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O paradoxo brasileiro e a janela que pode se fechar

Por Marco Ripoli

15:33

O paradoxo brasileiro e a janela que pode se fechar
Produtividade, capital humano, infraestrutura, insegurança jurídica, fiscal: as escolhas dos próximos dez anos

As três primeiras partes desta série mostraram um mundo cuja régua mudou a nosso favor e um Brasil que já dispõe, na economia real, das vantagens que essa régua premia. Falta enfrentar a pergunta desconfortável: por que, então, crescemos tão pouco?

O paradoxo brasileiro


Se tudo isso é verdade, por que crescemos tão pouco? Por que o PIB per capita brasileiro estagnou em torno de um quarto do americano por três décadas? Por que os salários reais não decolam? Por que a sensação, no dia a dia, é de país travado?

Aqui reside o paradoxo, e é preciso enfrentá-lo sem eufemismo. O Brasil é favorecido pela nova geografia econômica externa e sabotado pela sua própria arquitetura econômica interna. As duas coisas são simultaneamente verdadeiras e é a tensão entre elas que define o momento.

O primeiro nó é a produtividade. A produtividade total dos fatores no Brasil praticamente não cresce desde os anos 1980. Cada trabalhador brasileiro produz, hoje, menos por hora que produzia um trabalhador americano em 1970. Isso não é falta de gente talentosa nem de vontade de trabalhar. É consequência de um ambiente de negócios hostil, de uma tributação labiríntica que consome talento gerencial em atividade improdutiva, de uma judicialização crônica que torna qualquer contrato incerto, e de uma infraestrutura que faz o custo Brasil ser, em muitos elos logísticos, o dobro do custo de nossos concorrentes.

O segundo nó é o capital humano. Melhoramos muito em cobertura educacional — quase todas as crianças estão na escola — mas continuamos aprendendo pouco. Os resultados brasileiros no PISA, em leitura, matemática e ciências, colocam nossos jovens de quinze anos vários anos atrás de seus pares no Chile, no México, em Portugal. Sem capital humano, nenhuma janela de oportunidade se converte em produtividade sustentada. O agronegócio consegue conviver com esse gargalo porque é intensivo em capital e tecnologia; a economia urbana e de serviços, que emprega dois terços dos brasileiros, não consegue.

O terceiro nó é a infraestrutura. Investimos, historicamente, cerca de 2% do PIB em infraestrutura, quando o mínimo para não deteriorar é de 4% a 5%. Portos congestionados, ferrovias inexistentes, rodovias esburacadas, energia elétrica cara na ponta industrial apesar de barata na geração, saneamento vergonhoso. Cada tonelada de soja que sai de Sorriso para um porto asiático perde competitividade nas centenas de quilômetros de estrada precária que enfrenta antes de chegar ao navio.

O quarto nó é a insegurança jurídica. Marcos regulatórios que mudam a cada governo, decisões judiciais que suspendem contratos assinados há décadas, agências reguladoras submetidas a captura política, tributos criados retroativamente. Nenhum investidor de longo prazo — e todo investimento nos setores em que somos vencedores é de longo prazo — investe com tranquilidade num ambiente assim.

O quinto nó, o mais grave, é o desequilíbrio fiscal. Um Estado que gasta 45% do PIB e mal consegue arrecadar para pagar juros da dívida, uma dívida bruta que se aproxima de níveis que, em economias emergentes, tipicamente precedem crises, um crescimento estrutural da despesa obrigatória que consome qualquer espaço para investimento público e comprime o setor privado via juros altos permanentes. Enquanto o mundo redescobre o valor da estabilidade macroeconômica, o Brasil corre o risco de reimportar a instabilidade que havia superado nos anos 1990.

É essa combinação — janela externa aberta, arquitetura interna travada — que define o desafio. A oportunidade não se realiza sozinha. Vantagem comparativa em recursos naturais, sem produtividade, infraestrutura, capital humano e ordem fiscal, produz o que a economia do desenvolvimento chama de "maldição dos recursos": exportação bruta, câmbio apreciado, desindustrialização, concentração de renda, apatia política. O Brasil tem todos os ingredientes para ser tanto a Austrália do século XXI quanto uma versão maior da Venezuela. A diferença está nas escolhas dos próximos dez anos.

A janela e o risco de desperdiçá-la


Talvez a maior oportunidade econômica brasileira desde a Revolução Industrial esteja acontecendo agora, e talvez a maioria dos brasileiros — inclusive quem toma decisões — não tenha percebido. Isso não é hipérbole retórica. É a leitura sóbria de três fatos convergentes: o fim de um regime econômico que nos era desfavorável, o início de outro que premia exatamente o que temos, e a existência simultânea de vantagens acumuladas em agronegócio, bioenergia, minerais e matriz elétrica limpa que nenhum concorrente pode construir em menos de uma geração.

A ironia é que, enquanto essa inversão acontece, o debate público brasileiro segue quase inteiramente ocupado com os problemas do país anterior. Discutimos alíquotas do imposto sobre a renda como se essa fosse a fronteira do progresso. Discutimos qual ministério deve controlar qual estatal. Discutimos posições em guerras culturais importadas. Discutimos aposentadoria como se demografia fosse escolha. Não discutimos, com a seriedade que o momento pede, como se transforma uma vantagem geográfica e histórica temporária num salto duradouro de produtividade e renda.

A janela não é infinita. A nova ordem econômica que se forma vai se consolidar com ou sem o Brasil. Argentina, com Milei, aposta em disciplina fiscal radical para atrair capital para Vaca Muerta e para o lítio. Estados Unidos reindustrializam com subsídio maciço à indústria verde. União Europeia constrói alianças de fornecimento com África e sudeste asiático. China compra terra fértil e mineração em todos os continentes. O mercado internacional de capital, tecnologia e talento se realoca agora. Quem chegar depois pagará mais caro por menos.

O Brasil precisa fazer, nos próximos dez anos, três coisas ao mesmo tempo — nenhuma delas ideologicamente exótica, todas elas politicamente difíceis. Precisa ancorar suas contas públicas de forma crível, para que os juros reais caiam de forma permanente e o investimento privado retorne. Precisa investir maciçamente em capital humano — não em cobertura, que já temos, mas em qualidade, o que exige enfrentar corporações, currículos e culturas escolares consolidadas. E precisa modernizar sua infraestrutura logística e regulatória, aproveitando o apetite global por ativos brasileiros de longo prazo em concessões, portos, ferrovias, energia e saneamento.

Se fizermos isso, seremos, na segunda metade deste século, o que os manuais chamam de potência agroalimentar, energética e ambiental — e, por consequência, uma economia de renda média-alta com peso geopolítico próprio. Se não fizermos, seremos exatamente o que já fomos: um imenso território rico habitado por uma sociedade pobre, exportando matéria-prima bruta para financiar o consumo de uma elite estreita e a subsistência precária do resto.

A frase de Zweig envelheceu mal por um motivo simples: durante oitenta anos, tratamos o futuro como destino, quando ele sempre foi decisão. Pela primeira vez em muito tempo, o vento externo sopra a nosso favor. Cabe a nós, e apenas a nós, decidir se abrimos ou não a vela — ou se continuaremos, mais uma vez, discutindo os problemas do país que já não somos, enquanto o país que poderíamos ser passa de largo.

O país do futuro só deixa de ser do futuro quando decide, finalmente, ser do presente.

O agro não para!

Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

Série "O país que deixou de ser do futuro" — Parte 4 de 4.

— Fim da série. As quatro partes formam uma tese única: as condições que penalizaram o Brasil durante quarenta anos deixaram de existir, e a janela que se abre agora depende, mais do que dá sorte externa, das escolhas internas que fizermos até o fim desta década.

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