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Pax Armata

Por Alex Lima

13:59

Pax Armata
Às vezes, os orçamentos públicos revelam mais sobre as intenções dos Estados do que discursos, ameaças ou bravatas de seus líderes. Com o aumento da belicosidade na Europa e o novo apetite coercitivo dos Estados Unidos, os orçamentos militares do continente revelam uma nova realidade.

Desde a anexação da Crimeia, em 2014, o gasto militar dos países da União Europeia passou de €195 bilhões para aproximadamente €418 bilhões em 2025. A composição revela a direção do movimento europeu: o investimento em equipamentos, infraestrutura e pesquisa militar subiu de €32 bilhões em 2014 para €134 bilhões em 2025 e poderá atingir €163 bilhões neste ano. A Europa está se tornando mais difícil de invadir, mas mais cara de proteger.

O continente deixou de comprar segurança quase exclusivamente do orçamento americano e começou a internalizá-la. O movimento ganhou nova urgência no segundo mandato de Donald Trump, que ressignificou a relação transatlântica: ameaças de anexar a Groenlândia, sinalizações de redução da presença militar americana na Europa e rodadas de tarifas contra parceiros comerciais tradicionais.

A Polônia é o caso mais visível. Varsóvia pretende destinar 4,8% do PIB à defesa em 2026 — proporção que se aproxima de 7% quando o governo inclui infraestrutura de uso duplo. Mas o rearmamento deixou de ser uma excepcionalidade do flanco leste. Estônia, Letônia e Lituânia também caminham para orçamentos próximos de 5% do PIB. A Alemanha alterou sua regra constitucional de endividamento para retirar parte dos gastos de defesa do freio da dívida e planeja elevar seu orçamento militar principal de €82,7 bilhões em 2026 para mais de €180 bilhões no final da década. A França comprometeu €413 bilhões em seu programa militar de 2024 a 2030. A Europa abriu os cofres para o rearmamento estrutural.

As grandes economias, que passaram uma década abaixo da antiga meta de 2% do PIB, convergem agora para uma faixa entre 2% e 2,7%. Mais revelador, entretanto, é o comportamento dos orçamentos militares dos países que fazem fronteira com a Rússia. Para 2026, a OTAN estima gastos equivalentes a 5,33% do PIB na Lituânia, 5,10% na Estônia, 4,92% na Letônia e 4,68% na Polônia. Desde 2014, a Lituânia multiplicou por mais de seis a parcela do PIB destinada à defesa; a Letônia, por cinco; Polônia e Estônia, por aproximadamente duas vezes e meia.

A distância em relação à Rússia tornou-se uma variável fiscal mensurável. Em 2014, os países da União Europeia com fronteira russa gastavam, em média, 1,41% do PIB em defesa, ante 1,19% entre os demais membros europeus da OTAN. Em 2026, a relação passou para 4,54% contra 2,36% — praticamente o dobro.

O movimento já começou a aparecer no faturamento da indústria de defesa. Entre 2021 e 2025, as receitas da Saab mais que dobraram, enquanto Rheinmetall e Hensoldt cresceram 76% e 67%, respectivamente. BAE Systems e Leonardo avançaram 44% e 38%. Mais reveladora é a carteira de pedidos: o backlog da Saab aumentou 161% desde 2021, o da BAE praticamente dobrou e o da Rheinmetall passou de €26,6 bilhões em 2022 para €63,8 bilhões em 2025. O rearmamento europeu não está apenas elevando o valor de mercado das empresas de defesa. Está alterando fisicamente sua escala de produção.

Não se trata de substituir completamente os Estados Unidos. Washington continuará essencial em inteligência, satélites, logística, comando integrado, defesa antimíssil e dissuasão nuclear. O que muda é a divisão de trabalho: os europeus assumem progressivamente a massa convencional e industrial, enquanto os americanos preservam os instrumentos estratégicos.

A geografia militar acompanha o dinheiro. Em 2017, a OTAN mantinha quatro grupos de batalha avançados — Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia. Após a invasão da Ucrânia, a presença foi expandida para Bulgária, Hungria, Romênia e Eslováquia. Em 2026, um novo agrupamento foi estabelecido na Finlândia, enquanto a Alemanha ampliava sua brigada permanente na Lituânia, que deverá alcançar cerca de 5 mil integrantes em 2027. A entrada de Finlândia e Suécia na aliança integrou o Báltico e o Ártico à arquitetura ocidental. A Rússia passou a enfrentar uma fronteira maior, mais profundidade logística europeia e menor capacidade de concentrar forças sem ser detectada.

Esse rearmamento fecha a porta para uma ofensiva convencional russa rápida, mas abre outra. Quanto mais difícil se torna atacar diretamente a Europa, maior o retorno marginal de operar abaixo do limiar da guerra: sabotagem, drones sobre aeroportos, interferência eletrônica, ataques cibernéticos, incêndios criminosos, migração instrumentalizada e operações de bandeira falsa. Moscou não precisa derrotar militarmente a OTAN. Precisa convencer os europeus de que a aliança não consegue proteger cabos submarinos, ferrovias, redes elétricas, portos e processos políticos.

A restrição do lado russo é econômica, mas não implica colapso iminente. O déficit fiscal russo aumentou, a parcela líquida do Fundo Nacional de Riqueza foi fortemente consumida e as reservas físicas de ouro do banco central caíram cerca de 43,5 toneladas no primeiro semestre de 2026 — embora a variação do estoque não revele, por si só, a natureza de todas as operações realizadas. Ainda assim, regimes autoritários conseguem transferir o custo da guerra para consumidores, empresas e gerações futuras por muito mais tempo do que modelos convencionais costumam prever.

A variável decisiva é a China. Pequim compra energia russa com desconto, fornece produtos manufaturados e amplia sua influência sobre Moscou. Possui alavanca econômica suficiente para pressionar o Kremlin, mas poucos incentivos para utilizá-la: uma Rússia enfraquecida, sancionada e dependente pode ser mais valiosa para a China do que uma Rússia derrotada ou reintegrada ao Ocidente.

O novo equilíbrio europeu, portanto, não é uma guerra em vias de começar nem uma paz em vias de retornar. É um estado intermediário: rearmamento permanente de um lado, provocação calibrada do outro, e nenhum dos dois com incentivo para romper completamente a equação. A Rússia evita o confronto aberto porque a guerra híbrida entrega desgaste a baixo custo. A Europa evita escalar porque uma sabotagem isolada e denegável raramente produz o consenso político necessário para uma resposta militar.

Mas essa mesma assimetria é o que torna o equilíbrio frágil. A expressão “paz armada” descreve a Europa de 1871 a 1914 — um arranjo tido como estável até ruir, por erro de cálculo, num único verão. O cenário que quebra o equilíbrio atual não é Moscou decidir cruzar o Artigo 5. É uma provocação — um drone, um incêndio, uma operação de bandeira falsa — que produza baixas em massa e force uma resposta não planejada. O gatilho não é a decisão. É o erro.

O Artigo 5 pode permanecer intacto durante anos enquanto o custo de existir ao seu redor sobe todos os dias. A Europa não voltou à guerra. Mas o dividendo da paz acabou. Os cofres públicos sabem disso.

Por Alex Lima, fundador e estrategista-chefe de conteúdo da DA Economics.

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