Agronegócio, bioenergia, florestas, minerais: a vantagem comparativa que ninguém replica por decretoNas partes anteriores, mapeamos o fim da hiperglobalização e a nova régua que passou a valer no mundo. Falta traduzir a tese para o chão da economia: em quais setores, exatamente, o Brasil já é — e não apenas poderia ser — protagonista da nova ordem?Aqui a análise sai do plano abstrato e ganha carne. O que significa, concretamente, o Brasil estar bem-posicionado nessa nova geografia?Significa, primeiro, um agronegócio que já é o mais produtivo do mundo tropical, e que ainda tem espaço de expansão sem desmatamento — via recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, agricultura de precisão. A Embrapa, criada em 1973, é provavelmente a mais bem-sucedida instituição pública brasileira do último meio século: fez do cerrado, que era considerado ecologicamente inviável para a agricultura, o maior celeiro do país. Nenhum outro país tropical possui algo remotamente equivalente. A produtividade da soja brasileira dobrou em vinte anos. A do milho triplicou. O Brasil hoje alimenta, direta ou indiretamente, cerca de um bilhão de pessoas fora de seu território.Significa, segundo uma matriz de bioenergia sem paralelo. O etanol de cana é a única alternativa em escala comercial ao etanol de milho americano — e é dramaticamente mais eficiente em balanço energético e emissões. O SAF (sustainable aviation fuel, o combustível sustentável de aviação) será, na próxima década, uma das indústrias de maior crescimento do planeta: a aviação civil não tem, hoje, alternativa técnica ao querosene que não passe por biocombustíveis. O Brasil pode ser, em SAF, o que a Arábia Saudita foi em petróleo. Some-se biodiesel, biogás de vinhaça e resíduos, biomassa de eucalipto e temos uma economia de bioenergia que já é competitiva sem subsídio.Significa, terceiro, florestas plantadas com produtividade recorde — o eucalipto brasileiro cresce quatro vezes mais rápido que o europeu — e uma agenda de captura de carbono que é, ao mesmo tempo, oportunidade econômica e vantagem geopolítica. Num mundo que precificará carbono nas próximas décadas, ter florestas em pé, solos que sequestram, sistemas produtivos de baixa emissão e potencial gigantesco de reflorestamento é ativo estratégico. O mercado voluntário de carbono é um ensaio; o mercado regulado, que vem, será um dos maiores mercados de commodity do século.Significa, quarto, segurança alimentar e hídrica num mundo que descobrirá que ambas são pré-condição para tudo mais. Significa reservas de nióbio, minério de ferro, bauxita, manganês, grafita e — provavelmente subestimadas — de terras raras. Significa um parque siderúrgico verde possível, integrando minério, energia limpa e hidrogênio de baixo custo. Significa uma indústria de proteína animal já globalizada, com JBS, Marfrig, BRF operando em três continentes.Nenhum desses setores é setor "do futuro". Todos são reais, existem, faturam, exportam, empregam. Estão sub-representados no debate público brasileiro, que ainda os trata com uma mistura de constrangimento ideológico ("commodities são atraso") e ignorância técnica. Mas é neles que a inversão histórica se materializa. Não porque commodities sejam melhores que indústria — a dicotomia é falsa — mas porque, na nova ordem, esses setores são também, e cada vez mais, complexos, tecnológicos, intensivos em capital e conhecimento, e ancorados numa vantagem comparativa que ninguém pode replicar por decreto.A pergunta que sobra — e que a próxima e última parte desta série vai enfrentar — é porque, tendo tudo isso, ainda crescemos tão pouco. E o que precisa acontecer para que a janela não se feche antes de nós.O agro não para!Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.Série "O país que deixou de ser do futuro" — Parte 3 de 4.— No próximo e último artigo — Parte 4: o paradoxo brasileiro, os cinco nós que travam o país por dentro e as escolhas dos próximos dez anos entre virar a Austrália do século XXI ou uma versão maior da Venezuela.