Projeção de safra recorde de café traz risco de pressão baixista nos preços, alerta especialista
Quando a produção sobe demais, mercado internacional não absorve de imediato todo o produto, e o excesso derruba as cotações
16:01
No mesmo mês em que o campo brasileiro se prepara para uma das maiores colheitas de café da história, o cenário para o produtor é de uma amarga tensão entre a fartura e a rentabilidade. A projeção de uma safra recorde, estimada em 66 milhões de sacas para 2026, acende um alarme econômico: o que acontece quando o país produz mais café do que o mundo parece disposto a consumir?O volume esperado é um marco histórico, um salto gigantesco se comparado às 30 a 40 milhões de sacas colhidas nos anos 2000. Esse avanço reflete décadas de investimento em tecnologia, manejo sofisticado do solo e a resiliência do agricultor. Contudo, a celebração da produtividade vem acompanhada de uma preocupação real, ditada pela implacável lei da oferta e da procura.“O cenário é um paradoxo clássico do agronegócio em que a safra bate recorde e o risco de prejuízo caminham juntos. Quando a produção sobe demais, o mercado internacional não absorve todo o café de imediato, e o excesso derruba os preços. Para o produtor, especialmente quem investiu em tecnologia e expansão, isso pode ser devastador", explica Tiago Costa, professor do curso de Agronomia da UniCesumar de Maringá.A equação se torna ainda mais complexa quando os custos de produção entram na conta. Nos últimos anos, os produtores viram os preços de fertilizantes, defensivos, mão de obra e combustível dispararem. "O produtor enfrenta uma equação difícil: gastos cada vez maiores, com receitas cada vez menores. Isso exige planejamento, busca por eficiência e até alternativas para reduzir custos", acrescenta Costa.Cenário global e o impacto localO Brasil, que já responde por cerca de um terço do café consumido no planeta, sente a pressão de todos os lados. Além da própria superprodução, concorrentes como Vietnã e Colômbia também apresentam estoques elevados, saturando o mercado global e dando maior poder de barganha aos compradores internacionais. O resultado é uma queda no preço da saca nas bolsas de Nova York e Londres, que servem de referência para o valor pago ao agricultor aqui.Essa dinâmica aumenta o risco de endividamento, principalmente para pequenos e médios produtores que apostaram em financiamentos para modernizar suas lavouras. "O acesso ao crédito, que antes era uma oportunidade, pode virar um problema se não houver planejamento. O cenário de preços baixos pode dificultar o pagamento de empréstimos e até comprometer a viabilidade das propriedades", alerta o professor da UniCesumar.