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A máquina parada custa mais que a máquina quebrada e o balanço do agro não mostra isso

Por Arlélio Leite dos Santos

13:57

A máquina parada custa mais que a máquina quebrada e o balanço do agro não mostra isso

A decisão que o setor está tendo de tomar agora e a tese deste artigo:


Setembro abre a janela de plantio da soja no Centro-Oeste. A decisão que se coloca em muitas operações neste momento é se a frota entra na safra com a revisão completa ou com a revisão possível. A diferença entre as duas é uma linha de caixa em um ano em que a Anfavea projeta queda de 6,2% nas vendas de máquinas agrícolas, para 46,7 mil unidades, e atribui a retração à crise de rentabilidade e ao juro alto. A frota nova não vem. A frota existente vai fazer a safra. Esse é o contexto em que a manutenção vira variável de ajuste. Quando a margem aperta, o gestor corta o que não tem consequência imediata visível. A manutenção preventiva é exatamente isso. O corte não gera perda hoje. Gera probabilidade de perda depois, em uma data que ninguém sabe.

A tese é que o custo de uma máquina indisponível em janela crítica é maior que o custo de mantê-la disponível, e que o balanço rural não mostra isso porque contabiliza a manutenção como despesa do período e a indisponibilidade como nada. Não existe conta contábil chamada colheita atrasada em três dias por falta de peça. Existe a conta de reparo, que aparece depois, e a produtividade menor, que se dilui no resultado da safra sem endereço. Esse é um problema de gestão de ativos, e é o campo em que atuo como vice-presidente da ABRAMAGRO uma associação do agronegócio. Declaro o vínculo porque o tema toca diretamente a entidade. A opinião é pessoal e não usa a posição como argumento.

Primeiro esclareço por que o custo da máquina parada pode ser invisível:


O mecanismo do custo invisível tem pelo menos três partes. A primeira é a estrutura do custo de indisponibilidade. Uma colheitadeira parada em fevereiro, no pico da colheita de soja em Mato Grosso, não custa o valor do reparo. Custa o valor do reparo mais a produção que fica no campo enquanto ela está parada, mais a perda de qualidade se chover, mais o frete que sobe porque a janela de escoamento encurtou. Nenhum desses itens é lançado como custo da máquina. São lançados, quando são, como custo da lavoura.

A segunda parte é a idade da frota. Não localizei fonte oficial atualizada para a idade média da frota agrícola brasileira, e por isso trato este ponto como lacuna. O que é público é o volume de vendas, que a Anfavea projeta em queda livre novamente em 2026 após queda de quase 20% em 2024. Frota que não é renovada envelhece por definição, e máquina mais velha tem taxa de falha maior. A combinação de frota envelhecendo com manutenção cortada é o cenário de risco máximo, este é o cenário de 2026.

A terceira parte é a concentração das operações no tempo. A agricultura brasileira de grãos opera em janelas cada vez mais estreitas. Plantio de soja em outubro, colheita em janeiro e fevereiro, plantio de milho segunda safra logo depois. Uma parada de 48 horas em setembro é um inconveniente. A mesma parada em fevereiro é uma perda de produtividade que não se recupera.

Como monitorar e gerir este grande e custoso problema? O que a situação exige?


A situação exige de quem tem exposição a esse risco é uma contabilidade paralela, simples, que a contabilidade oficial não faz. Para cada máquina crítica, registrar três números: horas paradas por evento não programado na última safra, custo estimado de cada hora parada na janela crítica, e custo da manutenção que teria evitado a parada. Com esses três números, a decisão de cortar manutenção deixa de ser uma decisão de caixa e vira uma decisão de risco com preço ou custo conhecido.

Na maioria das operações que conheço por dados públicos de setor, o custo da hora parada em janela crítica é um múltiplo do custo da manutenção preventiva correspondente. Quando esse múltiplo é conhecido, o corte de manutenção deixa de parecer economia e transforma-se em custo observável e indesejado. 

O contraditório, o argumento contrário em sua versão forte:


O argumento contrário mais sólido é o do porte. Manutenção preditiva, com sensores, análise de óleo e monitoramento de vibração, tem custo fixo que o produtor pequeno e médio não dilui. Para ele, a manutenção corretiva é a única economicamente viável, e a tese deste texto seria um conselho de quem opera em escala industrial para quem não opera ou sendo direto uma teoria pouco útil.

A concessão, o aceite do argumento são parciais. É verdade que a manutenção preditiva de alto custo não cabe em toda operação. Mas a alternativa à preditiva não é a corretiva pura. É a preventiva disciplinada, que segue o plano do fabricante ou de um especialista qualificado e antecipa a janela crítica. Ela não exige sensor. Exige calendário e caixa reservado. E o custo da indisponibilidade das máquinas cresce exponencialmente com o porte da operação, o que significa que quem mais perde com as paradas imprevistas  é justamente quem tem escala para pagar, planejar, realizar e se beneficiar diretamente da prevenção.

Há um segundo argumento contrário: em ano de juro a 14%, o caixa vale mais que a máquina, e adiar manutenção para preservar liquidez é racional. Concedo, concordo que o caixa sempre vale mais. O que não concordo é que adiar manutenção preserve o caixa. Acho exatamente que na prática acontece o contrário e se transfere o desembolso para uma data pior, com juro acumulado e com perda de produção somada e isto não é economia é custo mais alto acumulado. 

Quem ganha, quem perde, quem controla o tempo e o que se observar?


Nesse arranjo, ganha o fornecedor de peça e serviço em regime de urgência, que precifica a pressa com margem maior. Perde o produtor sem plano de manutenção, que paga a peça cara e a produção perdida. Quem controla o tempo é o calendário agrícola, que não negocia com ninguém. E há um terceiro agente com posição relevante: o credor. Um produtor com frota indisponível em janela crítica tem risco de crédito maior, e o mercado de CPR, que já soma mais de R$ 565 bilhões de reais em estoque segundo o Ministério da Agricultura, precifica risco individual. Manutenção é, nesse sentido, um indicador claríssimo de gestão de crédito.

O indicador que pode ser observado, que sinaliza se a operação está no lado errado dessa tese é o número de horas paradas por evento não programado na janela de janeiro a março de 2027, comparado com a mesma janela de 2026. Se o número subir enquanto a manutenção foi cortada, a tese está confirmada na própria operação. Se ficar estável, a operação tinha folga de manutenção que não sabia que tinha, e o corte foi correto. O prazo de observação é uma safra.

Limitações deste texto e a condição objetiva que invalida a tese:


Este texto não apresenta série pública de idade da frota agrícola brasileira, porque não localizei fonte oficial atualizada. Não apresenta custo médio de hora parada, porque esse número varia por cultura, por região e por porte e não existe informação consolidada pública. O argumento é de mecanismo, não de estatística, e deve ser lido como tal. Também não trata de máquinas importadas de origem asiática, cujo pós-venda a própria Anfavea aponta como limitado, porque isso exigiria dado de disponibilidade de peça que não é público.

O risco que invalida a tese é a normalização do custo de capital combinada com renovação acelerada de frota. Se a Selic cair a ponto de reabrir o Moderfrota em escala nacional e a frota for renovada, a taxa de falha cai e o custo da indisponibilidade encolhe. Nesse cenário, o argumento de que a manutenção preventiva paga continua válido, mas com margem menor. O indicador de mudança de regime é o volume anual de vendas de máquinas agrícolas voltando a crescer dois dígitos por dois anos consecutivos. Infelizmente no momento que escrevo este indicador muitas vezes cai dois dígitos ao ano!

Resumo final: A contabilidade rural registra a manutenção como despesa e a quebra como prejuízo pontual. Não registra o custo da máquina indisponível na janela em que ela deveria estar operando. Este texto sustenta que esse custo invisível, o da indisponibilidade em período crítico, supera o custo da manutenção evitada, e que a decisão de adiar manutenção em ano de margem apertada é uma decisão de risco disfarçada de economia. O contraditório é que o produtor pequeno não amortiza a manutenção preditiva. A resposta é que a manutenção preditiva não é a única alternativa à corretiva, e que o custo da indisponibilidade cresce com o porte da operação, o que torna a tese mais relevante justamente para quem tem mais a perder. O principal indicador a se observar é o número de horas de máquina parada por evento não programado em cada janela de plantio e colheita.

Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).

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