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Milho de segunda safra eleva produtividade, resiliência e performance econômica da soja em cultivo sequencial

Oleaginosa cultivada nesta modalidade rendeu, em média, 65,89 sacas por hectare, contra 52,15 na monocultura em plantio direto, e 54,36 no convencional

11:39

Fonte: Shutterstock
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Um levantamento conduzido por pesquisadores da Agroicone, da UNICAMP e da Fundação Mato Grosso e publicado na revista científica Industrial Crops and Products, da Elsevier, comprova que o sistema soja-milho supera a monocultura em quesitos como produtividade, retorno financeiro e resiliência climática. Os resultados dão base a um efeito que muitos produtores rurais já observavam, mas que na literatura científica ainda faltava um embasamento técnico para separar esse ganho da variação natural do clima entre uma safra e outra.

"Esse conjunto de dados demonstra que os sistemas de cultivo sequencial melhoram, de forma fundamental, o desempenho agronômico e econômico dos agroecossistemas tropicais, em comparação com a monocultura contínua", afirma Luciane Chiodi Bachion, líder do estudo, pesquisadora e sócia da Agroicone.

O experimento acompanhou quinze safras consecutivas (2008/09 a 2022/23), em Itiquira (MT), em um solo classificado como Latossolo Vermelho distrófico e clima tropical, com estação seca de aproximadamente três meses, entre junho e agosto. Cinco sistemas de produção de soja foram cultivados lado a lado, em quatro blocos experimentais repetidos a cada safra, dois de monocultura (plantio direto e convencional) e três de sucessão de culturas (soja seguida por milho, braquiária ou milheto). As avaliações foram realizadas a cada safra ao longo do estudo. A soja recebeu a mesma dose de fertilizante em todos os sistemas durante todo o período, o que isola o efeito da sucessão sobre produtividade, custo e lucratividade.

Os dados foram avaliados por análise de variância de dois fatores (ANOVA), considerando o ano agrícola, o sistema de cultivo e a interação entre os dois, com as médias comparadas pelo teste de Tukey nos casos de diferença estatisticamente significativa.

Aumento da produtividade do sistema

Os maiores rendimentos foram obtidos nos sistemas de sucessão de culturas. Ao longo das quinze safras, a soja cultivada em sucessão com milho alcançou média de 65,89 sacas por hectare, enquanto a sucessão com braquiária atingiu 66,47 sacas. Já a monocultura apresentou médias inferiores: 52,15 sacas por hectare no plantio direto e 54,36 sacas no sistema convencional.

“Além da média mais alta, os sistemas de sucessão também oscilaram menos ano a ano ao longo das quinze safras, uma estabilidade que ajuda a proteger o produtor da variação climática entre uma safra e outra”, explica Sofia Arantes, pesquisadora da Agroicone. Essa distância entre os sistemas cresce justamente nos anos mais secos, nas safras 2014/15 e 2020/21, marcadas por forte déficit hídrico. Nesse cenário, a monocultura caiu para menos de 20 sacas por hectare em parte dos blocos experimentais, enquanto os sistemas de sucessão sustentaram produtividade próxima de 50 sacas. O maior resultado de toda a série histórica analisada também veio da sucessão, 91,74 sacas por hectare no sistema soja-milho na safra 2018/19.

Custos de fertilizantes reduzidos

A mesma dose de fertilizante foi aplicada em todos os cinco sistemas do início ao fim do experimento, o que isola o efeito da sucessão de culturas sobre o custo. O fertilizante responde por cerca de 40% do custo total de produção da soja, o que faz esse item pesar bastante na conta final do produtor.

Nas safras de 2009/10 a 2022/23, o menor custo de fertilizantes foi observado nos sistemas soja-braquiária e soja-milho, em média, US$ 9,25 e US$ 9,28 por saca, respectivamente. Enquanto a monocultura em plantio direto e convencional apresentou um custo médio de US$ 10,22 e US$ 10,07 por saca, respectivamente. A soja em cultivo convencional atingiu US$ 16,26 por saca na safra 2014/15, o pico mais alto de toda a série.

“Essa diferença está associada à reciclagem biológica de nutrientes promovida pelas raízes do milho e da braquiária, que absorvem nutrientes das camadas mais profundas e devolvem à superfície pela decomposição dos resíduos. Além disso, a maior cobertura do solo reduz perdas por erosão e evaporação, melhora a infiltração e o armazenamento de água, aumenta o aporte de carbono e contribui para o controle de plantas daninhas. Esses processos elevam a eficiência no uso de água e nutrientes e aumentam a produtividade da soja em sucessão. Assim, mesmo com a aplicação da mesma quantidade de fertilizante, os sistemas diversificados apresentam menor custo por unidade de soja produzida e maior retorno econômico. A combinação desses fatores explica como os sistemas diversificados chegam a custos mais baixos mesmo recebendo a mesma quantidade de fertilizante na fase da soja”, aponta Luciane.

Retorno econômico

O sistema soja-milho se destacou como o mais rentável de toda a série, com picos acima de US$ 30 por saca nas safras 2011/12, 2020/21 e 2021/22. Essa vantagem soma dois fatores, a não exposição do solo causada pelo duplo cultivo, que eleva a produtividade da própria soja, e o milho garante uma segunda colheita comercial na mesma área e no mesmo ano agrícola, o que dilui o custo fixo de maquinário, mão de obra e financiamento da terra entre um volume maior de produção.

O contraste aparece com clareza nos anos ruins, como na safra 2014/15, marcada por forte estiagem. Enquanto todos os outros sistemas praticamente zeraram o retorno financeiro, só o soja-milho manteve margem, sustentado pela venda do milho. Braquiária e milheto não geram receita direta por meio de uma colheita comercial. “Ainda assim, seus retornos econômicos não se equiparam aos da monocultura, pois essas culturas de cobertura aumentam a produtividade da soja cultivada em sucessão e, consequentemente, a receita por hectare, inclusive em anos de condições climáticas desfavoráveis”, ressalta Larissa.

Potencial energético

Adicionalmente, pensando na contribuição para a transição energética, um hectare de soja-milho, considerando as produtividades obtidas nos experimentos, teria o potencial de gerar mais de quatro mil litros de biocombustível, entre biodiesel de soja, etanol de milho e óleo técnico de milho, quase sete vezes o volume de biodiesel que a monocultura de soja isolada produz no mesmo espaço, o que torna o sistema estratégico para o abastecimento da indústria de biocombustíveis sem exigir a abertura de novas áreas de plantio.

Solo mais saudável

Os resultados refletem benefícios que vão além da troca de culturas entre uma safra e outra. Ao longo do tempo, a sucessão favorece a ciclagem de nutrientes, aumenta o teor de matéria orgânica, melhora a estrutura e a infiltração de água no solo, além de estimular a atividade de microrganismos benéficos. Também contribui para interromper o ciclo de pragas e doenças típicas da monocultura, reduzindo a pressão sobre a lavoura. "Quando diferentes culturas ocupam a área ao longo dos anos, o solo passa a funcionar de forma mais eficiente, armazenando melhor água e nutrientes e oferecendo condições mais favoráveis para o desenvolvimento da planta. Esses benefícios são cumulativos e podem explicar o porquê os sistemas de sucessão mantiveram produtividades mais altas e estáveis ao longo de quinze anos de experimento", afirma Luís Guilherme. Esses efeitos se tornam ainda mais importantes em anos de seca, quando solos mais estruturados e biologicamente ativos ajudam as plantas a suportar melhor o estresse hídrico e a manter a produtividade.

"As evidências que reunimos confirmam que a diversificação no campo é uma estratégia eficaz para otimizar o uso da terra, aumentar o rendimento financeiro, a produtividade, a resiliência e a eficiência no uso de fertilizantes, apoiando o movimento de transição para uma economia de baixo carbono", conclui Sofia.

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