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A guerra na Ucrânia está criando uma nova indústria de massa. A munição de hoje são componentes eletrônicos. Milhões deles

Por Alex Lima

17:02

A guerra na Ucrânia está criando uma nova indústria de massa. A munição de hoje são componentes eletrônicos. Milhões deles
Em julho, Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia já produz 10 milhões de drones por ano e pretende chegar a 20 milhões. É uma declaração do governo ucraniano, não uma auditoria independente da produção, mas revela a ordem de grandeza da ambição industrial. Grande parte dessa escala está nos FPVs — First Person View, ou drones de "visão em primeira pessoa", pilotados remotamente através da câmera embarcada. Segundo o comandante ucraniano Oleksandr Syrskyi, a inteligência de Kyiv estima que a Rússia pretende fabricar 7,3 milhões de FPVs em 2026, aproximadamente 20 mil por dia. Trata-se de um plano estimado, não de produção auditada.

Nos drones de longo alcance temos uma medida mais concreta: consumo. A Rússia lançou 36.456 drones do tipo Shahed no primeiro semestre de 2026. Só em maio foram 8.161 — 263 por dia —, dos quais aproximadamente 5.181 eram Shahed/Geran de ataque.

A produção, porém, não deve ser confundida com lançamentos. Uma estimativa recente citada pelo político coloca a capacidade russa atual acima de 36 mil Geran por ano, algo superior a 3 mil por mês. Como os lançamentos de ataque em maio superaram essa capacidade, a diferença sugere consumo de estoques acumulados ou uma estimativa de produção conservadora. Moscou planeja ainda expandir uma fábrica de fibra de carbono no Tartaristão; quando plenamente operacional, em 2029, o material adicional poderia sustentar cerca de 28 mil drones extras por ano.

Cada drone transforma motores, baterias, controladores, chips, câmeras, rádios, magnetos e materiais compostos em bens consumíveis. Mas há uma distinção importante: milhões de drones ainda são pequenos frente aos grandes mercados de commodities. Imagine, apenas para ordem de grandeza, 20 milhões de FPVs utilizando baterias médias de 0,1 kWh. Isso corresponderia a cerca de 2 GWh. Só a implantação mundial de baterias para veículos elétricos chegou a 1,2 TWh em 2025 — cerca de 600 vezes mais. Portanto, a guerra de drones dificilmente explica o preço global do lítio.

O impacto, entretanto, aparece nos gargalos industriais. Motores BLDC, magnetos NdFeB, câmeras térmicas, módulos de rádio, sensores, controladores de voo, fibra óptica e pequenos turbojets são mercados muito menores. Neles, alguns milhões de unidades adicionais podem competir diretamente por capacidade de fábrica. Na Europa, fabricantes de pequenos motores a jato já correm para ampliar a produção diante da demanda por drones e interceptores.

Isso ocorre justamente quando o restante da economia também pressiona a cadeia. Entre janeiro de 2025 e abril de 2026, a IEA calcula que metais-base avançaram cerca de um terço, o lítio mais que dobrou, o cobalto subiu aproximadamente 130% e minerais estratégicos mais que dobraram. O tungstênio chegou a aumentar cerca de seis vezes — movimento associado sobretudo a restrições de oferta e controles comerciais, não aos drones isoladamente.

Nos Estados Unidos, outra forma de enxergar o ambiente industrial é pelos PPIs do BLS. Desde janeiro de 2020, nossos cálculos sobre essas séries mostram alta próxima de 49% em motores e geradores, 28% em baterias e 36% em semicondutores e outros componentes eletrônicos até agosto de 2026. São índices industriais amplos — não uma cesta específica de drones.

O principal fornecedor dessa nova indústria global não deveria surpreender. Fabricantes ucranianos estimam ainda depender da China para aproximadamente 85% dos componentes dos FPVs simples. A China produz 70%–80% dos drones comerciais globais e domina categorias como controladores de velocidade, sensores, câmeras e hélices. Rússia e Ucrânia chegam a comprar componentes nas mesmas fábricas chinesas; o Financial Times relata ainda que empresas russas conseguiram adquirir linhas inteiras de produção. Mais abaixo na cadeia, Pequim controla 70%–95% do refino de vários minerais críticos, cerca de 85% do refino de terras raras e 98% dos materiais catódicos LFP.

Mas isso também significa que a China não é simplesmente um fornecedor neutro. Desde 2023–24, Pequim colocou sob controle de exportação motores, equipamentos de rádio, câmeras infravermelhas, lasers e sistemas inerciais utilizados em drones, além de proibir exportações civis destinadas explicitamente ao uso militar.

Nesse sentido, não ser beligerante preserva para Pequim uma enorme opcionalidade comercial e, sobretudo, poder sobre os gargalos industriais dos quais ambos os lados dependem.

Para investidores, é aí que está a lista a monitorar: motores, magnéticos, sensores, imagem térmica, módulos de rádio, fibra de carbono, interceptores e guerra eletrônica — mais do que simplesmente cobre ou lítio.

E existe uma leitura brasileira. O Brasil possui recursos relevantes de terras raras, a matéria-prima dos magnetos NdFeB que estão entre os gargalos dessa indústria. Também responde por cerca de 93% da produção mundial de nióbio e é um dos grandes produtores globais de grafite. O problema é que a América Latina ainda refina localmente apenas cerca de 20% dos principais minerais que extrai.

War means business. Mas, nesta guerra, o prêmio não está apenas em quem possui o minério. Está em quem controla a fábrica, o componente e o gargalo. E hoje esse lugar é ocupado pela China.

Por Alex Lima, fundador e estrategista-chefe de conteúdo da DA Economics.

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