Conheça o hedge que está decantando nos tanques da sua usina
Por Arlélio Leite dos Santos
16:01
Direto ao ponto: a maioria das usinas do Centro-Sul brasileiro tem um problema cambial que o balanço esconde e o Conselho raramente nomeia com a devida precisão.Entre 30% e 50% do custo total de uma usina é indexado ao dólar — fertilizante, maquinário importado, serviço de dívida. A receita é quase toda em real. Quando o dólar sobe, a margem some pelos dois lados. Quando o real aprecia, o exportador perde competitividade. Não tem saída elegante. Só tem posicionamento prévio ou reação tardia.A solução tradicional da Faria Lima é vender derivativo cambial. Funciona. Mas como vocês sabem custa caro. Chamada de margem, custo de carrego, data de vencimento, renovação constante. É aluguel de proteção. Você paga todo mês e quando para de pagar, a proteção some (geralmente quando você mais precisa).O que eu quero falar é sobre outra coisa. Sobre o hedge que já está dentro da usina, sendo descartado como resíduo de processo.Biometano não é pauta ESG. Quem apresenta assim está usando o argumento mais fraco possível para um ativo muito mais sério. Biometano, quando bem estruturado, é receita dolarizada gerada a partir de resíduo próprio, sem derivativo, sem data de vencimento, sem chamada de margem.A usina que indexa a venda do biometano ao TTF europeu (formacao de preços na Europa) ou ao JKM asiático (formaçao de preços na ASIA) cria uma posição longa em dólar que o banco não consegue replicar ao mesmo custo.Some os CBIOs — créditos de descarbonização do RenovaBio — e o mesmo metro cúbico de biometano monetiza duas vezes: receita em dólar e certificado em real. Dois fluxos, moedas com correlações opostas, sobre o mesmo resíduo que hoje vai para o descarte.Mas vou ser honesto sobre as condições de verificação — porque fingir que não existem não ajuda ninguém.A ANP ainda não regulamentou tarifas de injeção na rede de gasodutos. Enquanto isso não acontece, o biometano produzido fica limitado a consumo próprio ou transporte por modal dedicado. Escala menor, custo maior. Isso é real e precisa estar na modelagem. O mercado global de GNL sofreu uma reversão drástica e agora projeta um déficit severo de oferta para 2026/27, reflexo da destruição da infraestrutura no Qatar e das interrupções causadas pela guerra. Com o salto abrupto do TTF (preço do gás europeu) devido à escassez, o indexador do hedge ganha uma pressão e relevância sem precedentes. Nesse contexto, embora a eletrificação avance, a crise energética global mantém os preços dos combustíveis fósseis em patamares elevados, o que preserva (e ate aumenta) a competitividade do biometano e adia a sua esperada compressão de paridade com o diesel.Ainda assim, a alternativa de não fazer nada é estruturalmente pior.Derivativo bancário cobre o trimestre. Biometano cobre o ciclo todo. A usina que convive com descasamento cambial estrutural não tem o luxo de tratar defesa energética como decisão futura.O caminho sensato não é tudo ou nada. É sequência.A ANEEL já tem regulamentação madura para geração elétrica a partir de biogás. Isso se faz agora, com a regulação que existe. Menor hedge cambial, mas execução imediata e real.A injeção de biometano na rede espera a ANP finalizar. Estruture o projeto. Não execute ainda. A exportação como GNL é hipótese de médio prazo para quem tem cinco anos de visibilidade no board.Na renovação de arrendamento — a que acontece agora, não daqui a dois anos — inclua cláusula de uso do solo para biodigestor. O que hoje não é precificado pelo arrendador vai valer entre R$ 200 e R$ 800 por hectare em valor presente. Deixar essa cláusula de fora é transferir valor futuro de graça.Quatro tarefas para o Conselho:
Descobrir nos próximos dez dias qual percentual exato da dívida e do custo variável está indexado ao dólar. Sem esse número, qualquer conversa sobre hedge é abstrata.
Decidir em 90 dias qual rota executar primeiro — eletricidade on-site ou biometano na rede. São etapas do mesmo ativo, não decisões excludentes.
Estruturar emissão de CRA verde (ou outra estratégia possível) para financiar o projeto depois que a rota regulatória estiver clara.
Incluir a cláusula de biodigestor no próximo arrendamento que vencer.
Em 20 anos, o risco cambial estrutural do Brasil vai continuar existindo. A usina que não transformar resíduo em hedge vai continuar pagando aluguel de proteção para o banco — mês a mês, ciclo a ciclo, para sempre.Minha análise foi produzida com base em dados públicos até março/2026 e no meu modelo/sistema que chamo MHEBI. As estimativas são sempre condicionais — confirme seus dados com sua operação antes de decidir.Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).