Ecossistemas de valor irão moldar o agro da próxima década
Por Felipe Daltro
14:46
Quem irá capturar o maior valor econômico do agronegócio na próxima década? Essa é uma pergunta que merece ser feita por todos os agentes que participam, de alguma maneira, da transformação do campo brasileiro. Mais do que uma reflexão sobre quais empresas estarão na liderança, essa é uma discussão sobre como o próprio setor irá gerar, distribuir e capturar valor nos próximos anos.Minha resposta é simples: não serão necessariamente as empresas que tiverem a melhor semente, o melhor defensivo, a máquina mais moderna ou a ferramenta digital mais sofisticada. Serão aquelas capazes de conectar essas soluções em um ecossistema que gere resultados concretos para quem está na ponta da cadeia, ou seja, o produtor rural.Estamos diante de uma mudança estrutural no agronegócio. O valor está migrando do produto isolado para a capacidade de integrar genética, biotecnologia, proteção de cultivos, agricultura digital, dados, conectividade, financiamento e acesso ao mercado. Cada uma dessas soluções continuará tendo sua importância individualmente, mas a capacidade de fazê-las trabalhar de maneira integrada será cada vez mais determinante.O agricultor não acorda todo dia cedo pensando em comprar uma tecnologia. Ele acorda pensando em tomar a melhor decisão para sua lavoura e proteger sua rentabilidade, diante de um ambiente marcado por incertezas de clima, juros, crédito, mercado e custos de produção. A tecnologia é um meio para alcançar esse objetivo, não o objetivo final.Por isso, quem conseguir transformar dados em decisões mais assertivas e, principalmente, simplificar a complexidade da produção agrícola terá uma vantagem relevante. Em um ambiente em que o produtor é exposto a um volume crescente de informações e alternativas, facilitar a tomada de decisão será tão importante quanto oferecer uma boa solução.Essa mudança também altera a maneira como enxergamos a competição. O futuro não será construído por empresas que tentarem controlar isoladamente cada elo da cadeia. Nenhuma companhia, por maior que seja sua capacidade de investimento, pesquisa ou distribuição, terá sozinha todas as respostas para um setor que possui diversas variáveis.A liderança estará com os orquestradores de ecossistemas.Isso, na prática, significa criar ambientes abertos nos quais startups, empresas de tecnologia, instituições de pesquisa, distribuidores, cooperativas, agentes financeiros e produtores possam colaborar em torno de objetivos comuns. A lógica deixa de ser a de uma relação exclusivamente transacional e passa a ser a de uma construção conjunta, em que diferentes competências se complementam para resolver problemas que nenhum dos participantes conseguiria solucionar sozinho.Um produto de alta tecnologia continuará sendo fundamental. Uma boa semente, uma molécula inovadora ou uma solução digital eficiente seguirá sendo uma credencial importante para chegar ao campo e demonstrar capacidade de inovação. Mas o produto, sozinho, não será suficiente para sustentar uma relação de longo prazo.O agricultor moderno busca mais do que uma tecnologia. Ele precisa mitigar riscos, simplificar processos e alcançar rentabilidade sustentável por hectare. Isso exige uma combinação de soluções agronômicas, digitais, financeiras e de suporte técnico. E é aí que o conceito de ecossistema ganha força: quando diferentes soluções deixam de competir isoladamente e passam a atuar de forma complementar em benefício de uma decisão melhor no campo.Mas nenhum ecossistema se sustenta apenas por tecnologia. Ele precisa de pessoas.Para isso, também precisamos renovar modelos, abrir espaço para novos talentos e aceitar que a transformação exige diversidade de pensamentos, colaboração e humildade para reconhecer que ninguém tem todas as respostas.No final do dia, o maior valor econômico não estará na tecnologia em si. Estará na confiança que ela gera e no resultado que entrega para quem produz alimentos. É essa combinação entre inovação, relacionamento e resultado que transforma uma solução pontual em uma parceria de longo prazo.O agro da próxima década será menos sobre quem possui os melhores ativos isoladamente e mais sobre quem consegue conectá-los.E, em um setor onde nenhuma empresa consegue resolver tudo sozinha, talvez a maior vantagem competitiva seja justamente saber construir aquilo que não se consegue construir sozinho: um ecossistema de valor.Por Felipe Daltro, Diretor Sênior de Marketing para Brasil e Paraguai na Corteva.