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O açúcar virou subproduto do etanol?

Por Arlélio Leite dos Santos

15:36

O açúcar virou subproduto do etanol?
Durante quarenta anos, uma pergunta organizou o setor sucroenergético brasileiro: quanto etanol sobra depois de fazer o açúcar? O açúcar era o produto. O etanol era a válvula ou seja o destino da cana excedente, a alternativa do começo da safra, o produto quebra galho quando o ATR ainda não havia atingido o pico ou a operação de saída da safra enquanto a indústria afinava a operação para o novo ciclo, para a safra seguinte. Era também o filho que aparecia na fotografia quando o petróleo subia e desaparecia quando o petróleo caía. Dos contratos de fornecimento de cana ao desenho industrial das usinas, quase tudo foi construído sobre essa hierarquia.

Recentemente esta hierarquia vem se invertendo. A maioria ainda não percebeu porque a inversão não chegou com anúncio, cerimônia, pompa ou fato relevante. Chegou com aritmética e mudança gradual de mercado. Minha tese é direta: a cana brasileira virou matéria-prima energética com açúcar residual. O etanol e os derivados energéticos da cana são os produtos enquanto o açúcar talvez passe a ser a válvula...

Comecemos pelos números, como manda a honestidade. Em maio de 2026, o USDA projetou produção mundial de 184,9 milhões de toneladas de açúcar para safra 2026/27, contra uma estimativa de consumo de 180,0 milhões. A diferença, próxima de cinco milhões de toneladas, não é uma sentença eterna contra a produção de açúcar mas descreve um mercado abastecido. No mesmo relatório, o órgão estimou que o Brasil destinaria 52% da cana ao etanol e 48% ao açúcar. A produção brasileira de açúcar cairia 1,3 milhão de toneladas, para 42,5 milhões, justamente porque a demanda doméstica de etanol passou a puxar o mix.

Não é necessário concordar com o USDA porque suas estimativas não encerram a discussão; apenas a abre, fornece um ponto de partida no inicio da safra no centro sul do Brasil. Um ano de preços relativos desfavoráveis ao açúcar não desfaz quarenta anos de história do adoçante. O que muda uma hierarquia não é uma cotação isolada, uma safra diferente ou um cíclico superavit setorial. A mudança vem da estrutura que pressiona os preços de longo prazo ou que remunera o próximo investimento. E essa estrutura mudou em quatro camadas a saber:

A primeira é regulatória. O etanol ganhou piso político, enquanto o açúcar continua submetido ao teto estatístico da oferta mundial. Desde 1º de agosto de 2026, a gasolina comum brasileira contém 32% de etanol anidro, conforme a Resolução do CNPE. A Lei nº 14.993/2024, a Lei Combustível do Futuro, ampliou o intervalo legal da mistura (de 18 a 27% para 22 a 35% de anidro na gasolina C) e organizou programas nacionais para combustíveis de baixo carbono. Isso não elimina volatilidade, erro de política ou risco tributário. Mas cria demanda doméstica obrigatória, crescente, denominada em reais e passível de serem negociadas na politica interna do Brasil.

O açúcar vive outra lógica. Depende do clima, da política de exportação e do incentivo agrícola de países que o produtor brasileiro não controla. Para 2026/27, o USDA previa recuperação de 3,6 milhões de toneladas na Índia, suficiente para alterar o balanço global mesmo com quedas esperadas no Brasil, na União Europeia e na Tailândia. O Brasil é o maior exportador deste mercado global e, por isso, sente primeiro o excesso que não produziu. O mercado de produtos energéticos oferece mandato. O mercado de açúcar alimento oferece estatística. Para capital de longo prazo não são garantias equivalentes ainda que no mercado internacional de açúcar exista grande conhecimento acumulado e instrumentos conhecidíssimos de gestão de riscos de médio prazo (para até cinco safras futuras).

A segunda camada é tecnológica. A fronteira de crescimento do etanol deixou de caber no tanque do automóvel. A rota alcohol-to-jet (ATJ) transforma etanol em combustível sustentável de aviação (SAF) e já integra rotas reconhecidas internacionalmente. O Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação brasileiro estabelece, a partir de 2027, meta de redução de 1% das emissões dos operadores aéreos, com trajetória progressiva chegando em 10% já em 2037. A obrigação vinculada é de redução de carbono ou seja não é uma obrigação de compra de uma molécula específica (SAF). Ainda assim, quem já produz etanol em escala, com logística conhecida e intensidade de carbono baixíssima e mensurável, entra na disputa com vantagem industrial real.

É aqui que a velha comparação entre açúcar e etanol fica pequena e não satisfatória. A tonelada de açúcar alimento disputa consumo humano e estoques. O litro de etanol pode disputar alimentos e bebidas, farmacêuticos, mobilidade leve, aviação, navegação e química verde. O bagaço gera muita eletricidade e até ração animal; a vinhaça e a torta de filtro abrem espaço para biogás e biometano; a eficiência ambiental gera CBIO. A cana deixou de entregar dois produtos. Entrega alimentos, energia e uma plataforma de carbono renovável. Quando a matéria-prima muda de categoria, insistir apenas na antiga contabilidade de produtos leva a decisões corretas no trimestre, erradas na década e talvez equivocadas no longo prazo.

A terceira camada é concorrencial. O etanol de milho, que há dez anos parecia nota de rodapé regional, respondeu por 25% da produção brasileira de etanol em 2025 e segue aumentando, segundo o Balanço Energético Nacional divulgado pela EPE em junho de 2026. Não é mais experiência. É indústria. O grão pode ser armazenado, permite operação ao longo de todo ano calendário e adiciona receitas com pelo menos óleo e DDGS (na verdade o milho tem mais de 150 aplicações industriais diferentes). A EPE registrou ainda cerca de 9 bilhões de litros produzidos entre janeiro e novembro de 2025 e capacidade nominal de produção de aproximadamente 12 bilhões de litros em plantas de milho.

Isso é ameaça para a usina de cana ineficiente, mas confirmação da tese para o setor. Quando o concorrente investe bilhões para produzir aquilo que você chama de produto secundário o problema não está no concorrente. Está no nome "secundário" que você deu ao seu produto. Ninguém constrói uma usina de milho para disputar um subproduto. O milho não rebaixa a cana; obriga a agroindústria canavieira a reconhecer o mercado em que realmente compete no presente e mostra para onde este mercado vai no futuro.

A quarta camada é financeira. Flexibilidade industrial sempre teve e terá valor, mas agora esse valor precisa ser medido de outra forma. A usina flexível não vale apenas porque consegue escolher o melhor preço entre dois produtos a cada safra. Vale porque possui, entrega uma opção real de alocação e participação sobre mercados energéticos que ainda estão sendo formados. Destilação, desidratação, cogeração, biogás, biometano, leveduras e, adiante, SAF não são apêndices industriais. São portas de entrada para curvas de demanda diferentes, contratos diferentes, mercados diferentes e as vezes descorrelacionados além de, principalmente, fontes de receita que não existiam no desenho original do setor açucareiro.

Aqui cabe a melhor objeção, antes que ela chegue pelo correio. Dirá o usineiro experiente: superávit de açúcar é cíclico; já vimos esse filme; quem desmontou capacidade de cristalização na baixa chorou na alta seguinte. A objeção é séria e merece resposta séria. Sim, o preço do açúcar é cíclico e voltará a subir quando houver quebra relevante de oferta. Sim, preservar flexibilidade é prudência industrial. E não, este artigo não recomenda desmontar fábrica de açúcar nem declarar a morte de um mercado que continua movimentando dezenas de bilhões de dólares ao contrário mostra um caminho ainda melhor de diversificação e proteção de receitas e relevância econômica no futuro.

Ou seja a tese é outra. Ciclo de preço e mudança de estrutura não são a mesma coisa. O consumo mundial de açúcar cresce, mas enfrenta pressão sanitária, tributação de bebidas açucaradas e mudança de hábito nos mercados mundiais de maior renda. O etanol também tem riscos: depende de regra estável, concorre com a gasolina, enfrenta eficiência crescente da frota e precisa provar carbono, escala e custo no SAF para ficarmos nos grandes mercados possíveis de atender. A diferença é que as novas demandas dos produtos energéticos ainda estão sendo construídas. No açúcar, o setor disputa participação dentro de um mercado maduro e talvez até em fase de estagnação internacional. Nos etanol e produtos energéticos o que se disputa é a possibilidade de se desenhar o próprio mercado, seu tamanho e características básicas.

Para o usineiro tradicional, formado na cultura do açúcar, a pergunta de investimento da próxima década deixa de ser quantas toneladas adicionais a expansão entrega. Passa a ser quantos litros, quantos megawatts, quantos metros cúbicos de biometano e quantas toneladas de carbono evitado o mesmo hectare consegue monetizar. Cristalização continua valiosa como flexibilidade e proteção contra ciclos. Mas capital novo deve seguir a receita marginal, não uma homenagem histórica, uma receita antiga que talvez já tenha mudado.

Para o investidor, o recado é igualmente desconfortável. Valuation de usina construído apenas sobre curva longa de açúcar carrega um viés de sucesso de quarenta anos de hábito ocorrido no passado. O fluxo de caixa marginal da próxima década terá mais cara de energia: maior exposição a mandatos, tributação específica, política de preços, certificação de carbono e infraestrutura de distribuição dedicada. Isso pode elevar a previsibilidade de demanda e, ao mesmo tempo, acrescentar risco regulatório. Precificar usina como ativo alimentar puro é usar o manual da geração errada.

Para o formulador de política, a inversão transforma o etanol e os produtos energéticos em infraestrutura de segurança nacional. Infraestrutura exige coerência. Cada sinalização errática sobre mistura, tributação ou metas ambientais mexe agora com o eixo de investimento de uma cadeia inteira. O capital necessário para ampliar oferta, modernizar canaviais e financiar a rota do SAF depende menos de subsídio episódico e mais de regra confiável. Mandato instável custa caro, mesmo quando parece generoso. Não é a toa que o setor de biocombustíveis conseguiu até uma lei própria como a "Lei Combustível do Futuro" para chamar de sua.

Há também uma consequência para a governança das empresas. Conselho que recebe apenas a comparação semanal entre açúcar em Nova York e hidratado em Paulínia está olhando o retrovisor. A pauta precisa incluir intensidade de carbono, opcionalidade industrial, acesso logístico, certificação, capacidade de originar biomassa e custo de capital para projetos energéticos alternativos. A decisão deixou de ser apenas qual mix maximiza a safra. É qual portfólio de investimentos preserva relevância em 2035.

Essa mudança pede disciplina: separar a receita que protege caixa atual da receita e investimentos que compram o futuro. Sem essa distinção, flexibilidade industrial vira desculpa para adiar investimento e estratégia vira reação ao preço. Ao leitor que disto discorda, proponho um teste simples: imagine o setor obrigado a abandonar um dos dois mercados por dez anos. Em 1996 a resposta era óbvia para um lado. Em 2026 ela talvez seja óbvia para o outro. O que mudou não foi a cana. Foi o mundo, as matérias primais disponíveis, os produtos produzidos e demandados em volta dela. Finalizando é importante reconhecer que o açúcar construiu o setor pagou as usinas abriu mercados internacionais e financiou décadas passadas difíceis. Merece todo o respeito de fundador. Mas fundador que não reconhece a sucessão vira obstáculo e coloca em risco a continuidade e perpetuação da sua própria obra. O açúcar pagou a conta da construção. O etanol e os produtos energéticos vão, no mínimo, ajudar a pagar as próximas.

Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).

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