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O tamanho da manchete, o número e a tese errada

Por Arlélio Leite dos Santos

14:21

O tamanho da manchete, o número e a tese errada
Nas próximas semanas, o Brasil vai repetir um ritual que já conhecemos. O governo sobe ao palco, anuncia o maior Plano Safra da historia, as entidades reclamam que faltou dinheiro, a imprensa compara o numero novo com o numero velho e todo mundo volta para casa com a sensação de dever cumprido. Em 2025 foram R$ 516,2 bilhões. Em 2026, o ministro ja avisou que um valor maior e factível. A plateia vai aplaudir de pe. Qual é o problema? Resposta rápida e objetiva: a plateia esta aplaudindo a variável errada. O credito rural brasileiro nao tem problema de volume. Erramos no preço e na arquitetura e nenhum dos dois cabe na manchete do anuncio. Vamos a análise:

Comece pelo fato que ninguém quer colocar ao lado do palco: a inadimplência do credito rural subiu muito em 2025 e em algumas rubricas como mostra o SERASA EXPERIAN a inadimplência da população rural fechou em 8,25% em 2025. Outros indicadores indiretos como o aumento de 54% das RJs confirmam as estimativas médias e estes são os piores números das ultimas safras. No credito livre, aquele que o produtor toma quando o dinheiro subsidiado acaba, o salto também foi grande E tudo isso aconteceu depois do maior Plano Safra ja anunciado (2025). Se volume resolvesse, o recorde de credito nao conviveria com o recorde de calote. Convive. E a convivência dos dois recordes na mesma fotografia deveria encerrar o debate sobre tamanho antes de ele começar.

O primeiro mecanismo que elenco e o preço do dinheiro. Com a Selic a 14% ou mais ao ano, o que define quanto credito chega ao campo a taxa viável nao e o numero anunciado no palco e sim o volume da equalização de juros, a subvenção que o Tesouro paga aos bancos para cobrir a diferença entre a taxa cobrada do produtor e o custo de captação do mercado. Esta é a restrição real do sistema. Quando a Selic dobra, o custo de equalizar dobra junto, e o mesmo orçamento equaliza apenas metade do credito. O anuncio do valor total pode crescer 10% ao ano; se a subvenção nao acompanhar, o credito efetivamente barato encolhe e isto é o que vem acontecendo, safra apos safra, sem que o numero da manchete registre o fenômeno. Em 2025 o valor caiu de R$ 16 bilhões em 2024 para R$ 13 bilhões em 2025 mostando que a realidade encarece o crédito ao produtor.

O resultado pratico e conhecido de qualquer agencia bancaria do interior: uma minoria acessa o credito equalizado entre 8,5% e 14% ao ano, e o restante vai ao mercado pagar de 18% a quase 30% aa para produzir. O plano anuncia o teto. O produtor vive no andar de baixo. E o andar de baixo cresceu: o funding privado, via barter de revenda, CRA, FIAGRO e credito de trading, ja responde pela maior parte do financiamento do campo, com preços de mercado e prazos de mercado. A politica publica discute um pedaço cada vez menor do bolo como se fosse o bolo inteiro.

O segundo mecanismo é a arquitetura. O Brasil e o único grande produtor agrícola do mundo que renegocia sua politica de financiamento a cada doze meses ou seja a cada plano safra. O Farm Bill americano vale por cinco anos. A politica agrícola comum europeia, por tempo ainda maior (fora as barreiras protecionaistas adicionais). Aqui, o produtor que decide investir em armazenagem, irrigação ou recuperação de pastagem, decisões de cinco a dez anos de maturação, faz a conta sem saber qual sera a regra do jogo em julho do ano seguinte. Nao ha taxa de juros que compense a incerteza de regra. A CNA pede plurianualidade e previsibilidade nas suas propostas para 2026/27 e esta é a unica discussão que importa mas é a que menos aparece.

Ha um terceiro ponto, menor no debate e maior na consequência: o seguro rural. O Programa de Subvenção ao Premio do Seguro Rural cobre fração pequena da area plantada e sem seguro, cada quebra de safra vira renegociação, cada renegociação vira passivo, e o passivo acumulado é exatamente o que a inadimplência alta esta medindo. Países que estabilizaram a renda agrícola fizeram isso com seguro massificado, nao com credito anual. O Brasil insiste na sequencia inversa e claro isso faz o agro patinar a cada quebra de safra. Vale perguntar: por que o ritual sobrevive, safra apos safra, se a sua ineficácia e mensurável?

A resposta esta na politica não na economia agrícola: a manchete é barata e a subvenção é cara. Anunciar volume custa uma cerimonia; ampliar o orçamento de equalização custa briga com a Fazenda em ano de aperto fiscal; instituir plurianualidade custa abrir mão do palco anual (do anuncio anual com eleição ano sim e outro também), que serve ao governo de plantão e para as entidades convidadas na mesma medida. Todos os participantes do ritual ganham alguma coisa com ele, exceto o produtor que é o destinatário declarado da politica. E o tipo de equilíbrio que nao se desfaz por boa vontade. Se desfaz quando o custo de mantê-lo fica visível, e a inadimplência recorde esta cumprindo essa função com uma eloquência que nenhum artigo alcança. Mas o que isso muda para quem esta lendo?

Para o produtor: o plano safra nao vai devolver a sua margem. A conta da safra 2026/27 se faz com o custo real do dinheiro que voce consegue, nao com a taxa do anuncio. Quem planejar esperando que o credito oficial cubra o ciclo inteiro vai descobrir em outubro que nao cobre, e outubro é tarde demais para refazer orçamento de plantio. Para a cadeia de insumos: 1.990 pedidos de recuperação judicial no agro em 2025, alta acima de 50% sobre o ano anterior. Isto não são acidentes de percurso, são apenas consequências previsiveis de um sistema que financia ciclo longo arriscado com dinheiro curto e caro. O premio de risco da cadeia precisa refletir essa arquitetura, e ainda nao reflete. Quem vende a prazo com a régua de 2021 esta carregando risco de 2026 a preço de banana e isto não acabará bem.

Para o governo, a lição e mais simples e mais dura: anunciar R$ 600 bilhões nao muda um unico ponto da inadimplência. Transferir o debate do volume para o preço, do anuncio para a subvenção, e do ano fiscal para o ciclo plurianual mudaria tudo para o setor produtivo. Mas teriamos que ter menos manchete e mais coragem. O ritual de junho vai acontecer de novo, com palco, numero e aplauso. Mas enquanto o Brasil discutir o tamanho do plano, vai continuar errando a pergunta. Credito nao falta. Falta dinheiro com preço de agricultura e politica com prazo de lavoura. Falta respeito a uma das cadeias produtivas mais importantes do Brasil.

Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).

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