A pergunta do título não possui uma resposta única, tampouco uma resposta absolutamente correta, pelo simples fato de não existirem duas usinas iguais. Pode existir um padrão ou semelhanças, mas se as diferenças forem desconsideradas são suficientes para determinar a perpetuação ou o fechamento da usina.Essas diferenças vão muito além do solo, clima e topografia. Tem a cultura, o ponto de vista e a postura dos donos e das pessoas que nela trabalham. Ao longo da história das empresas, as soluções são criadas e as competências são desenvolvidas fazendo de cada usina um organismo adaptado ao ambiente.Pelos anos 80, na Santa Elisa, dizíamos que “se conservassem a usina e tirassem as pessoas, a usina desapareceria. Mas se destruíssem a usina e conservassem as pessoas, a usina renasceria”. O propósito era mostrar uma visão positiva e motivadora da segunda hipótese, eu não imaginava que viria a ser uma profecia da primeira hipótese.Em qualquer ramo, empresas abrem e fecham, mas as usinas são empresas que tem matéria-prima de suprimento firme e produtos de mercado de comoditie com demanda firme e conhecida. O natural, na pior das hipóteses, seria “mudar de dono”.O mercado dos produtos, açúcar, etanol e eletricidade, tem uma dinâmica de demanda e preços suficientemente conhecida e com projeções suficientemente confiáveis, e com erros pequenos empresas com muita expertise para projeções razoavelmente acertadas. Os preços tem uma amplitude que no último meio século tem variação aproximada entre US$14,00 e 24,00 por libra peso, que equivale aproximado de R$1,10 a R$2,00/kg. É uma variação grande que exige preparação.Outro ingrediente é que os produtos sendo comodities, seus preços não são definidos pelos produtores, mas sim são regidos pelo mercado. Portanto, se não é possível agir sobre os preços, as ações têm que ser sobre os custos. Ou, sendo mais exato, sobre a geração de caixa, para assegurar margens de ganho para pagar as contas. Que inclui ter custos que permitam suportar períodos de baixos preços.Do outro lado, a produção de cana tem um ciclo medianamente longo e uma base diversificada dispersa entre agricultores e locais, isto resulta em uma razoável estabilidade de oferta. Para ser pego de surpresa é preciso estar distraído por longo tempo.Distração é a palavra certa, simples e precisa. Distraída até pela ideia do foco no resultado, da gestão do dia a dia pelo resultado, do relatório executivo pelo resultado, da bonificação pelo resultado. É preciso fazer uma distinção: existe o resultado e existe o processo, são coisas diferentes, que ocorrem em tempos diferentes. O que dificulta a clareza da visão é que ocorrem em tempos diferentes e distantes.A confiança no processo é como pode ser chamada a alma do agricultor. É, antes de tudo, coisa de agricultor. E agricultor tem na alma a confiança de que realizando as práticas passo a passo, a colheita virá. Ou seja, realizando o processo, o resultado vai acontecer por desdobramento. As usinas não fecham por causa de seus resultados, mas sim fecham por causa de seus processos.Vou citar um exemplo. O dono da usina levanta de manhã, pega o telefone e pergunta ao Diretor quanto colheu e como estão as colhedoras. O diretor vai pegar o telefone e perguntar ao gerente quanto colheu e como estão as colhedoras. O gerente vai pegar o rádio e perguntar ao supervisor da colheita, que vai perguntar ao supervisor da oficina. No rádio todos ouvem e todos vão olhar a colheita. Está é a usina onde, em poucos anos, vai faltar cana. Porque ninguém perguntou sobre o plantio, sobre os tratos, sobre a vinhaça, sobre a praga...A cobrança de resultados, desprovida de acompanhamento dos processos, resulta na rotatividade de pessoas. E a rotatividade de pessoal é inversamente proporcional à longevidade da empresa. Usinas saudáveis têm baixa rotatividade. É um círculo virtuoso, observe isto.Frequentemente os processos são deteriorados pela rotatividade de pessoas porque não houve a aquisição da tecnologia pela empresa.Nenhuma usina, de repente fecha. Nenhuma usina fica ruim de repente. Por natureza da cana de açúcar e do mercado, os processos de crescimento ou de degradação são lentos. O suficiente para passarem desapercebidos para os distraídos ou serem percebidos com antecedência pelos atentos. Assim como a produtividade ou a produção, não caem de repente.Para a perpetuação da usina existem roteiros simples, como fazer exame médico periódico com ações preventivas ou corretivas, exigindo às vezes medicamentos simples e outras vezes exigindo intervenções mais profundas. A gestão virtuosa tem sempre olhar atento para percepção precoce, diagnóstico correto, remédios eficazes e cura em tempo. Tenha um médico de confiança e o consulte regularmente.Por Valmir Barbosa, Consultor Sênior Associado da DATAGRO Alta Performance.