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As tão sonhadas e esperadas sementes de cana-de-açúcar

Tecnologia que promete revolucionar o setor sucroenergético caminha a passos lentos, gerando cada vez mais expectativa no mercado

11:57

Foto: Freepik
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Há anos, quem frequenta feiras, congressos e conferências do setor sucroenergético já se acostumou a ouvir discussões sobre um tema que mistura inovação, transformação produtiva e é cercado de grande expectativa: as sementes sintéticas de cana-de-açúcar. A tecnologia é frequentemente apontada como uma das maiores revoluções em desenvolvimento para a cultura, capaz de mudar uma lógica de plantio que pouco se alterou desde sua introdução no Brasil.

No entanto, tão grande quanto a expectativa do setor é a incerteza em torno de quando a inovação estará disponível comercialmente e quais serão, na prática, os ganhos econômicos e operacionais para produtores e usinas.

O projeto é liderado pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que há mais de uma década investe em pesquisas para transformar o plantio da cana em um sistema semelhante ao utilizado em culturas como milho e soja.

“A semente é um sonho de consumo do produtor. Todo mundo que a gente conversa ou que vem nos visitar sempre pergunta sobre o assunto. Essa questão do plantio da cana é uma grande dor do setor”, afirma o diretor comercial do CTC, Luiz Antônio Dias Paes, em entrevista exclusiva ao Universo Agro.

Atualmente, o plantio da cana-de-açúcar é feito de forma vegetativa, utilizando pedaços do colmo da própria planta como muda. Para formar um novo canavial, é necessário reservar áreas específicas para a produção desse material, conhecido como viveiro. Após a colheita, os colmos são cortados, transportados e depositados em sulcos no solo, onde darão origem às novas plantas

As expectativas em torno do projeto das sementes ganharam novo impulso neste ano. Em janeiro, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), aprovou R$ 72,6 milhões em recursos para três iniciativas do CTC, incluindo a construção da Planta Demonstrativa de Sementes.

Meses depois, foi a vez do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovar mais R$ 83,96 milhões para projetos do CTC. Parte significativa desses recursos está destinada ao avanço das sementes sintéticas de cana-de-açúcar e à implantação da primeira planta industrial de demonstração da tecnologia, a qual veio a ser inaugurada na segunda metade de abril.

Situada em Piracicaba, no interior de São Paulo, a primeira Unidade de Produção de Sementes (UPS) foi construída ao longo de 15 meses, com um investimento total próximo de R$ 100 milhões, e representa um passo importante no desenvolvimento da tecnologia.

Segundo Paes, a unidade inaugurada ainda não é uma fábrica comercial, mas uma planta de demonstração criada para acelerar o aprendizado industrial e a evolução dos processos produtivos.

“Ela é uma fábrica de demonstração. Ainda não tem escala comercial, mas possui todos os recursos, estrutura, equipamentos e capacidade de automação para avançarmos mais uma etapa na evolução do projeto”, explicou.

De acordo com o executivo, a instalação incorpora sistemas modernos de classificação do material biológico, transplante automatizado e processos industriais que permitirão ganhos de escala e qualidade. Atualmente, a planta possui capacidade para produzir sementes suficientes para o plantio de aproximadamente 500 hectares por ano em um turno de operação. 

Apesar do avanço, o CTC ainda evita estabelecer uma data para o lançamento comercial da tecnologia.

“Ainda não temos uma data cravada. Isso depende muito do aprendizado que teremos com a operação da planta e da evolução dos processos, do rendimento e dos custos. Mas demos um passo extremamente significativo com a implantação dessa unidade”, diz Paes.

O Brasil possui atualmente 9,22 milhões de hectares plantados com cana-de-açúcar, sendo 8,3 milhões no Centro-Sul e 920 mil no Norte-Nordeste, mostram dados da DATAGRO. A consultoria projeta ainda que o país deve processar quase 700 milhões de toneladas da matéria-prima na safra 2026/27, somando as duas regiões.  

A principal proposta das sementes sintéticas é clara: substituir o modelo tradicional de plantio da cana, que utiliza pedaços do colmo como material propagativo. De acordo com o CTC, hoje, para formar um hectare de canavial, são necessárias cerca de 16 toneladas de cana destinadas exclusivamente ao plantio.

“Plantamos cana há cerca de 500 anos praticamente da mesma forma. Você produz um canavial, deixa crescer, corta o colmo e enterra no chão para formar um novo canavial. Estamos enterrando aproximadamente 16 toneladas de cana para produzir um hectare novo”, destaca Paes.

Com a nova tecnologia, a expectativa é reduzir esse volume para aproximadamente 400 kg de sementes sintéticas por hectare, gerando impactos significativos em toda a cadeia operacional.

Segundo o diretor comercial do CTC, a adoção das sementes permitirá o uso de máquinas mais leves, com menor consumo de combustível e necessidade de potência. Além disso, poderá reduzir a compactação do solo, simplificar a logística de plantio e diminuir a dependência dos viveiros.

“Hoje, aproximadamente 5% do canavial brasileiro é utilizado como fonte de muda. É uma área que poderia estar produzindo mais cana, açúcar e etanol se não fosse necessária para esse fim”, observa.

Outro benefício esperado está relacionado à velocidade de disseminação de novas variedades genéticas. Atualmente, a multiplicação de um novo material ocorre de forma gradual, exigindo vários ciclos de expansão até alcançar grandes áreas comerciais.

“A semente vai permitir fazer isso de maneira muito mais rápida. O ganho de produtividade decorrente da adoção de novas variedades poderá ser obtido em menos tempo”, afirmou.

Embora o CTC ainda não tenha definido o preço futuro das sementes, a avaliação econômica considera todo o sistema de produção. Segundo Paes, a competitividade da tecnologia dependerá da soma entre custo da semente, operação de plantio, redução de equipamentos, menor uso de viveiros e ganhos produtivos.

O ciclo da cultura, no entanto, não deve sofrer alterações significativas. Assim como ocorre atualmente, uma área plantada com sementes sintéticas deverá estar pronta para o primeiro corte após cerca de 12 meses, dependendo da variedade utilizada e da época de plantio.

Uma das mudanças mais profundas deverá ocorrer na mecanização. O plantio das sementes exigirá equipamentos completamente diferentes dos utilizados hoje. “É um desenvolvimento totalmente novo. A máquina de semente tem outra estrutura e outra tecnologia. Será muito mais leve e tecnificada”, explica Paes.

O CTC trabalha atualmente com duas parceiras nesse desenvolvimento: a John Deere e a Tatu Marchesan. O objetivo é criar equipamentos capazes de elevar substancialmente a capacidade operacional do plantio.

De acordo com o executivo, uma plantadora convencional cobre atualmente entre oito e dez hectares por dia. A meta inicial é que os novos equipamentos atinjam cerca de 15 hectares diários. No futuro, a expectativa é alcançar entre 50 e até 100 hectares por dia por máquina.

Além dos ganhos operacionais, a tecnologia do CTC também promete alterar a estratégia de renovação dos canaviais brasileiros. Atualmente, a média nacional é de cinco a seis cortes antes da sua reforma. Segundo Paes, a facilidade para introduzir variedades mais modernas pode estimular ciclos de renovação mais curtos.

“A expectativa é reduzir esse estágio médio de reforma, porque será possível colocar mais rapidamente no campo variedades mais novas e mais produtivas”, afirma.

Após mais de uma década de pesquisas e investimentos que já somam cerca de R$ 1 bilhão, o projeto das sementes sintéticas avança para uma nova fase. Ainda sem data definida para chegar ao mercado, a tecnologia continua cercada de expectativas. Se conseguir entregar os ganhos prometidos em produtividade, eficiência operacional e renovação varietal, poderá representar uma das maiores transformações já vividas pela canavicultura brasileira desde a introdução da cultura no país.

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