GAFFFF: crédito ganha protagonismo e exige mais eficiência no agro
Executivos apontam governança, gestão de risco e novas formas de financiamento como essenciais diante de um cenário mais adverso
09:30
Foto: DATAGRO
O crédito deixou de exercer apenas um papel de suporte para ocupar uma posição central nas operações do agronegócio. Com empresas financiando vendas, cooperativas ampliando sua atuação na concessão de recursos e produtores mais dependentes do mercado privado, o cenário adverso dos últimos ciclos elevou a importância da governança, da gestão de risco e da eficiência financeira no setor.O tema esteve no centro do painel “Mercado de Crédito e suas inovações em um Cenário Adverso”, realizado durante o Global Agribusiness Festival 2026 (GAFFFF). A discussão foi moderada por Fabio Mazzo, sócio de Investment Banking da XPI, e contou com Fernando Borba, diretor de Barter e Financial Tools Brasil e Paraguai da Corteva Agriscience; Flávio Mata, CEO e sócio-fundador da Agriconnection; e Matheus Kfouri Marino, presidente do Conselho de Administração da Coopercitrus.Na abertura, Mazzo destacou que a necessidade de financiamento passou a acompanhar a própria comercialização no agronegócio. “Para vender produto hoje em dia tem essa demanda adicional de crédito para conseguir crescer”, afirmou.
Barter avança em meio a novo ciclo de crédito
Fernando Borba afirmou que o atual período deve deixar aprendizados para empresas, produtores e instituições financeiras. Na avaliação do executivo, o mercado terá de sair do ciclo mais preparado para enfrentar novas situações de pressão.“O ciclo que se encerra vai ser um período de aprendizado em que as instituições e o mercado financeiro vão ter que se preparar como um todo”, disse. “Vamos passar por esse momento mais fortes”.Na Corteva, mais de 40% das operações são realizadas por meio de barter estruturado, de acordo com Borba. O instrumento permite relacionar a aquisição de insumos à produção futura de commodities e se tornou uma das alternativas para estruturar o financiamento do produtor.Para o executivo, porém, o futuro do crédito não estará apenas no desenvolvimento de novos produtos financeiros. A tendência é de construção de um ecossistema em torno do produtor que envolva também governança, gestão e relacionamento.A pressão recente sobre o setor, segundo Borba, também provocou uma mudança na relação das empresas com seus clientes. “Por mais que essa crise tenha machucado muito a gente, ela nos deu a oportunidade de reeducarmos nossos clientes”, afirmou.
“Principal insumo do agro é o dinheiro”
Flávio Mata chamou atenção para o peso que o financiamento já possui dentro das próprias empresas de insumos. Como as vendas são realizadas a prazo, a atividade industrial também passou a carregar uma função financeira relevante.“O principal insumo do agro é o dinheiro. Hoje, quando nós, indústrias, vendemos o produto, mesmo depois de toda a cadeia de produção do produto, 100% das nossas vendas são a prazo. Ou seja, hoje toda a nossa indústria opera como um ‘mini banco’”, afirmou.Na avaliação de Mata, a eficiência construída pelo agronegócio dentro das propriedades nem sempre foi acompanhada pelo mesmo nível de gestão financeira fora da porteira. De acordo com ele, decisões de investimento tomadas de maneira pouco criteriosa contribuíram para as dificuldades enfrentadas por parte do setor.“O setor não se preparou muito para a porteira para fora. Da porteira para dentro ele é 100% eficiente, mas agiu de uma forma emotiva com investimentos desnecessários e acabou enfrentando consequências”, disse.Para o executivo, períodos adversos também aceleram mudanças. “Toda crise força o setor a melhorar. Todo mundo tem o que aprender com isso”. Nesse processo, Mata defendeu uma combinação de diferentes instrumentos de mitigação de risco e maior integração entre os participantes da cadeia. “Nosso papel é conectar as pontas”, afirmou.
Governança passa a determinar acesso aos recursos
Matheus Kfouri Marino também comparou a atuação atual das cooperativas à de instituições financeiras. “As cooperativas operam hoje como pequenos bancos”, afirmou.Com a maior dependência de capital privado, governança e escala passaram a interferir diretamente na capacidade de obter recursos e no custo das operações.“Empresa hoje que opera nesse mercado, sem governança, sem conselho, sem nada, não consegue captar. Além disso, tudo isso exige escala. Quanto mais escala você tiver, mais eficiente vai ser o custo da sua operação”, disse Marino.Conforme descrito pelo executivo, os recursos controlados representam atualmente menos de 5% a 7% do negócio. Nesse cenário, torna-se mais importante estruturar bons projetos para captar no mercado financeiro e direcionar os recursos ao campo por caminhos diferentes dos mecanismos tradicionais.“Achar que recurso público vai subsidiar o agro é impensável”, afirmou.Essa mudança também alterou a estrutura das empresas de insumos. “Até alguns anos atrás, o comercial era a locomotiva das empresas de insumos. Hoje, a gente vê que esse papel é do crédito e eu acho isso saudável”, disse Marino.