E35 e SAF disputam a mesma molécula - e o Brasil ainda não escolheu
Por Arlélio Leite dos Santos
16:10
No dia 01 de Agosto inicia-se o uso regular do E32 mas entusiastas do combustível verde, dirigentes do setor sucroenergético e até o governo de forma contida (talvez devido a continuidade do imbróglio bélico entre EUA e IRÃ) já comemoraram publicamente a proposta de testar e elevar novamente a mistura de etanol na gasolina o chamado E35. A celebração e compreensível: o E30, em vigor desde agosto de 2025 e agora o E32 já provaram viabilidade técnica sem dano relevante a frota, e cada ponto adicional de mistura significa demanda garantida por lei, dentro de casa, em moeda local. Quem viveu as décadas em que o etanol dependia do humor do petróleo (e parecer seguir dependendo no Brasil) e do bolso do consumidor sabe o valor de um piso politico.Mas existe uma conta, um aspecto importante desta boa ideia que não apareceu em nenhum discurso, seja da comemoração da implantação do E32 ou mesmo dos testes futuros do E35, e este item esquecido é a tese deste artigo: o E35 e o combustível sustentável de aviação (SAF) disputam a mesma molécula, saída do mesmo canavial ou milharal, e o Brasil esta celebrando os dois compromissos sem verificar se a disponibilidade fabril e de matéria prima entrega ambos. Mandato domestico crescente e fronteira futura de exportação não são aliados automáticos. São concorrentes pelo mesmo litro, e nação que promete o mesmo litro duas vezes acaba descumprindo uma promessa com juros.Vamos as evidências do problema antes de discutir o mecanismo (aliás um excelente e bem vindo problema). A safra 2026/27 deve adicionar quase ou mais de 4 bilhões de litros de etanol a oferta nacional, sobre uma produção projetada na casa de 30 bilhões de litros ou mais de hidratado de anidro. Parece folga. Nao é. Cada ponto percentual de mistura adicional na gasolina consome centenas de milhões de litros de anidro por ano e a frota brasileira baseada no ciclo otto não para de crescer. Do outro lado, a aviação global assumiu mandatos de descarbonização que crescem década adentro e a rota alcohol-to-jet, que transforma etanol em querosene sustentável é uma das principais apostas tecnológicas para cumpri-los. Cada litro de SAF produzido por essa rota consome múltiplos litros de etanol. A aritmética é simples e desconfortável: somados, o mandato domestico pleno e expandido somado a uma indústria de SAF relevante exigem uma expansão de oferta que o ritmo atual de investimento em matéria prima e destilarias talvez não consigam entregar a encomenda simultanea dos mercados (internacional de SAF e interno carburante).O mecanismo da disputa tem três camadas que o discurso oficial dos produtores e políticos mistura muito bem mas que a analise estratégica, consequente e de longo prazo precisa separar detalhadamente. Vamos aos argumentos, aos racionais para quem vai se expor ao movimentos:Primeiro: os dois mercados tem preços políticos diferentes. O mandato domestico e barato para o governo, caro para o consumidor da bomba, e imediato no efeito. O SAF e caro para a companhia aérea, estratégico para a balança comercial, e longo na maturação, porque exige plantas de conversão que custam bilhões e levam anos para performar. Quando os dois disputarem a mesma molécula escassa, a tentação de qualquer governo será resolver o conflito a favor do eleitor da bomba, porque ele vota mais cedo. O investidor que esta avaliando uma planta de SAF alcohol-to-jet no Brasil sabe disso, e essa duvida regulatória entra no custo de capital do projeto antes da primeira estaca. Cada comemoração de mistura adicional sem sinalização simultânea de salvaguarda ao SAF aumenta esse custo.Segundo: a expansão da oferta não responde a discurso de politico ou decreto de ultima hora. A cana ou as destilarias baseadas em milho não dobram de área ou unidades de processamento por portaria e as fronteiras de crescimento real, produtividade agrícola, etanol de milho e biomassa de segunda geração, tem prazos e gargalos próprios independentes. O etanol de milho cresce rápido mas disputa grão com outras atividades como consumo interno e a exportação. O etanol de segunda geração continua prometendo mais do que entrega ha quinze anos ou mais. Prometer demanda crescente em duas frentes sem plano de oferta correspondente não e politica energética, ao contrário, é leilão de escassez futura com data marcada e o setor sucroalcooleiro sabe disso e já passou por isso no passado.Terceiro, agora a camada que ninguém quer tocar: a escolha não precisa ser binaria, mas precisa ser explicita. Existe claramente um desenho racional em que o mandato domestico cresce ate o ponto em que a frota flex e o ciclo Otto otimizam emissão por real gasto e o excedente estrutural se direciona a aviação com contratos longos e salvaguardas. Existe também o desenho oposto, que prioriza a bomba e deixa o SAF para a sobra. Ambos são empresarialmente, privadamente e politicamente defensáveis. O que não é defensável é o estado atual: dois compromissos crescentes, nenhuma hierarquia declarada, e a decisão real sendo tomada por omissão, safra a safra, pelo órgão que menos deveria decidir politica energética de longo prazo, ou seja, quem tem decidido sempre é e o caixa de curto prazo das usinas.Vamos as consequência desta falta de estratégia setorial e política brasileira apresentada por tipo leitor.Para a usina e o grupo investidor: a indefinição é risco, mas também é opção. Ativos de conversão flexível, capazes de servir bomba hoje e aviação amanha, valem premio num cenário em que a hierarquia ainda será definida. Compromissos irreversíveis com uma unica rota, em qualquer direção, embutem aposta regulatória que precisa ser precificada como tal.Para a companhia aérea e o offtaker internacional de SAF: contrato de suprimento brasileiro sem clausula explicita de proteção contra mudança de mandato domestico é contrato incompleto ja na origem, no começo do relacionamento. A pergunta a fazer ao fornecedor não é quanto custa o litro e sim o que aconteceria com o seu litro contratado quando o próximo governo subir a mistura de novo.Para o formulador de politica: o Brasil tem a chance rara de ser para o SAF o que foi para o etanol veicular ou seja o pais que escreveu o manual. Mas manual se escreve com hierarquia de usos, plano de expansão de oferta e salvaguardas criveis, não com duas promessas simultâneas e um sorriso cínico de politico aproveitador de curto prazo. A janela é curta: os mandatos de aviação do mundo rico serão supridos por alguém na próxima década e capital de SAF que não ancorar aqui ancora em outro lugar e não volta mais.O fecho devolve a tese. O setor comemorou o E32 e estudos de E35 como vitória, e realmente é uma grande vitória. Mas vitória sobre o que já se tem e mais fácil do que decisão bem pensada e sustentável sobre o que se quer. A molécula é uma só. O Brasil precisa dizer, em voz alta e com números, quem bebe primeiro. Enquanto não disser, quem decide é a escassez, e a escassez não da entrevista, não avisa e não se preocupa com as consequências futuras. Quem já teve 95% dos carros vendidos nos anos 1980 a álcool e quase 0% dez anos depois (anos 1990) deveria entender bem este problema porque ele não tem nada de novo é apenas uma possibilidade de um repeteco atualizado no presente para o futuro do Setor Sucroenergético brasileiro.Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).