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GAFFFF 2026: Da potência à decisão, quem alimentará o mundo?

Por Marco Ripoli

14:30

GAFFFF 2026: Da potência à decisão, quem alimentará o mundo?
Há uma pergunta que parece simples, mas sintetiza o desafio mais estratégico que o agronegócio brasileiro enfrentará nos próximos anos: quem alimentará o mundo em 2035, 2040 e 2050? A resposta já não reside na simples expansão horizontal da área cultivada. O protagonismo do Brasil dependerá da capacidade de produzir mais com menos recursos, absorver choques climáticos cada vez mais severos, acelerar a adoção de tecnologia aplicada, equacionar o financiamento da produção, formar pessoas e, acima de tudo, converter produtividade bruta em competitividade sistêmica e sustentável.

É exatamente sob essa ótica integradora que o GAFFFF 2026 reúne em São Paulo lideranças, produtores, executivos, formuladores de políticas públicas e investidores. A programação do evento traduz o fim definitivo da era das soluções isoladas: crédito e governança, inteligência artificial, robótica e máquinas agrícolas, transição energética, geopolítica comercial, logística multimodal, bioinsumos e a nova relação do campo com a sociedade compõem um mosaico indissociável. Não existe mais uma única variável capaz de explicar o sucesso ou a resiliência de uma atividade no campo.

No painel que terei a honra de conduzir — “Quem Alimentará o Mundo? O Papel das Máquinas na Próxima Década” —, o ponto de partida é inescapável: se a população global continuará demandando mais alimentos, fibras e biocombustíveis enquanto os recursos naturais e o tempo de reação se tornam mais restritos, a produtividade precisa ser ressignificada. Produtividade, daqui para frente, já não significa apenas colher mais sacas por hectare a qualquer custo. Significa produzir com precisão milimétrica, previsibilidade, menor desperdício e capacidade de demonstrar ao mercado exatamente como cada tonelada foi gerada.  Participam comigo os executivos Cristiano Correia (VP John Deere), Marcelo Traldi (VP Valtra e Fendt) e Eduardo Kerbauy (VP CNH).

Da tração mecânica às plataformas estratégicas de decisão


Nessa transição profunda, a máquina agrícola deixa de ser mero implemento operacional e assume o papel de plataforma estratégica de dados e inteligência. A história da mecanização no Brasil é marcada por saltos extraordinários, mas a próxima fronteira é qualitativamente diferente. Tratores, colheitadeiras e pulverizadores já não podem ser avaliados somente pela potência do motor, capacidade de carga ou velocidade operacional. O valor real reside na quantidade e qualidade das decisões que esses equipamentos são capazes de apoiar em tempo real.

O debate sobre Inteligência Artificial e automação — temas centrais nos palcos de tecnologia do GAFFFF — finalmente amadureceu: abandonou o terreno das promessas abstratas para solucionar dores concretas da rotina agrícola. Falamos de telemetria preditiva que antecipa paradas operacionais, pulverização ultralocalizada guiada por visão computacional, planejamento de semeadura ajustado a microclimas e gestão de tráfego que protege a estrutura física do solo. Contudo, a tecnologia só cumpre sua função quando gera retorno econômico claro. Antes de escolher a máquina ou a ferramenta digital, o produtor precisa identificar o problema operacional a resolver, mensurar o impacto financeiro e integrá-la ao seu modelo de gestão. Sem retorno econômico, inovação é apenas custo adicional.

Risco climático e a nova equação da sustentabilidade


Essa disciplina gerencial torna-se ainda mais urgente diante da volatilidade climática. Secas prolongadas, excessos pluviométricos e extremos térmicos deixaram de ser contingências esporádicas para se tornarem componentes estruturais do planejamento agrícola. Nesse cenário adverso, máquinas conectadas, sensores agronômicos e modelos de previsão atuam diretamente como ferramentas de blindagem e mitigação de risco. A capacidade de aproveitar janelas operacionais estreitas e aplicar insumos com precisão cirúrgica define a diferença entre o lucro e a frustração de safra.

Essa mesma lógica redefine a discussão sobre sustentabilidade, desfazendo o falso antagonismo histórico entre preservação e resultado financeiro. No cotidiano da fazenda, eficiência operacional é a base da sustentabilidade. Reduzir consumo de diesel, otimizar doses de fertilizantes e defensivos, diminuir perdas na colheita e melhorar o manejo do solo são decisões simultaneamente ambientais e econômicas. O mercado internacional intensifica exigências de rastreabilidade, balanço de carbono e conformidade socioambiental. O grande trunfo brasileiro será provar que as práticas sustentáveis e a conservação florestal são atributos concretos de competitividade global.

Capital, crédito e a dimensão humana da modernização


Nenhuma revolução tecnológica no campo se sustenta, contudo, sem mecanismos sólidos de financiamento. Discutir mecanização de ponta e automação sem falar de custo de capital é um descompasso com a realidade. O investimento em maquinário e conectividade ocorre muito antes da colheita, tornando a modernização altamente dependente de taxas de juros, garantias, seguro rural e prazos adequados. A ênfase que o GAFFFF confere ao crédito rural, aos novos instrumentos de mercado e ao papel estratégico dos canais de distribuição reflete essa verdade: a inovação só transforma o setor quando é economicamente acessível e viável ao produtor.

Ao mesmo tempo, essa evolução impõe uma valorização sem precedentes do capital humano. As máquinas autônomas e os softwares analíticos não eliminam o trabalho humano; eles elevam a exigência de qualificação técnica e capacidade analítica. A próxima safra exigirá profissionais híbridos, aptos a combinar o conhecimento agronômico de campo com a leitura crítica de dados, telemetria e algoritmos. O investimento em capacitação técnica e liderança é a única garantia de que a tecnologia será traduzida em valor operacional.

Da fazenda ao porto: a cadeia integrada e a sociedade


Mesmo a melhor operação agrícola sucumbe quando esbarra em limitações estruturais sistêmicas. O ganho de eficiência de uma colheitadeira inteligente não compensa gargalos em estradas, ferrovias, armazenagem ou atracação portuária. O agronegócio precisa ser encarado como uma cadeia ininterrupta que articula insumos, indústria, logística multimodal, mercado de capitais e comércio exterior. Em um contexto geopolítico mundial marcado por tensões regulatórias e protecionismo, nossa competitividade dependerá da capacidade de antecipar dinâmicas comerciais e remover gargalos logísticos.

Por fim, há uma fronteira decisiva que o agro precisa transpor: a comunicação com a sociedade urbana. Quem alimenta o mundo não é um indivíduo isolado, mas um ecossistema complexo que conecta lavouras a centros urbanos. Quando o consumidor não compreende a tecnologia, os riscos e o rigor científico por trás do alimento que chega à mesa, abrem-se espaços para desinformação. Construir esse diálogo pós-porteira, fundamentado em dados, ciência e transparência, é uma necessidade estratégica para a reputação e o futuro do setor.

A pergunta que norteia meu painel — quem alimentará o mundo? — não tem resposta única ou isolada. A resposta será o produtor em sinergia com a máquina; o investimento em simbiose com a sustentabilidade regenerativa; a ciência agronômica integrada à inteligência artificial; e o campo em comunhão com a sociedade.

O GAFFFF 2026 nos convoca a liderar essa transformação com visão de longo prazo e capacidade executiva. A próxima década já começou. E o protagonismo do Brasil será determinado por nossa habilidade de transformar conhecimento, tecnologia e vocação natural em liderança global duradoura.

O agro não para!

Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

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