Nossa produtividade limitada pelo nutriente importado
Por Guilherme Fontana
09:30
O Brasil está finalizando 2026 com um dado que, à primeira vista, poderia parecer positivo: as importações de fertilizantes nitrogenados caíram de forma expressiva. Entre janeiro e agosto, as compras externas de nitrogênio contido em ureia, sulfato de amônio e nitrato de amônio ficaram cerca de 20% abaixo do registrado no mesmo período de 2025, atingindo o menor patamar dos últimos seis anos. E não há sinais de recuperação nesse último trimestre do ano.No entanto, a leitura correta desse cenário é de alerta. A queda acontece em um momento estratégico do calendário agrícola. O segundo semestre é justamente quando produtores e distribuidores costumam acelerar a recomposição de estoques para as aplicações de nitrogênio na safrinha de milho. Quando as importações recuam nesse período – e não apresentam sinais de recuperação no curto prazo –, a pergunta que o mercado se faz é: “vamos ter nitrogênio no momento certo e a um custo competitivo?”.O Brasil é uma potência agrícola global, mas continua estruturalmente dependente do exterior para alimentar suas lavouras. O País importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. No caso dos nitrogenados, a exposição é ainda maior, próxima de 90%.Isso significa que uma decisão tomada em outro continente – um conflito, uma restrição de exportação, uma alta no preço do gás natural, um estreito marítimo sob pressão ou uma mudança cambial – impacta diretamente no custo de produção do agricultor brasileiro. É uma vulnerabilidade cíclica que vem se ampliando e, infelizmente, acontece nos momentos de mais necessidade do agro brasileiro.Menos nitrogênio importado hoje pode custar produtividade amanhã.O nitrogênio na forma de ureia é um exemplo claro desse impacto. Matéria-prima de grande relevância para milho, cana-de-açúcar, café e outras culturas, depende de uma cadeia global intensiva em gás natural bastante sensível a tensões geopolíticas. Neste ano as importações brasileiras de ureia recuaram 23% entre janeiro e agosto, enquanto as de nitrato de amônio caíram 25%.
Reduzir a importação não reduz a necessidade
O solo precisa de nutrientes para sustentar o desenvolvimento das culturas e, nesse caso, a Lei de Liebig* é clara: Menos é menos. Quando o produtor planta com menos nitrogênio – seja por falta de disponibilidade, seja por decisão de contenção de custo, ou os dois – o efeito aparece na produtividade, na uniformidade da lavoura, no potencial de resposta à adubação seguinte e, principalmente, na capacidade de ter uma safra produtiva e competitiva.Para um País como o nosso, que pretende crescer em produção e manter competitividade internacional, essa é uma decisão arriscada. Há uma tentação compreensível em esperar preços melhores. Parte do mercado brasileiro tem adotado essa postura, na expectativa de que a China amplie exportações de ureia ou de que as condições internacionais se tornem menos voláteis. O problema é que esperar também pode ter preço.O tráfego novamente reduzido pelo Estreito de Ormuz, o encarecimento do gás natural e a incerteza geopolítica continuam sustentando um ambiente de volatilidade. Ao mesmo tempo, a aproximação da safra norte-americana pode aumentar a disputa global por cargas de nitrogenados. O comprador que postergar demais a decisão pode encontrar menos disponibilidade, maior concorrência e custos ainda mais elevados.Para o produtor, isso se traduz em uma realidade simples: mais capital de giro, mais exposição ao câmbio, mais risco logístico e menos previsibilidade para planejar a safra. A CNA/Senar destaca que, em 2026, o Brasil está importando menos fertilizantes, mas pagando mais por eles – um movimento que exige mais capital de giro e amplia a exposição do produtor ao câmbio, à logística internacional e à geopolítica.A discussão agora não deve se limitar a “comprar mais barato” ou “esperar o preço cair”. A pergunta estratégica é estrutural: como reduzir, de forma gradual, mas permanente, a exposição do negócio agrícola diante de uma cadeia de suprimentos que o produtor não controla?A resposta passa por diferentes frentes de ação:
Planejamento antecipado de compra e gestão ativa de estoques;
Diversificação de fontes, fornecedores e rotas logísticas;
Eficiência agronômica, com análise de solo, dose certa, momento certo e menor perda de nutrientes;
Uso de bioinsumos, fixação biológica e práticas que melhoram a ciclagem de nutrientes;
Desenvolvimento de alternativas domésticas de produção de nitrogênio, inclusive por meio de amônia e fertilizantes nitrogenados produzidos com matrizes energéticas de menor carbono.
Quatro dessas soluções apontam na direção operacional, e muitas delas já são adotas com resultados positivos para o produtor. Uma delas indica um caminho estrutural onde o produtor não pode tratar fertilizante nitrogenado apenas como uma compra pontual de cada safra anual. Ele precisa adotar uma decisão estratégica, de longo prazo. A busca aqui é por segurança operacional, competitividade e principalmente perenidade do negócio.
O Brasil não pode terceirizar sua produtividade
O Brasil responde por cerca de 8% da demanda global de fertilizantes. Ao mesmo tempo, permanece como um dos países mais dependentes de importações para sustentar sua produção agrícola. Esse desequilíbrio cria um paradoxo: o País compete globalmente com uma vantagem natural extraordinária – terra, clima, água e capacidade produtiva –, mas perde essa competitividade por decisões externas.A redução recente nas importações de nitrogenados deve ser vista como um sinal frequente, não como uma situação pontual. Se ela refletir apenas cautela e adiamento, o risco é conhecido: estoques menores, compras apressadas, preços mais altos e decisões tomadas sob pressão.Se, por outro lado, servir de gatilho para que produtores, cooperativas, indústria e poder público acelerem alternativas de suprimento, eficiência e produção local, o País poderá transformar uma vulnerabilidade em uma agenda concreta de competitividade. A transição para maior autonomia nutricional não precisa acontecer de uma vez. Ela pode começar pelo planejamento, pela eficiência no uso do nitrogênio e pela construção gradual de alternativas locais de produção. Já foi assim no passado e essa autonomia pode ser recuperada com planejamento.Porque, no campo, adiar a decisão sobre fertilizante raramente elimina o problema. Ele apenas transfere o custo para o momento em que a lavoura mais precisa dele.*A Lei de Liebig, também conhecida como Lei do Mínimo, é um princípio utilizado na agricultura convencional. Ele estabelece que o desenvolvimento de uma planta é limitado pelo nutriente deficitário, mesmo que todos os outros elementos ou fatores estejam presentes. Foi popularizado pelo químico alemão Justus von Liebig em seu livro: ‘Aplicações da química orgânica na agricultura e fisiologia’, de 1840.Por Guilherme Fontana, CEO da Fontes Verdes.