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Quando os preços passam a ditar os fundamentos

Por Alex Lima

13:46

Quando os preços passam a ditar os fundamentos
Passe tempo suficiente diante de um terminal Bloomberg e você aprende duas coisas. A primeira é que o fundo escuro poupa a vista. A segunda, mais importante, é que nem sempre os fundamentos ditam os preços — às vezes, os preços passam a ditar os fundamentos. Em ambientes de incerteza extrema como o atual cenário de conflito ampliado no Oriente Médio, mercados deixam de ancorar no médio prazo e passam a negociar o curtíssimo prazo, a narrativa dominante e, muitas vezes, o próprio movimento.

É exatamente isso que parece estar acontecendo agora. Alívios técnicos seguem sendo confundidos com alívios de fundamento. O índice de volatilidade da bolsa americana (VIX) voltou a flertar com níveis preocupantes últimas semanas, e o S&P já se aproxima de uma correção mais relevante — tendo caído cerca de 9% desde os highs de janeiro — e a falta de sincronia entre o choque em commodities e o restante dos mercados começa, finalmente, a contaminar outras classes de ativos. O Treasury de 2 anos subiu mais de 40 bps desde o início do ano, enquanto as implícitas de 1 ano já romperam 5%. Um movimento mais compatível depois de um choque de 80% no WTI desde dezembro.

O ponto central é que o newsflow vindo do Golfo e o newsflow vindo da Casa Branca continuam apontando para direções opostas. No campo militar, a destruição da capacidade iraniana segue avançando: cerca de 10 mil alvos foram atingidos em um mês de conflito, com deterioração crescente da capacidade ofensiva do país — 80% da força aérea destruída, 65% da marinha, 60% da ofensiva de mísseis e aproximadamente 58% da capacidade industrial da cadeia de armamentos. Já o newsflow político americano segue errático: hora se fala em off-ramp, ora em escalada; ora em retirada da ofensiva, ora em desembarque de tropas. A notícia mais recente talvez resuma melhor essa contradição: a possibilidade de os EUA “encerrarem a guerra” deixando o Estreito de Ormuz ainda fechado na prática.

Do ponto de vista estratégico, isso resolve pouco. Para Trump, o problema não é apenas militar — é macroeconômico. Em teoria dos jogos, o payoff relevante para a Casa Branca é estabilizar ativos, conter inflação e evitar erosão do efeito riqueza do consumidor americano. Com as midterms em novembro, esse problema é imediato. Declarar vitória sem reabrir de fato o fluxo marítimo não entrega esse resultado. Pior: com a entrada dos Houthis no conflito ameaçando também o Mar Vermelho e, por consequência, a rota via Canal de Suez, o choque de oferta se amplia. A margem de manobra diminui. Uma saída política que preserve o bloqueio econômico não é uma saída. Por isso, o vetor mais provável continua sendo o prolongamento da ação cinética.

Depois de um mês de conflito transmitindo choque de petróleo, já é razoável assumir algum grau de choque inflacionário no pipeline. O ECB (Banco Central Europeu) e o BOE (Banco da Inglaterra) começam a precificar algo entre 2 e 3 altas, em parte pela memória inflacionária ainda fresca do episódio Rússia-Ucrânia. O Federal Reserve (Fed), por enquanto, parece um pouco atrás da curva. Mas não acreditamos que permanecerá assim por muito tempo.

Mesmo sob diferentes combinações de núcleo de inflação e desemprego, a taxa implícita continua compatível com um Fed Funds acima do nível efetivo atual em boa parte dos cenários. Em paralelo, os indicadores de sentimento do Fed sugerem que o discurso recente está menos “dovish” do que a curva ainda embute — especialmente quando comparado à resiliência dos dados e à assimetria dos riscos inflacionários.

Se esse choque continuar contaminando expectativas e condições financeiras sem produzir um colapso claro da demanda, o movimento natural é de repricing da curva: menos cortes, mais tempo em patamar restritivo e compressão do otimismo excessivo em duration. O mercado ainda parece operar com uma função de reação de Fed pré-guerra, num ambiente que já não é mais pré-guerra. Haverá resistência política da Casa Branca a qualquer aperto adicional das condições financeiras, mas esse tipo de resistência também foi secundário quando a inflação de alimentos nos EUA atingiu 11% em 2022.

Em síntese: a principal assimetria de mercado seja o formato atual da curva americana, que não tem altas embutidas no horizonte. Se estivermos certos, petróleo, inflação implícita e discurso oficial ainda não foram totalmente absorvidos pelos preços. Há uma boa probabilidade nos próximos meses, para a curva passar a incorporar 2 a 3 altas de juros, entr 0.5% e 0.75%.

Por Alex Lima, fundador e estrategista-chefe de conteúdo da DA Economics.

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