Fusões e aquisições no agronegócio: o capital muda de mãos, mas permanece no setor
Por Gabriel Fernando Pesciallo
16:59
Ao contrário da onda de fusões e aquisições (M&A) observada durante o ciclo de liquidez abundante dos últimos anos que registou um aumento de transações de grande visibilidade que remodelaram qualitativamente o panorama do agronegócio brasileiro, o mercado em 2026 entrou numa nova fase. Desta vez, o valor criado é ainda mais notório ao nível da eficiência operacional, do fluxo de caixa e da adequação estratégica adicionado também a compras de oportunidade.Apesar da política de crédito restritiva, das taxas de juro elevadas e de uma onda de falências em vários setores do agronegócio, os ativos estratégicos continuam a ter procura entre investidores locais e estrangeiros. O próprio facto de o número de transações anunciadas até agora este ano ser significativo deve-se à transferência de capital de uma parte do agronegócio para outra.Duas transações de grande escala anunciadas em julho demonstram que a capacidade de criar sinergias e otimizar a cadeia de abastecimento através da consolidação de operações está gradualmente a tornar-se mais importante do que a corrida pelos volumes de matéria-prima.
Raízen e Adecoagro
A primeira transação diz respeito à venda da Usina de Caarapó ( Caarapó MS) pela Raízen à Adecoagro por 760 milhões de reais, incluindo os ativos industriais da empresa, os terrenos e os contratos de fornecimento. Prevê-se que a usina processe 3,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na campanha de 2025/26. O negócio, que aguarda aprovação da autoridade da concorrência (CADE), é uma das maiores operações de fusões e aquisições do agronegócio brasileiro este ano.Entretanto, a venda deste ativo pela Raízen insere-se num quadro mais alargado de alienação de ativos não rentáveis e de otimização da estrutura de capital da empresa. A Raízen iniciou um processo de reestruturação extrajudicial, o que desencadeou uma onda de vendas de ativos no agronegócio. Para a empresa, a estratégia atual centra-se agora na redução da dívida e no aproveitamento de projetos de elevada rentabilidade.Em contrapartida, a aquisição deste ativo, estrategicamente localizado no Mato Grosso do Sul, enquadra-se perfeitamente na estratégia da Adecoagro de criar uma cadeia de abastecimento integrada. Isto é especialmente verdadeiro tendo em conta os planos da empresa para desenvolver uma fábrica de biodiesel na região. Conforme referido no comunicado, em vez de construir uma nova fábrica, a Adecoagro, que já possui várias instalações de transformação, pretende adquirir um ativo nas proximidades para minimizar os riscos e os custos logísticos, maximizando simultaneamente o retorno do investimento.
A Zen-Noh Grain Brasil adquire participação no Grupo Cereal
Numa outra transação, a Zen-Noh Grain Brasil, a divisão comercial da maior cooperativa agrícola do Mundo que é sediada no Japão, a Zen-Noh Corporation, adquiriu uma participação de 30% no Grupo Cereal, uma empresa familiar sediada em Rio Verde (GO). Especializado na comercialização de cereais, venda de insumos, transformação, produção de biodiesel e nutrição animal, o Grupo Cereal, liderado pela família Barauna, continua a operar como uma entidade independente sob a mesma equipa de gestão.As condições da transação destacam uma estratégia crescente das empresas agrícolas internacionais de construir cadeias de abastecimento nacionais fiáveis no Brasil, bem como uma mudança no sentido de parcerias de longo prazo. Em primeiro lugar, a aquisição desta participação garantiu à Zen-Noh um acesso mais seguro aos fornecimentos no Brasil. A entrada no Grupo Cereal adiciona força a estratégia de longo prazo que a companhia Japonesa tem no Brasil e deve aumentar a originação de grãos com destino ao país nipônico. Anteriormente, a empresa japonesa já tinha adquirido participações numa empresa semelhante no mercado de cereais, a ALZ Grãos, que opera exclusivamente no MATOPIBA.Entretanto, para o Grupo Cereal, este negócio representa uma oportunidade de tirar partido da rede global do novo investidor e expandir as suas operações. Em particular, de acordo com o comunicado de imprensa, o Grupo Cereal poderá angariar novos capitais para financiar os seus projetos de crescimento e reforçar a sua posição como fornecedor líder no setor dos serviços agrícolas.
Compradores estratégicos dominam o mercado de fusões e aquisições
As duas transações acima descritas fazem parte de um panorama mais alargado do funcionamento atual do mercado de fusões e aquisições no agronegócio brasileiro. Os compradores estratégicos são muito procurados pela sua capacidade de otimizar a cadeia de abastecimento, consolidar volumes de matérias-primas e introduzir avanços tecnológicos nas suas operações. Ao mesmo tempo, os investidores financeiros têm menos oportunidades de obter lucros a curto prazo, dado o elevado custo do financiamento na economia local.De acordo com alguns especialistas, vários fatores irão impulsionar a onda de fusões e aquisições a curto prazo. As empresas familiares que pretendem vender os seus ativos durante o período de transição, os grandes grupos que precisam de reduzir o endividamento no atual contexto de taxas de juro elevadas e os investidores financeiros que se preparam para uma onda de operações de fusões e aquisições irão, todos, contribuir para a consolidação. Além disso, os setores mais atraentes para a consolidação continuam a ser a bioenergia, o armazenamento e a distribuição de produtos agrícolas, insumos e produtos biológicos, bem como a propriedade de terras.
Um olhar para o horizonte
Para os observadores da Faria Lima, o capital do setor do agronegócio brasileiro está concentrado em indústrias estratégicas, tornando o mercado de ativos agrícolas altamente atrativo. No entanto, em termos de lógica de investimento, as coisas mudaram, uma vez que a maioria dos intervenientes dá agora prioridade aos volumes e à eficiência operacional, o que lhes permite maximizar o fluxo de caixa e o lucro. Os líderes de mercado, que dominam a atividade de fusões e aquisições, estão posicionados para beneficiar significativamente da reestruturação da cadeia de abastecimento.Em 2026, as maiores transações de fusões e aquisições irão afetar o desenvolvimento futuro do agronegócio brasileiro, com transformações em grande escala à vista. O novo paradigma tornará a concorrência ainda mais intensa nos níveis de produtividade, eficiência e integração global, com o objetivo de alcançar o máximo retorno sobre os ativos, atrair novos investidores e garantir uma posição de liderança nos mercados locais.Por Gabriel Fernando Pesciallo, CEO daRE/MAX Agro.