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O mundo reorganizou o comércio. O Brasil ficou no passado?

Por Marco Ripoli, MSc., PhD.

08:40

O mundo reorganizou o comércio. O Brasil ficou no passado?
O comércio internacional entra em 2026 cercado por um conjunto relevante de incertezas que, em ciclos anteriores, seriam suficientes para frear investimentos e reduzir fluxos globais. Fragmentação geopolítica, disputas tarifárias, aumento do custo do capital, pressões logísticas e instabilidade regulatória compõem um ambiente claramente adverso. Ainda assim, o dado mais relevante do cenário atual aponta na direção oposta: a confiança empresarial global permanece elevada. Segundo o Global Trade Observatory, 94% dos executivos de cadeias produtivas e logísticas esperam que o comércio mundial em 2026 cresça no mesmo ritmo ou acima de 2025 — um ano já recorde em volume e valor.

Essa aparente contradição revela uma mudança estrutural importante. O comércio global deixou de depender de estabilidade para crescer. Empresas passaram a operar sob volatilidade permanente, incorporando choques como parte de seus modelos econômicos. A resiliência deixou de ser um mecanismo defensivo e tornou-se um ativo competitivo central, diretamente associado à capacidade de crescimento e captura de valor.

Para o Brasil, esse cenário exige uma leitura pragmática. A demanda global por bens, energia, alimentos, minerais, manufaturas intermediárias e serviços continuará existindo. A questão não é mais a existência do comércio, mas a capacidade dos países de reduzir fricções, atrair investimentos e posicionar-se de forma estratégica nas cadeias globais. O Brasil possui vantagens claras — especialmente em setores como agronegócio, energia, mineração, celulose e alimentos industrializados —, mas enfrenta entraves estruturais que limitam sua competitividade.

O redesenho das cadeias produtivas globais reforça esse ponto. Mais da metade dos executivos pretende diversificar fornecedores em 2026, enquanto 44% planejam elevar estoques e 36% avançam em estratégias de realocação produtiva para países aliados. Esse movimento favorece economias com escala, disponibilidade de recursos e previsibilidade institucional. O Brasil atende parcialmente a esses critérios, mas ainda carrega custos sistêmicos elevados que reduzem sua atratividade relativa.

Outro vetor relevante é a crescente multipolaridade do comércio. Europa e China despontam como principais polos de crescimento, enquanto o comércio Sul-Sul já representa cerca de 44% das trocas globais. Para o Brasil, isso amplia o leque de oportunidades e reduz a dependência de mercados tradicionais. No entanto, a conversão dessa tendência em ganhos concretos depende de acordos comerciais efetivos, eficiência logística e integração regulatória. Sem esses elementos, a diversificação tende a permanecer apenas estatística, sem impacto econômico relevante.

A tecnologia se consolida como principal diferencial competitivo. Aproximadamente 70% das operações globais já estão parciais ou totalmente digitalizadas, e cerca de 95% das empresas utilizam algum tipo de inteligência artificial. Apesar disso, o impacto econômico dessas tecnologias ainda é limitado pela baixa integração sistêmica. Executivos globais indicam que a IA será o principal vetor de transformação do comércio nos próximos cinco a oito anos. Isso implica uma redefinição dos critérios de competitividade: além de custo de produção, passam a ser determinantes a visibilidade das cadeias, eficiência aduaneira, compliance regulatório, rastreabilidade e integração digital.

É nesse ponto que os gargalos brasileiros ganham relevância econômica. Sessenta por cento dos executivos apontam alfândega e procedimentos aduaneiros como principal fonte de atrasos e disrupções. No Brasil, essa ineficiência se traduz diretamente em aumento de custos, perda de previsibilidade e menor atratividade para investimentos produtivos. A infraestrutura de armazenagem e os hubs logísticos aparecem como limitações adicionais, reforçando um problema histórico que impacta desde commodities até produtos de maior valor agregado.

Outro fator crítico é o acesso ao financiamento do comércio exterior. Cerca de 61% das empresas globais consideram o trade finance caro ou difícil. No Brasil, onde o custo do capital já é estruturalmente elevado, esse problema se intensifica, especialmente para pequenas e médias empresas. O resultado é uma menor internacionalização, perda de competitividade e forte concentração das exportações em grandes grupos. Trata-se de um entrave macroeconômico que limita o potencial de expansão do país no comércio global.

O cenário geral indica que o comércio continuará crescendo, porém de forma mais seletiva. Países que reduzirem fricções institucionais, ampliarem acordos comerciais, digitalizarem processos e desenvolverem instrumentos modernos de financiamento tendem a ganhar participação relativa. Aqueles que não avançarem nesses aspectos continuarão exportando, mas com menor captura de valor e maior exposição a choques externos.

Para o Brasil, 2026 representa um ponto de inflexão. Mais do que continuidade de tendências, trata-se de um teste de inserção internacional. As cadeias produtivas já estão sendo reorganizadas, o capital já está sendo alocado e os critérios de competitividade já foram redefinidos. A questão central deixa de ser se o comércio global crescerá — isso parece dado — e passa a ser se o Brasil conseguirá crescer junto, capturando valor, ou se continuará operando aquém do seu potencial em um sistema que já mudou suas regras fundamentais.

O Agro não para.

Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

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Agricultura

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