Por Marco Ripoli, MSc., PhD.
Há uma narrativa confortável que ainda circula pelo agronegócio brasileiro: a de que o setor depende fundamentalmente do Estado para se financiar. Que sem Plano Safra, subsídios e crédito oficial, a engrenagem trava. Os números mostram exatamente o contrário.
Quando o privado superou o público
O Plano Safra 2025/2026 foi lançado com R$ 516,2 bilhões, o maior valor nominal da história. No mesmo período, o estoque dos principais instrumentos privados de financiamento do agro — CPRs, LCAs, CRAs, CDCAs e Fiagros — atingiu R$ 1,41 trilhão.Em outras palavras: o mercado privado já representa mais que o dobro dos recursos anunciados pelo governo. Hoje, cerca de 80% do crédito que movimenta o campo tem origem fora do Estado.Além disso, a Selic elevada tornou o crédito oficial cada vez mais caro. Juros do Pronamp chegaram a 10%, Moderfrota a 13,5% e operações para grandes produtores alcançaram 14% ao ano. O Plano Safra cresceu em valor nominal, mas perdeu relevância prática para grande parte do setor.A nova arquitetura financeira do agro
A base dessa transformação é a CPR (Cédula de Produto Rural), que alcançou estoque de R$ 562,9 bilhões em 2025. O produtor aprendeu a transformar sua produção futura em ativo financeiro.As LCAs chegaram a R$ 600 bilhões e seguem sendo uma das principais pontes entre investidores urbanos e o agronegócio. Os CRAs encerraram 2025 com R$ 178 bilhões em estoque, enquanto os Fiagros ultrapassaram R$ 47 bilhões em patrimônio.O desafio já não é falta de dinheiro. É qualidade, transparência e padronização das operações para atrair investidores institucionais e capital internacional em escala.Barter: Da troca à engenharia financeira financeira
O barter, que começou como simples troca de grãos por insumos, tornou-se uma das ferramentas mais relevantes do financiamento agrícola.Com crédito caro e restrito, muitos produtores passaram a travar simultaneamente o custo dos insumos e o preço futuro da produção, reduzindo riscos financeiros.A BASF projetou que até metade de seus negócios agrícolas ocorra via barter. A Céleres estima novo recorde para a safra 2026/27. O Banco do Brasil já opera barter digital utilizando grãos tokenizados.O barter não é gratuito, mas frequentemente se mostra mais eficiente do que operações bancárias tradicionais em um ambiente de juros elevados.Tokenização: O futuro já começou
Enquanto parte do setor ainda vê blockchain como tema distante, a tokenização já está chegando ao campo.Tokenizar significa transformar ativos físicos ou financeiros em representações digitais negociáveis. No agro, isso inclui CPRs, recebíveis, sacas de soja e até rebanhos.Em 2025, os ativos tokenizados no Brasil movimentaram cerca de R$ 4 bilhões. Projetos já utilizam bovinos tokenizados com informações de rastreabilidade e desempenho produtivo como garantia para operações de crédito.O Banco Central testou CPRs tokenizadas dentro do projeto Drex. A B3 prepara sua própria infraestrutura de tokenização. A CVM colocou o tema entre suas prioridades regulatórias.O objetivo é simples: reduzir assimetria de informação, aumentar transparência e diminuir o custo do capital.A pergunta incômoda
Diante desse cenário, surge uma questão inevitável: se o crédito privado já supera amplamente o Plano Safra, qual é o papel do Estado?A resposta é clara. O crédito público continua essencial para agricultores familiares, assentados e pequenos produtores que ainda não conseguem acessar os instrumentos do mercado de capitais. Para eles, o Plano Safra segue sendo indispensável.Mas para boa parte dos médios e grandes produtores, a realidade mudou. O dinheiro que financia a lavoura já não vem majoritariamente de Brasília.Em poucas décadas, o Brasil saiu de um modelo quase integralmente estatal para um mercado privado de R$ 1,4 trilhão. A CPR saiu do papel para o blockchain. O barter virou produto financeiro. A vaca transformou-se em ativo digital.A revolução financeira do agronegócio brasileiro não está chegando. Ela já chegou.A pergunta é outra: o produtor, o gestor, a cooperativa e os formuladores de políticas públicas estão preparados para operar nessa nova realidade? Ou continuarão olhando para o Plano Safra como se ele ainda fosse o centro do sistema?O agro não para. E o capital que o financia também não.Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.