Por Marco Ripoli, MSc., PhD.
Durante quase um século, o Brasil se acostumou a habitar uma frase infeliz. "O país do futuro", cunhada por Stefan Zweig em 1941, converteu-se num diagnóstico permanente, quase numa condenação: seríamos, para sempre, a promessa adiada, o gigante adormecido, a economia grande demais para dar certo e pequena demais para importar de verdade. Cada geração de brasileiros herdou a mesma sensação incômoda — a de estar sempre a uma década de distância do próprio destino.O que essa autoimagem esconde é algo mais grave do que o pessimismo. Ela esconde um erro analítico. Durante quatro décadas, o Brasil perseguiu, com raras interrupções, um modelo de desenvolvimento pensado para uma economia mundial que já estava deixando de existir. Discutimos indústria de transformação como se ainda vivêssemos na década de 1970, competitividade cambial como se ainda vivêssemos na década de 1990, e integração às cadeias globais de valor como se a hiperglobalização — o fenômeno econômico mais poderoso do último meio século — não tivesse entrado, ela própria, em colapso.A tese que quero desenvolver aqui, na esteira do que Eduardo Gianetti expôs numa palestra recente no Teatro Bourbon Country, é simples e desconfortável. As condições que penalizaram o Brasil durante quarenta anos deixaram de existir. Pior — ou melhor: as condições que hoje se impõem à economia mundial premiam justamente o conjunto de atributos que o Brasil possui em abundância e que boa parte do planeta perdeu, nunca teve, ou não pode ter. Alimentos, energia limpa, água doce, minerais críticos, biodiversidade, território, distância prudente dos principais eixos de conflito geopolítico. É a primeira vez, desde a Segunda Revolução Industrial, que a geografia econômica global se reorganiza a favor do que temos, e não contra.Se isso é verdade — e há evidência crescente de que é —, então o debate público brasileiro está, mais uma vez, atrasado em relação à realidade. Continuamos discutindo os problemas do país do passado enquanto se abre, silenciosamente, a janela de oportunidade do país do presente.
Três globalizações, uma história
Para entender a inversão em curso, é preciso desfazer uma confusão de vocabulário. "Globalização" não é um estado permanente do mundo, nem um processo linear. É um regime histórico, com começo, meio e — inevitavelmente — fim. Já vivemos três.A primeira globalização floresce entre 1870 e 1914. É a era do padrão-ouro, do telégrafo submarino, do vapor, das ferrovias transcontinentais e da livre circulação de capitais e pessoas em escala que só voltaria a ser comparável um século depois. Comércio internacional, investimento estrangeiro direto, fluxos migratórios e integração financeira crescem a taxas espetaculares. O Brasil participa dessa onda de maneira periférica, mas real — café, borracha, imigração europeia, capitais britânicos financiando ferrovias e portos. É uma globalização puxada pelas potências industriais do Atlântico Norte, na qual países como o nosso entram como fornecedores de commodities e destinos de capital, não como protagonistas.Essa ordem desaba em 1914 e não se recupera. Duas guerras mundiais, a Grande Depressão, o colapso do padrão-ouro, o protecionismo dos anos 1930 e a Cortina de Ferro produzem quatro décadas de globalização inibida. O pós-guerra reconstrói o comércio dentro do bloco ocidental sob a arquitetura de Bretton Woods, mas com fluxos de capital controlados, câmbios administrados e mais da metade do planeta — o bloco soviético, a China de Mao, a Índia de Nehru — deliberadamente fora do sistema. É nesse período que o Brasil constrói, via substituição de importações, seu parque industrial. Faz sentido para a época: numa economia mundial fragmentada, industrializar-se por dentro era uma estratégia razoável.A hiperglobalização começa em torno de 1980 e vai até, aproximadamente, 2008. É uma ordem inteiramente nova. Reagan e Thatcher liberalizam capitais. A China de Deng Xiaoping se abre e, em 2001, entra na OMC. A União Soviética se desmancha e o Leste Europeu se integra ao mercado ocidental. A Índia libera sua economia em 1991. O resultado é a incorporação, em pouco mais de uma década, de cerca de dois bilhões de trabalhadores à economia de mercado — o maior choque de oferta de mão de obra da história humana. Contêineres, fibra óptica, protocolo de internet e a lógica just-in-time permitem fragmentar cadeias produtivas ao longo de dezenas de países. Uma peça de iPhone atravessa oceanos várias vezes antes de virar produto acabado.Nesse regime, o que vale é a eficiência. Produzir onde é mais barato, estocar o mínimo, otimizar cada elo. Os vencedores são claros: a China, que combina disciplina laboral, escala e política industrial; a Alemanha, que se especializa em bens de capital e vende para a China; os produtores de petróleo, que financiam a farra de crédito; e o setor financeiro global, que intermedia tudo. Os perdedores relativos também são claros: os trabalhadores industriais do Meio-Oeste americano, o cinturão manufatureiro europeu — e o Brasil.Por que o Brasil? Porque a hiperglobalização era, em essência, uma competição por custo de mão de obra manufatureira, e o Brasil nunca competiu nesse jogo. Nosso salário industrial era mais alto que o asiático, nossa produtividade mais baixa que a alemã, nossa logística mais cara que a chinesa, nossa carga tributária mais complexa que quase qualquer outra. Enquanto Vietnã, Bangladesh, México e sobretudo a China absorviam etapas inteiras de cadeias globais, o Brasil sofria uma desindustrialização precoce e se acostumava a taxas de crescimento pífias. Não foi má sorte: foi incompatibilidade estrutural entre o país que somos e o regime econômico que vigorava.Foi essa incompatibilidade — e não uma suposta maldição nacional — que produziu quarenta anos de frustração. Compreendê-la é o primeiro passo para perceber por que, agora, a moldura mudou.O agro não para!Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.Série "O país que deixou de ser do futuro" — Parte 1 de 4.— No próximo artigo — Parte 2: o colapso silencioso da hiperglobalização e a nova geografia econômica em que o Brasil, pela primeira vez em um século, tem cartas na mão.