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O colapso silencioso do modelo e a nova geografia econômica

Por Marco Ripoli, MSc., PhD.

13:30

O colapso silencioso do modelo e a nova geografia econômica
De 2008 à guerra tecnológica: por que a régua do mundo mudou — e por que ela agora aponta para nós

Na primeira parte desta série, vimos como o Brasil passou quarenta anos tentando competir num regime econômico — a hiperglobalização — desenhado para premiar o que não temos e punir o que temos. Agora é preciso mostrar como esse regime morreu, e o que veio depois.

O colapso silencioso do modelo


Toda ordem econômica parece eterna até deixar de ser. A hiperglobalização começou a rachar em 2008 e, desde então, vem sendo demolida por camadas.

A crise financeira global revelou que a integração financeira que parecia benigna havia produzido, na verdade, uma teia de fragilidades sistêmicas: bancos americanos alavancados em ativos podres, bancos europeus expostos aos bancos americanos, poupança asiática financiando o consumo ocidental. A resposta — resgates, expansão monetária inédita, taxas de juros nominais negativas — manteve o sistema de pé, mas destruiu a legitimidade política do modelo. A partir de 2008, a classe média ocidental começa a votar contra a globalização.

A eleição de Trump em 2016, o Brexit no mesmo ano e a ascensão de partidos nacionalistas na Europa não são acidentes ideológicos: são a expressão política de comunidades que perderam empregos, salário e status durante três décadas de deslocamento industrial. A retórica protecionista deixa de ser marginal e passa a organizar a política econômica das principais democracias.

A pandemia de COVID-19 consumou o que a política já havia iniciado. Descobrimos, da noite para o dia, que máscaras cirúrgicas, princípios ativos de medicamentos, semicondutores e até insumos agrícolas dependiam de uma ou duas fábricas do outro lado do mundo. A eficiência das cadeias globais revelou-se, também, a sua fragilidade. A palavra que emergiu como novo imperativo foi resiliência: pagar mais caro, estocar mais, produzir mais perto, para ter certeza de que a linha de produção não para.

A guerra da Ucrânia, em 2022, adicionou a dimensão energética e alimentar. Um bloqueio no Mar Negro fez o preço do trigo disparar em dezenas de países pobres. Sanções ao petróleo russo reorganizaram fluxos que pareciam consolidados. A Europa, que apostara toda a sua matriz energética no gás russo em nome da eficiência, descobriu-se refém de um adversário militar.

Por fim, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China — semicondutores avançados, inteligência artificial, computação quântica, terras raras, biotecnologia — encerrou qualquer ilusão de que globalização e geopolítica poderiam viver em compartimentos separados. Chips passaram a ser tratados como armas. Investimento estrangeiro passou a ser filtrado por critérios de segurança nacional. Cadeias de suprimento passaram a ser desenhadas em torno de aliados, não de custos.

O nome que se dá a essa nova fase varia: slowbalization, friend-shoring, derisking, regionalização. O essencial, porém, é uma inversão de lógica. Durante quarenta anos, a pergunta que organizava a economia mundial foi: onde produzir mais barato? A pergunta que a organiza agora é outra: onde produzir com segurança? Da eficiência pura, migramos para uma equação que soma eficiência, resiliência, segurança e legitimidade política. É uma economia mundial mais lenta, mais cara, mais fragmentada — e, para determinados países, muito mais generosa.

A nova geografia econômica


Quando a régua muda, muda também o ranking. Numa economia em que a mão de obra industrial deixou de ser o fator escasso — porque o mundo tem mão de obra sobrando e, além disso, está automatizando o que restava —, os fatores realmente escassos passaram a ser outros. E é aqui que o mapa se inverte.

Alimentos. A população mundial caminha para nove bilhões, cresce onde há menos terra arável por habitante (Ásia, África) e enriquece o suficiente para migrar de dietas de subsistência para dietas ricas em proteína animal — que exige, por sua vez, muito mais grão. O planeta terá que produzir, nas próximas décadas, mais alimento do que produziu em toda a sua história somada. Terra agricultável de alta qualidade, com regime de chuvas, sol e possibilidade de duas ou três safras por ano, é o novo petróleo silencioso.

Energia. A transição energética não é um capricho verde: é uma reorganização industrial da mesma magnitude da eletrificação do início do século XX. Ela exige eletricidade limpa em escalas gigantescas, e exige onde ela é competitiva. Países que dependem de gás importado, carvão poluente ou nuclear caro estão em desvantagem estrutural. Países com hidrelétricas amortizadas, solar e eólica de baixo custo, biomassa abundante e etanol competitivo estão em posição privilegiada.

Minerais críticos. Cobre, lítio, níquel, cobalto, terras raras, nióbio. Sem eles, não há transição energética, não há veículo elétrico, não há data center de inteligência artificial, não há indústria de defesa moderna. Sua distribuição geológica é caprichosa e não coincide com a geografia política das grandes potências consumidoras.

Água doce. Um recurso que o século XX tratava como infinito e que o século XXI descobrirá ser o mais escasso de todos. Cerca de dois terços da água doce superficial da América do Sul estão em território brasileiro.

Estabilidade política e distância dos conflitos. Num mundo em que Ucrânia, Oriente Médio, Mar do Sul da China e o próprio Estreito de Taiwan concentram tensão militar, estar geograficamente distante dos vetores de conflito e institucionalmente ancorado numa democracia consolidada — imperfeita, ruidosa, mas real — passou a ser um ativo econômico, não apenas político. Fundos soberanos, investidores institucionais e cadeias industriais buscam previsibilidade, e previsibilidade virou artigo raro.

Some esses cinco vetores e faça o cruzamento com o mapa-múndi. Poucos países acumulam todos. O Brasil acumula. E é o único, entre os grandes, que os acumula em escala continental, com clima tropical úmido, sem inimigo externo, sem fronteira militarizada, e com uma matriz elétrica que já é, hoje, uma das mais limpas do mundo desenvolvido — não por virtude ambientalista tardia, mas por herança de sessenta anos de investimento em hidrelétricas.

O agro não para!

Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

Série "O país que deixou de ser do futuro" — Parte 2 de 4.

No próximo artigo — Parte 3: o que significa, concretamente, o Brasil ser potência da economia real — agronegócio, bioenergia, florestas, minerais e a agenda de carbono que redesenha vantagens comparativas.

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