Últimas notícias
Artigos

O agro vai eleger o candidato errado de novo

Por Arlélio Leite dos Santos

16:43

O agro vai eleger o candidato errado de novo
A campanha começou oficialmente em 16 de agosto. De agora até outubro, candidatos vão atravessar feiras, cooperativas e sindicatos rurais repetindo a liturgia eleitoral do campo: chapéu, camisa, abraço, fotografia, elogio ao produtor e a lista conhecida de inimigos. A plateia vai aplaudir. E nesse aplauso talvez esteja o negócio mais caro que o agronegócio brasileiro faz. Mais caro que o fertilizante comprado no pico, o frete no gargalo ou a terra adquirida no topo do ciclo. O negócio mais caro do agro é entregar apoio político antes de saber exatamente o que receberá em troca.

A tese que incomoda é esta: o agro brasileiro aprendeu a negociar praticamente tudo, menos poder. O setor que discute centavos por saca aceita promessa sem número. Quem compara taxa, prazo e garantia antes de financiar um trator declara voto sem exigir meta fiscal, orçamento de seguro ou cronograma de ferrovia. Não é ingenuidade. Ninguém administra ao mesmo tempo risco climático, cambial, sanitário, de preço e regulatório sendo ingênuo. É um ponto cego seletivo: dentro da porteira, o produtor é negociador; diante do palanque, vira torcida.
Os números de agosto de 2026 mostram o tamanho da conta.

Em 5 de agosto, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,00% ao ano. No comunicado, o Comitê registrou que segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária. O Boletim Focus de 17 de agosto de 2026 projetava IPCA de 5,02% para 2026 e 4,24% para 2027, ambos acima do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta. Traduzindo para a fazenda: enquanto a trajetória fiscal pressionar expectativa e prêmio de risco, o custo do dinheiro que financia a safra seguirá estruturalmente alto, independentemente de quem sobe na colheitadeira para tirar fotografia. O boleto não conhece ideologia. Capital de giro não vota.

O Plano Safra 2026/2027 torna a contradição visível. Para a agricultura empresarial foram anunciados R$ 525,1 bilhões, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos, com R$ 72,6 bilhões no Pronamp a taxa máxima de 9% ao ano. São números de telão, feitos para plateia. Ja o número que deveria provocar desconforto é outro. A programação orçamentária de recursos equalizáveis para a safra 2026/2027 soma R$ 97,6 bilhões. Em julho, primeiro mês do ciclo, a agricultura empresarial contratou R$ 28,2 bilhões em crédito rural, mas apenas R$ 1,3 bilhão dos equalizáveis programados havia sido concedido. As Cédulas de Produto Rural responderam por R$ 18,8 bilhões, ou 66,6% do contratado no mês. Isso não prova fracasso do Plano Safra. Julho é o primeiro mês, e seria desonesto transformar uma fotografia em filme. Mas prova algo decisivo: o tamanho do anúncio e a experiência financeira concreta do produtor não são a mesma coisa. No telão, meio trilhão. Na fazenda, o que importa é o preço do dinheiro que efetivamente chegou, a garantia exigida, o prazo, o seguro e a margem que sobra. E o que efetivamente chegou em julho veio, em dois terços, de instrumento privado, não de subvenção anunciada.

Aqui é preciso definir quem, exatamente, deveria negociar.
O voto individual não negocia nada. É secreto, indivisível e irrelevante na margem. Nenhum produtor isolado extrai equalização de ninguém, e cobrar dele a racionalidade de um negociador é retórica vazia. Quem negocia é a estrutura: bancada parlamentar, confederações, federações estaduais, cooperativas e associações de cadeia. Essas instituições têm o que o eleitor sozinho não tem: capacidade de compromisso crível, o poder de dizer com antecedência o que apoiam, sob quais condições, e de serem cobradas depois. É a essas estruturas que este artigo se dirige. O erro não é o produtor votar segundo seus valores. É a representação organizada do setor chegar à mesa com a posição já entregue, transformando em bandeira pública aquilo que deveria ser sua principal moeda.

Porque a assimetria tem explicação econômica simples. Identidade política tem valor, e justamente por ter valor não deveria ser doada e sim negociada. Se o candidato sabe que receberá o apoio de um segmento independentemente do que colocar no programa econômico, ele não precisa pagar caro por esse apoio. Pode oferecer símbolo, pertencimento, fotografia e antagonismo, mercadorias de custo marginal praticamente zero. Crédito competitivo custa. Seguro rural custa orçamento plurianual. Ferrovia e armazém custam capital. Responsabilidade fiscal custa capital político. Rastreabilidade custa tecnologia. Elogiar o agro é de graça, e todo mercado entrega ao comprador exatamente aquilo pelo que ele exige ser pago. Antes de declarar apoio, portanto, o setor deveria exigir cinco contratos. Vejamos:

O primeiro é o fiscal. Não basta perguntar se o candidato apoia o agro. É preciso saber que trajetória de dívida, de resultado primário e de gasto público ele considera compatível com juros estruturalmente menores, justamente porque o Banco Central acaba de registrar que acompanha esse canal. Se a política fiscal pressiona expectativa, a conta chega ao campo antes de chegar a Brasília;

O segundo é o de crédito. Quanto do financiamento rural continuará dependente de equalização orçamentária, sujeita a contingenciamento e a fila? Qual o plano para ampliar mercado privado e competição entre financiadores? Qual a meta verificável de custo, prazo e profundidade?

O terceiro é de gestão de risco. Seguro rural não pode ser lembrado depois que a seca aconteceu. A pergunta não é se o candidato é favorável ao seguro, o que não significa nada. É qual área pretende cobrir, com qual orçamento, sob qual regra plurianual e com que desenho institucional.

O quarto é logístico. O Brasil não perde competitividade dentro da porteira. Perde quando produz com eficiência e entrega com ineficiência. Ferrovia que não chega, porto congestionado, estrada ruim e armazenagem insuficiente são impostos privados cobrados sem guia de recolhimento.

O quinto é o de acesso a mercado. Pelo calendário vigente, as obrigações da EUDR, a regulação europeia de produtos livres de desmatamento, passam a se aplicar a grandes e médios operadores em 30 de dezembro de 2026, e a micro e pequenas empresas em 30 de junho de 2027, alcançando cadeias como soja, gado e café. O prazo já foi adiado antes e a Comissão Europeia segue discutindo simplificações, o que torna a data um dado móvel. Isso reforça o argumento: quem depende de prazo alheio para saber se será competitivo não controla o próprio negócio. Gostemos ou não de Bruxelas, o comprador não é obrigado a adotar a ideologia do vendedor. Quem compra impõe especificação; quem vende decide se cumpre, negocia, redireciona ou perde. Rastreabilidade deixou de ser discurso ambiental. Virou infraestrutura comercial. A pergunta séria não é se o próximo presidente defenderá o produtor contra a Europa, e sim qual sistema o Brasil terá para provar origem, reduzir custo de conformidade e transformar vantagem produtiva em vantagem documental.

Existe uma objeção honesta, e ela merece resposta direta. Dirão que a analogia do vendedor só vale se houver um segundo comprador, e que o outro campo político seria hostil por razões que nenhuma equalização compra. Concedo a premissa. Ela não salva o argumento. Mesmo com um comprador só, o vendedor conserva duas alavancas: a condição e o prazo. Pode apoiar exigindo compromisso escrito, mensurável e datado, e pode condicionar a intensidade do apoio, que é dinheiro, estrutura, palanque e mobilização, ao cumprimento. O que destrói barganha não é ter preferência. É anunciá-la sem contrapartida antes de a negociação começar. Um bloco que declara de antemão que apoiará de qualquer forma informa ao candidato que basta não perdê-lo, e ninguém paga pelo que já recebeu.

Eleitor cativo é eleitor barato. Essa é a frase mais desagradável deste artigo e a mais importante. A diferença entre aliado e refém é exatamente essa: aliado negocia, refém torce.
O agronegócio não precisa abandonar valores. Precisa parar de tratá-los como cheque em branco. Pode defender propriedade, liberdade e segurança jurídica, desde que acrescente uma frase depois de cada aplauso: agora me mostre a conta. A trajetória fiscal, a taxa, o orçamento do seguro, a ferrovia, o armazém, o sistema de rastreabilidade, a data e quem paga. E depois assuma o compromisso publicamente, para ser cobrado quatro anos adiante.

Qualquer candidato consegue vestir um chapéu. Governar uma economia em que o produtor consiga planejar por dez anos é outra coisa. Ter fotografia com presidente não é poder. Ter ministro conhecido não é poder. Ter bancada simpática não é poder. Poder é transformar peso econômico em política pública mensurável, previsível e duradoura. Se, depois de cada eleição, o setor volta a discutir emergencialmente crédito, seguro, renegociação e infraestrutura, a pergunta incômoda não é por que Brasília entrega tão pouco. É quanto Brasília realmente precisou prometer para receber tanto.

Se a resposta continuar sendo um discurso, uma fotografia e a garantia de que estamos do mesmo lado, o setor mais profissional da economia brasileira terá feito na política a negociação que nenhum produtor aceitaria dentro da própria porteira. Terá entregue o produto sem conhecer o preço, assinado sem ler a cláusula, fixado sem olhar a cotação, e chamado isso de convicção. No mercado esse comportamento tem nome, e não é lealdade. É transferência de valor. Em outubro, portanto, a pergunta não será apenas quem o agro ajudará a eleger. Será quanto cobrou antes de ajudar. Porque o erro mais caro que existe em qualquer mercado é sempre o mesmo: entregar primeiro, negociar depois.

Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).

Mais Notícias