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A fatura do Golfo já está a caminho de Paranaguá

Por Arlélio Leite dos Santos

13:43

A fatura do Golfo já está a caminho de Paranaguá
Tem um erro que o agro brasileiro comete com obstinada regularidade: confundir distância geográfica com distância econômica.

Quando um gestor no Mato Grosso abre o noticiário e vê mísseis no Mar Vermelho, o instinto é fechar a aba. Para ele o problema esta do lado de lá. Não tem nada a ver com a safra daqui. Entendo o instinto. Mas ele está errado — e isto está custando dinheiro agora, mesmo que ainda não apareça no balanço.

Infelizmente o choque de Ormuz não chega com sirene, em uma ambulância ou viatura policial. Chega como uma fatura 90 dias depois, quando o contrato de fertilizante vence e o distribuidor cota a renovação. Nesse momento, o gestor vai descobrir que ureia subiu 32% ou mais em uma semana em março. Que não existe rota alternativa para o volume de fertilizante que transita pelo Golfo Pérsico — diferente de 2022 com a Rússia, onde havia como desviar. Aqui o produto está fisicamente preso atrás de uma linha de guerra.

Mas tem um detalhe ainda mais incômodo que a maioria das análises não está colocando na mesa: o Brasil está dos dois lados desta conta. Somos o maior exportador de soja do mundo. E importamos 85% dos fertilizantes que precisamos. O mesmo conflito que em teoria eleva o valor do que vendemos está na prática encarecendo o principal insumo do que produzimos. E ainda tem a safra recorde de 177 milhões de toneladas pressionando o preço da soja para baixo ao mesmo tempo.

Isso não é catástrofe. É complexidade. E complexidade exige decisão — não espera para ver no que vai dar. O CFO que travar preços de fertilizante na reunião deste mês vai preservar entre R$ 10 e R$ 25 por tonelada produzida. Número estimado, sujeito à operação específica — mas a ordem de grandeza é real. Aquele que esperar pela próxima reunião paga a conta do risco que não quis assumir quando ainda havia margem de negociação.

Tem gente que vai me dizer: "mas o Brasil compra de Rússia, Canadá, Marrocos — não só do Golfo." É verdade. E é exatamente por isso que o mercado global de fertilizante funciona como vasos comunicantes. Se a oferta do Golfo trava, Índia e Europa vão disputar os mesmos navios do Canadá que nós usamos. O preço sobe em todo lugar. A origem local do seu fornecedor não te protege do preço global gerado pela guerra.

Quatro coisas para fazer agora:

- Mapear esta semana quanto de nitrogênio a operação precisa comprar a mercado nos próximos 180 dias. Sem esse número, o Conselho não governa risco. Apenas observa risco e já adianto ele não bonito quando chega perto demais.

- Ligar para os distribuidores e fixar preço em reais. A janela de renegociação está aberta — e fecha a cada semana que passa.

- Abrir os contratos de fornecimento. Cláusula de Força Maior redigida em 2018 não foi feita para o mundo de 2026. Fornecedores europeus já invocaram. O precedente existe. A proteção do lado brasileiro, ainda não.

- Definir um gatilho de defesa: se o VIX (índice americano) cruzar 32 e o Brent ficar acima de US$ 100 ou mais por cinco dias, acionar compra emergencial sem esperar o calendário de reuniões.

A distância entre Ormuz e o seu EBITDA não é de dez mil quilômetros. É de 90 dias e de um contrato que você ainda não abriu. Pense nisso....

:: Confira a análise ilustrada.

* Minha análise foi produzida com base em dados públicos até março/2026 e no meu modelo/sistema que chamo MHEBI. As estimativas são sempre condicionais — confirme seus dados com sua operação antes de decidir.

Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder scadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).

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