Produção de amendoim no Brasil ganha escala, tecnologia e espaço no mercado global
Cultura avança em produtividade, exportações e profissionalização, mas ainda enfrenta desafios técnicos e logísticos para sustentar expansão
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Fonte: Pexels
O amendoim vem consolidando sua posição como uma das culturas mais dinâmicas do agronegócio brasileiro, impulsionado por ganhos tecnológicos, expansão de área e crescente inserção no mercado internacional.Tradicionalmente associado ao consumo em doces e aperitivos, o grão possui importância estratégica muito maior: além do consumo in natura, abastece as indústrias de óleo, pastas, snacks, confeitaria e alimentação animal, com amplo aproveitamento de subprodutos. Hoje, o amendoim ocupa a sexta posição entre as oleaginosas em volume de óleo produzido no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidos Para Alimentação e Agricultura de 2025.
Crescimento da produção no Brasil
No Brasil, a cadeia vive um ciclo de forte crescimento, com a área destinada ao cultivo da cultura saltando de 150 mil hectares em 2016 para 290 mil hectares em 2026, conforme dados analisados pela DATAGRO. Para a temporada 2025/26, a projeção da consultoria é de que a produção nacional deve atingir 1,250 milhão de toneladas, novo recorde e alta de 6% sobre o ciclo anterior. Boa parte desse crescimento está concentrada em São Paulo, responsável por cerca de 85% da produção nacional, embora a cultura esteja avançando para estados como Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso e Tocantins.Segundo Marcos Michelotto, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), o movimento reflete a profissionalização da cadeia. “O amendoim vem numa evolução importante. A cadeia como um todo tem investido bastante em tecnologia, tem se aperfeiçoado cada vez mais nos processos e atingido novos mercados”, afirma.
Características e singularidades
A cultura do amendoim, no entanto, apresenta particularidades agronômicas que a tornam mais complexa do que outras oleaginosas. Diferentemente de soja e feijão, o fruto do amendoim se desenvolve de forma subterrânea. Após a fecundação, o ginóforo — estrutura que prolonga o ovário — penetra no solo, onde ocorre a formação da vagem. Por isso, o cultivo exige solos leves, bem drenados e preferencialmente arenosos, que facilitem a penetração das estruturas reprodutivas e o desenvolvimento das vagens, conforme as orientações da 3º edição doGuia de Produção de Amendoim da Embrapa, lançado em dezembro do ano passado.Além disso, o amendoim demanda condições climáticas específicas para expressar seu potencial produtivo, com temperaturas ideais entre 25°C e 30°C e precipitação de 500 mm a 700 mm bem distribuída ao longo do ciclo. A cultura é particularmente sensível ao déficit hídrico durante a floração e formação das vagens, fases em que a falta de chuva pode comprometer fortemente a produtividade.Outro fator que torna a produção mais desafiadora é o manejo operacional. A colheita mecanizada ocorre em duas etapas: primeiro, o arranquio e inversão das plantas, que expõem as vagens para secagem no campo; depois, o recolhimento e separação das vagens. “A colheita do amendoim é bastante complexa e feita em duas etapas. Tem muitas operações que são exclusivas da cultura”, explica Michelotto.Do ponto de vista fitossanitário, o cultivo exige atenção intensiva. O amendoim é suscetível a doenças como cercosporiose, ferrugem, verrugose e murcha-de-Sclerotium, além de pragas de solo e de parte aérea. Em alguns casos, são necessárias até nove aplicações de fungicidas por ciclo para garantir o controle adequado. “Ela exige grande aporte de insumos fitossanitários para controle de pragas e doenças”, destaca o pesquisador.Outro desafio crítico é o controle de aflatoxinas — micotoxinas produzidas por fungos que podem contaminar o produto e inviabilizar sua comercialização. Como o mercado internacional, especialmente a União Europeia, possui padrões rígidos de segurança alimentar, o monitoramento ocorre desde o campo até a indústria, com sistemas de autocontrole considerados referência pelo Ministério da Agricultura. “A cadeia do amendoim hoje é vista pelo Ministério como modelo de autocontrole”, afirma Michelotto.
Exportação e mercado internacional
Com consumo interno ainda reduzido — cerca de 1,1 kg por habitante ao ano, muito abaixo da média mundial —, o mercado externo tornou-se fundamental para o setor. Aproximadamente 60% a 70% da produção brasileira é destinada à exportação, tendo a União Europeia como principal destino e mercado de maior valor agregado, segundo informações da Associação Brasileira do Amendoim (Abex-BR). O Brasil disputa espaço principalmente com Argentina e Estados Unidos, enquanto busca ampliar presença em mercados como China, Rússia, Egito e Japão.Apesar do avanço, o setor ainda enfrenta limitações para crescer mais rapidamente. A concentração das unidades de beneficiamento e exportação em São Paulo eleva os custos logísticos para novas fronteiras agrícolas. Além disso, o cenário global de maior oferta pressiona preços internacionais. “Precisamos acessar novos mercados e exportar mais para poder produzir mais. Não pode ser o contrário”, pondera Michelotto.
Perspectivas para o futuro
Para os próximos anos, a expectativa segue positiva, sustentada pelo avanço do melhoramento genético, da mecanização e da abertura comercial. O IAC, por exemplo, trabalha no desenvolvimento de novas cultivares alto oleicas — preferência do mercado internacional — e com maior resistência a doenças, o que pode reduzir significativamente os custos de produção. “Se conseguirmos lançar um material mais resistente, podemos reduzir pela metade o número de aplicações de fungicidas”, afirma o pesquisador.Com uma cadeia cada vez mais tecnificada e voltada à exportação, o amendoim se consolida como uma cultura de alto valor agregado no agro brasileiro. O desafio daqui para frente será equilibrar expansão produtiva, abertura de mercados e ganhos de competitividade para transformar o Brasil em um dos principais players globais do setor.