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O agro precisa de um presidente ou de condições para crescer?

Por Marco Ripoli

09:22

O agro precisa de um presidente ou de condições para crescer?
O que vai definir a próxima safra de decisões no campo é custo de capital, câmbio, acesso a mercados e regra estável

O produtor rural não quer saber apenas quem vencerá a eleição. A pergunta que realmente importa é: o que mudará na rentabilidade, no crédito e na competitividade do negócio a partir de janeiro de 2027?

A resposta está menos nos discursos de campanha e mais na capacidade do próximo governo de administrar juros, contas públicas, câmbio, infraestrutura e relações comerciais. São essas variáveis que determinam o custo de produzir, investir e exportar.

O Brasil passa pelas eleições deste ano com um agronegócio altamente competitivo, mas pressionado por endividamento, custos elevados, riscos climáticos e incertezas internacionais. Produzir bem continua sendo fundamental, mas transformar produtividade em resultado econômico é o verdadeiro desafio.

Produzir mais não significa ganhar mais


O crescimento da produção brasileira convive com dificuldades financeiras no campo. Crédito caro, margens pressionadas e volatilidade dos preços comprometem até operações tecnicamente eficientes.

Nesse cenário, um Plano Safra recorde em valores nominais não resolve necessariamente o problema. O que importa é quanto do recurso chega ao produtor, a que custo, com quais garantias e acompanhado de proteção contra perdas climáticas.

O próximo governo precisará enfrentar uma questão estrutural: como financiar um setor que demanda investimentos crescentes sem comprometer sua capacidade de pagamento?

Cinco fatores que definirão o futuro do agro



  1. Juros e equilíbrio fiscal. O custo do dinheiro influencia a aquisição de máquinas, a expansão da armazenagem, a irrigação e os investimentos em bioenergia. Uma política econômica previsível pode estimular investimentos de longo prazo; a deterioração fiscal pode produzir o efeito contrário.

  2. Câmbio e comércio internacional. Um real desvalorizado favorece parte dos exportadores, mas encarece fertilizantes, defensivos e equipamentos importados. Ao mesmo tempo, tarifas, barreiras sanitárias e exigências ambientais tornam a diplomacia comercial indispensável. O Brasil precisará preservar mercados estratégicos e diversificar destinos.

  3. Crédito e seguro rural. Mais importante do que anunciar recursos é garantir financiamento acessível e compatível com o ciclo produtivo. A expansão do crédito privado precisa vir acompanhada de gestão de riscos, enquanto o seguro rural deve ganhar relevância diante das incertezas climáticas.

  4. Logística, fertilizantes e energia. Ferrovias, hidrovias, portos e armazenagem continuam determinantes para a competitividade. Na energia, etanol, biodiesel, biometano e combustíveis sustentáveis oferecem oportunidades de agregação de valor, desde que existam segurança jurídica e previsibilidade regulatória.

  5. Sustentabilidade e tributação. Rastreabilidade, regularidade ambiental e conformidade com exigências internacionais são cada vez mais importantes para acessar mercados. Paralelamente, a transição tributária exigirá atenção de produtores, cooperativas e agroindústrias para evitar impactos inesperados sobre custos e margens.


Tecnologia e clima não podem esperar


A adaptação climática deveria ser prioridade independentemente de quem venceu a eleição. Secas, veranicos e chuvas excessivas afetam produtividade, custos e capacidade de pagamento.

Pesquisa agropecuária, melhoramento genético, agricultura de precisão, bioinsumos e conectividade rural precisam avançar de forma contínua. O desafio não é apenas desenvolver tecnologias, mas garantir que cheguem ao campo e gerem resultados concretos.

Ao mesmo tempo, o futuro do setor dependerá da capacidade de articulação política. Orçamento, tributação e regulamentação passam também pelo Congresso Nacional e pelos governos estaduais. Um discurso favorável ao agro não substitui capacidade de execução.

O que o produtor deve fazer?


Minha recomendação é não condicionar o planejamento da propriedade ao resultado eleitoral. É fundamental testar o fluxo de caixa em diferentes cenários de juros, câmbio e preços, avaliar o endividamento, proteger margens e revisar investimentos de longo prazo.

A escolha da equipe econômica, as primeiras decisões sobre crédito rural e os sinais de compromisso com o equilíbrio fiscal serão indicadores mais relevantes do que as promessas de campanha.

O agronegócio brasileiro já demonstrou sua capacidade de produzir, inovar e conquistar mercados. O próximo passo é transformar essa força em rentabilidade, segurança financeira e investimentos sustentáveis.

O setor não precisa de privilégios. Precisa de condições para competir: estabilidade econômica, crédito adequado, infraestrutura eficiente, segurança jurídica, pesquisa e diplomacia comercial competente.

O futuro do agro não será definido apenas por quem ocupará o Palácio do Planalto, mas pela capacidade de transformar decisões de governo em resultados dentro da porteira.

O Agro não para!

Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

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