terreiro;Trabalhar com cargas homogêneas e completas no secador;Respeitar o descanso até atingir 11% de umidade;Armazenar em ambiente escuro, ventilado, seco e protegido;Adotar práticas sustentáveis do ponto de vista econômico, social e ambiental.Na avaliação de Dr. Aldir, a adoção consistente dessas práticas não apenas melhora o padrão da bebida, mas também posiciona o produtor em mercados mais valorizados. “O principal desafio na fase de colheita e pós-colheita é seguir rigorosamente as recomendações técnicas. A adoção de práticas corretas não só preserva a qualidade do produto final, mas também valoriza o trabalho do produtor e fortalece a cadeia produtiva”, conclui.