Ao concentrar a gestão cambial na receita, muitas companhias deixam de monitorar a exposição econômica dos ativos. O resultado pode ser uma erosão silenciosa da confiabilidade operacional justamente quando os indicadores financeiros sugerem que o risco está sob controle.A volatilidade cambial voltou a ocupar posição central na agenda estratégica do setor sucroenergético. Em resposta, muitas empresas ampliaram programas de hedge, fortaleceram suas políticas de comercialização e elevaram a previsibilidade de receitas e fluxo de caixa.Sob a perspectiva financeira, a abordagem é correta. As posições estão protegidas, a volatilidade dos resultados é reduzida e os relatórios de risco indicam níveis adequados de cobertura. Para investidores, credores e conselhos de administração, a conclusão natural é que a exposição cambial da companhia se encontra devidamente administrada.Essa conclusão, contudo, pode ser incompleta.Em muitas operações, a exposição cambial não é eliminada pela proteção da receita. Ela é deslocada para outra dimensão do negócio: a manutenção dos ativos, a disponibilidade industrial e a capacidade futura de geração de caixa.Parte do valor preservado pela estratégia financeira pode ser gradualmente comprometida por decisões operacionais que não aparecem nos relatórios tradicionais de hedge.
O foco excessivo na receita
A gestão cambial do setor concentrou-se historicamente na receita. Trata-se de uma escolha compreensível. Açúcar, energia exportada e diversos contratos comerciais possuem forte correlação com mercados internacionais, tornando a proteção financeira uma prioridade naturalComo consequência, diretorias financeiras e tesourarias desenvolveram estruturas sofisticadas para monitorar posições, cenários e percentuais de cobertura.O problema não está nessa disciplina. Está na assimetria.Enquanto a exposição da receita costuma ser monitorada com elevado rigor, a exposição cambial incorporada aos custos críticos recebe atenção significativamente menor.Uma usina não é apenas um conjunto de fluxos financeiros. É um ativo industrial cuja capacidade de gerar caixa depende da sua confiabilidade operacional.
A parcela do custo que sustenta o ativo
Em uma operação sucroenergética típica, a maior parte dos custos acompanha a dinâmica da economia doméstica. Entretanto, uma parcela menor da estrutura de custos permanece sensível ao dólar.Sob uma perspectiva quantitativa, essa exposição pode parecer limitada. Sob uma perspectiva econômica, sua relevância é muito maior.Isso ocorre porque os componentes dolarizados normalmente concentram itens de elevada criticidade operacional.
Quando a premissa deixa de refletir a realidade
Considere uma manutenção aprovada sob determinada premissa cambial. Meses depois, o dólar encontra-se substancialmente acima do nível considerado durante o processo orçamentário.Os ativos continuam exigindo as mesmas intervenções, mas o custo dos elementos críticos aumenta.Como esses componentes não podem ser eliminados do escopo, o aumento de custo tende a ser absorvido por outras rubricas do orçamento. Reduzem-se horas de manutenção preventiva, postergam-se intervenções e limita-se parte do escopo inicialmente planejado.Nesse momento, a organização deixa de ajustar apenas o orçamento. Passa a reduzir o nível de proteção operacional do ativo.
O risco que não aparece nos relatórios
Os benefícios da estratégia de hedge aparecem claramente nos relatórios financeiros. Já os efeitos decorrentes da redução implícita de manutenção não possuem o mesmo grau de transparência.Como consequência, o impacto permanece oculto por um período significativo e costuma surgir mais tarde na forma de menor disponibilidade industrial, aumento de falhas, crescimento da manutenção corretiva ou perda de capacidade produtiva.
O paradoxo do hedge bem-sucedido
Uma empresa pode executar com excelência sua estratégia de hedge de receita e, simultaneamente, aumentar sua exposição econômica agregada.Receita protegida não significa necessariamente valor protegido.O valor econômico da companhia depende da capacidade de seus ativos gerarem resultados de forma consistente ao longo do tempo.
O verdadeiro hedge de custo
O principal desafio não é financeiro. É de governança.Para a maior parte das despesas críticas de manutenção, a variável mais relevante não é o preço nominal do orçamento. É a preservação do escopo físico necessário para manter a confiabilidade operacional.Quando essa distinção é formalizada, a pressão cambial deixa de ser absorvida automaticamente por cortes implícitos de manutenção e passa a ser explicitamente identificada e discutida.
Um problema de governança, não de tesouraria
A tesouraria gerencia a exposição da receita. A operação administra a manutenção. Suprimentos conduz as compras. A controladoria acompanha o orçamento.O problema surge porque nenhuma dessas áreas possui, isoladamente, uma visão consolidada da exposição econômica do ativo.
Conclusão
A gestão da exposição cambial não termina na receita.Uma parcela relevante do risco permanece incorporada aos custos críticos necessários para preservar disponibilidade industrial, eficiência operacional e capacidade futura de geração de caixa.Quando aumentos de custos dolarizados são absorvidos por reduções implícitas de escopo, o risco não é eliminado. Apenas muda de localização.Em última análise, valor não é criado pela existência de um hedge. Valor é criado pela capacidade sustentada de transformar ativos operacionais em fluxo de caixa ao longo do tempo.
Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).