Geopolítica no Campo: Como o Oriente Médio Afeta o Agro Brasileiro
Por Marco Ripoli, MSc., PhD.
16:52
Na virada de fevereiro para março de 2026, a escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu um dos principais pontos de fragilidade do comércio global: a vulnerabilidade das cadeias agroindustriais diante de choques geopolíticos. Mais do que uma questão de segurança internacional, trata-se de impacto direto sobre logística, insumos, custos de produção e previsibilidade de mercados.No mundo atual, uma crise no Golfo Pérsico deixa rapidamente de ser regional. Seus efeitos alcançam o produtor rural brasileiro por meio do aumento do frete, da volatilidade dos fertilizantes, da elevação do diesel e da instabilidade comercial.
US$ 12,4 bilhões em jogo
Em 2025, o Brasil exportou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para o Oriente Médio, equivalente a 7,4% das exportações totais do agro brasileiro. O Irã sozinho respondeu por US$ 2,9 bilhões.Em cadeias específicas, essa dependência é estrutural. O Oriente Médio absorveu 29% das exportações brasileiras de carne de frango, totalizando 1,5 milhão de toneladas. No milho, a participação foi ainda maior: 31,5% do volume exportado, cerca de 12,9 milhões de toneladas. O Irã destacou-se como principal comprador individual do milho brasileiro, adquirindo aproximadamente 9 milhões de toneladas.Esses números mostram que o Oriente Médio deixou de ser apenas um mercado complementar. Em determinados segmentos, tornou-se peça central para a sustentação das exportações brasileiras.
O efeito dominó começa no mar
Os conflitos na região afetam diretamente as principais rotas marítimas globais. O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo, enquanto o Bab el-Mandeb conecta Ásia, Europa e parte da África.Quando essas rotas entram em risco, o impacto é imediato: fretes mais caros, seguros marítimos elevados e necessidade de redirecionar embarcações. Em muitos casos, navios passam a contornar o continente africano, adicionando semanas às operações logísticas e aumentando significativamente os custos.Além disso, o Oriente Médio é ponto estratégico de abastecimento para navios que seguem em direção à Ásia. Quando o sistema entra sob pressão, os reflexos se espalham rapidamente por toda a cadeia global de transporte.O resultado é um ambiente de menor previsibilidade e maior custo operacional para exportadores e importadores.
Fertilizantes: a vulnerabilidade estrutural
O Brasil continua altamente dependente de fertilizantes importados, adquirindo mais de 85% do que consome. Rotas ligadas ao Oriente Médio concentram cerca de 45% da ureia global, 25% da amônia e volumes relevantes de DAP, MAP e enxofre.Em 2025, 15,6% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil tiveram origem na região. O problema, porém, vai além desse percentual. A concentração de fornecedores globais em poucos países amplia a fragilidade do sistema.Em momentos de tensão geopolítica, o mercado reage rapidamente. Recentemente, houve aumentos de preços entre 10% e 12% em apenas um dia, acompanhados pela suspensão temporária de negociações por parte de fornecedores. Em cenários assim, o mercado deixa de operar apenas pela lógica tradicional de preços e passa a funcionar sob proteção de risco.
Petróleo, diesel e inflação no campo
A energia representa outro importante canal de transmissão da crise. Tensões no Oriente Médio historicamente pressionam o preço do petróleo, afetando diretamente o custo do diesel no Brasil.Esse impacto alcança toda a cadeia agroindustrial: operações mecanizadas, transporte rodoviário, armazenagem e distribuição de alimentos. Fertilizantes nitrogenados também dependem fortemente do gás natural como matéria-prima, ampliando o efeito da volatilidade energética sobre os custos agrícolas.O resultado é uma compressão simultânea das margens do produtor e da logística, elevando o risco operacional em todo o sistema.
Resiliência não significa imunidade
O agronegócio brasileiro construiu uma extraordinária capacidade de adaptação nas últimas décadas. Diversificou mercados, incorporou tecnologia e ganhou competitividade global. Soube aproveitar oportunidades em momentos de ruptura, como na guerra comercial entre Estados Unidos e China e nas disrupções provocadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia.Mas resiliência não significa invulnerabilidade.A estrutura exportadora brasileira ainda depende fortemente de poucos mercados estratégicos. A concentração na China já representava um desafio relevante. Agora, soma-se a instabilidade no mundo árabe-muçulmano, especialmente em cadeias como proteínas halal e milho.O Brasil tornou-se líder global na produção e exportação de carne halal, posição construída ao longo de décadas de adequação a rígidos padrões religiosos e comerciais. Qualquer interrupção, mesmo temporária, pode abrir espaço para concorrentes internacionais e comprometer mercados consolidados.
O caminho à frente
Algumas direções tornam-se cada vez mais necessárias: diversificar mercados, reduzir dependência de regiões vulneráveis, fortalecer a segurança de insumos, investir em infraestrutura logística resiliente e utilizar a diplomacia alimentar como ativo estratégico nas relações internacionais.O ponto central não é se novas disrupções ocorrerão, mas reconhecer que o sistema global já opera sob tensão recorrente. O agronegócio brasileiro continuará competitivo, mas competitividade isolada já não garante estabilidade em um ambiente de fragmentação geopolítica crescente.A questão deixou de ser apenas capacidade de reação. Passou a ser capacidade de antecipação.O agro não para.
Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.