Existe um momento silencioso antes de uma crise de crédito aparecer no processo judicial. Ele acontece meses antes da petição de recuperação. O produtor ainda está plantando, as máquinas continuam trabalhando, a caminhonete continua nova e os fornecedores ainda recebem alguma coisa. O patrimônio continua impressionante. A fazenda vale dezenas de milhões de reais. Mas o dinheiro já acabou.Esse talvez seja o fato mais perigoso da crise atual do agronegócio brasileiro:
muita empresa rural continua rica em patrimônio depois de já ter ficado pobre em caixa. Infelizmente patrimônio sem liquidez não paga fertilizante, diesel, folha, parcela de máquina nem dívida bancária. Depois disso tudo chega à recuperação judicial. E, neste momento, começa o segundo erro. Vejamos a sequência:A notícia corre pela região. Uma revenda reduz limites a todos. Outra suspende vendas a prazo. A trading endurece o barter. O banco revisa a carteira inteira. O fornecedor que ontem o disputava como um excelente cliente passa a tratá-lo como suspeito, leproso. Em 48 horas, centenas de produtores que nunca atrasaram uma duplicata podem passar a pagar o preço financeiro de uma recuperação judicial que não é deles.Este cenário descreve um cenário em que todos os credores acreditam estar reduzindo risco.
Nem sempre estão. Em algumas situações, estão apenas destruindo informação, expulsando os melhores clientes e acelerando a insolvência dos piores. É por isso que, na crise atual do agro,
o credor que gritar primeiro pode ser justamente o primeiro a perder.A crise deixou de ser exceção, os números já são grandes demais para serem tratados como ruído. O agronegócio brasileiro registrou
1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, maior número da série histórica da Serasa Experian iniciada em 2021. Em 2024 haviam sido 1.272. Em 2023, 534 pedidos. Em apenas dois anos, o volume praticamente quadruplicou. E 2026 começou sem sinal de normalidade plena. A inadimplência da população rural atingiu
8,8% no primeiro trimestre, 1,2 ponto percentual acima do mesmo período de 2025 e 0,6 ponto acima do trimestre anterior.Há um detalhe importante: entre os grandes proprietários rurais, o índice medido pela Serasa chegou a 9,9%. Esse dado destrói uma crença antiga do crédito agrícola: tamanho maior é sinônimo de boa solvência, de pagamento em dia. Agora credores estão aprendendo que terra não é caixa. Faturamento não é margem. Safra recorde não significa lucro recorde. E patrimônio bilionário não significa capacidade de honrar uma obrigação que vence na próxima terça-feira. Essa distinção será uma das mais importantes do agro nesta década. Mas o problema não nasceu na recuperação judicial e hoje é confortável culpar a RJ.A recuperação judicial normalmente não cria a crise econômica. A RJ aparece quando a crise já existe. Os erros começam muito antes. Começam quando crescimento é financiado com dívida supondo que as condições excepcionais continuarão excepcionais para sempre ou quando a terra se valoriza e o produtor interpreta valorização patrimonial como geração permanente de riqueza operacional ou ainda quando uma safra extraordinária vira referência para financiar cinco safras seguintes e ainda pode acontecer quando máquinas, novas áreas e arrendamentos são assumidos com passivos cujo custo cresce mais rápido que a geração de caixa. Tudo termina quando o ciclo vira e a realidade se impõe a fantasia.A Selic caiu para
14% ao ano em agosto de 2026 é melhor que os 15% de 2025, mas 14% continua sendo uma taxa brutal para uma atividade que precisa colocar dinheiro no solo muitos meses antes de saber exatamente quanto colherá, a que preço venderá e quanto restará de margem. O agricultor não controla chuva, nem Chicago, muito menos o dólar e não tem nenhuma influência sobre o preço internacional do fertilizante. Não controla taxas de juros, mas a dívida controla todo seu calendário, e
la vence numa data determinada independentemente de todo o exposto.Essa assimetria é o coração financeiro do problema. O crédito antigo foi construído para outro mundo que não existe a muito tempo. Durante anos, parte relevante do crédito agrícola brasileiro conviveu com uma espécie de seguro informal: a valorização patrimonial. Se a operação dava errado, havia terra valorizando. Se a margem apertava, havia patrimônio para garantir. Se a dívida crescia, o ativo muitas vezes também crescia. Isso criou comportamentos que pareciam racionais enquanto o ciclo ajudava.O problema é que ciclos econômicos ensinam as lições erradas justamente quando duram tempo demais. A exceção começa a parecer regra. E então a empresa rural passa a ser avaliada pela quantidade de hectares, não pela capacidade de gerar caixa. Para o bem ou mal esse modelo chegou ao limite. O crédito de 2026 precisa responder uma pergunta muito mais desconfortável:
quanto dinheiro esta operação realmente gera depois de pagar tudo?A reposta não é quanto vale a terra. Nem quantas sacas produz. Muito menos quantos hectares planta. O sobrenome ou tipo de sangue azul da família também não fará diferença para a liquidação do empréstimo. A única coisa que realmente interessa nesta situação é “q
uanto caixa sobra” porque dívida bancária não é paga com patrimônio teórico. É paga com caixa.
A recuperação judicial virou parte do ambiente institucional
Há também uma mudança jurídica que o mercado precisa incorporar. A reforma promovida pela Lei nº 14.112/2020 reforçou o enquadramento do produtor rural no sistema recuperacional. O Superior Tribunal de Justiça consolidou no Tema Repetitivo 1.145 que o produtor rural que exerça atividade empresarial há mais de dois anos pode requerer recuperação judicial desde que esteja inscrito na Junta Comercial no momento do pedido, independentemente do tempo desse registro.Em março de 2026, a Corregedoria Nacional de Justiça editou o
Provimento nº 216, estabelecendo diretrizes nacionais específicas para recuperação judicial e falência do produtor rural. O significado econômico disso é simples: a
RJ não vai desaparecer porque credores desaprovam sua utilização. Ela passou a integrar o mapa de risco. Portanto, crédito concedido sem considerar a possibilidade de recuperação judicial já nasce mal precificado.
O pânico também quebra empresas
Aqui começa a parte mais incômoda para o credor. Quando surge uma RJ em determinada região, cultura ou cadeia, a reação automática costuma ser reduzir exposição. Faz sentido individualmente. Pode ser desastroso coletivamente. Imagine um produtor economicamente saudável que depende de R$ 10 milhões de capital de giro para atravessar a safra. Ele gera caixa suficiente para pagar sua dívida. Seu problema não é insolvência. É descasamento de prazo. Se cinco fornecedores reduzem simultaneamente seus limites porque outro produtor da região entrou em RJ, aquele empresário saudável passa a precisar encontrar milhões de reais em poucos dias.Se não encontrar, vende ativo. Se vende ativo mal, destrói patrimônio. Se não consegue vender, atrasa. Quando atrasa, seu rating cai. Quando o rating cai, o crédito desaparece. O risco que todos temiam começa então a nascer.
O sistema deixa de estar apenas detectando a crise. Passa a amplificá-la. O corte indiscriminado cria o que chamamos em economia “seleção adversa” Vejamos como seria:Quando um credor fecha a porta para uma região inteira, quem consegue sair primeiro? O cliente bom certo. Ele possui alternativas. Tem balanço melhor. Tem relacionamento bancário. Tem fornecedor concorrente disposto a atendê-lo. Ele vai embora rápido. Quem permanece? Justamente o produtor mais frágil, que aceita juros maiores, garantias mais pesadas e qualquer condição porque já não possui alternativa.O credor acredita ter tornado sua carteira mais segura. Na verdade, pode ter feito exatamente o contrário.
Reduziu o número de bons clientes e aumentou a concentração de risco entre os piores que sobraram. Isso é a seleção adversa. Existe uma ironia cruel nisso: o credor pode perder seu melhor cliente exatamente quando acredita estar sendo o mais prudente possível. A solução não é conceder mais crédito. É sempre, em qualquer momento, conceder crédito melhor.Defender isso não significa romantizar devedor. Há produtor ilíquido. Há produtor insolvente. Há negócio economicamente inviável. Há empresa excessivamente alavancada. Há gestão ruim. Existem casos em que reconhecer a perda rapidamente é mais inteligente do que financiar sua postergação.
Mas existe uma enorme diferença entre cortar crédito e saber para quem não o conceder, quem sempre evitar.A primeira decisão (cortar crédito) exige medo. A segunda (quem sempre evitar) exige inteligência. O credor moderno precisará trabalhar com quatro verbos.
Segmentar. Reprecificar. Garantir. Monitorar. Segmentar significa abandonar categorias genéricas e conhecer o cliente individualmente. Reprecificar significa aceitar que crédito tem preço e que bons riscos não deveriam subsidiar indefinidamente os ruins. Garantir significa compreender não apenas o valor nominal da garantia, mas sua constituição, prioridade, liquidez, suficiência e comportamento em eventual recuperação judicial. Monitorar significa parar de descobrir deterioração financeira quando o boleto já venceu.O default (falta de pagamento do compromisso bancário) deixa sinais antes de acontecer e talvez essa seja a transformação, o novo procedimento mais importante a ser implantado, a se observar. A Serasa informa que os perfis que posteriormente ingressaram em recuperação judicial já apresentavam deterioração mensurável no score anos antes do pedido e isso muda completamente a discussão. Se o problema deixa sinais antecipadamente, então a principal vantagem competitiva não está em reagir mais rápido à recuperação judicial. Está em perceber a RJ antes de ela existir, se materializar.Quem monitora endividamento, comportamento de pagamento, comprometimento de safra, garantias, produtividade e geração de caixa consegue agir enquanto ainda existem alternativas. Quem espera o pedido judicial já chegou atrasado. A crise de crédito no agro é, antes de tudo, uma crise de informação.
Quem conhece o risco, precifica, segmenta bem a taxa. Quem não conhece, corta exposição na correria. E as crises transferem mercado e esta é a última consequência de hoje. Observe:Enquanto alguns credores fecham carteiras inteiras, outros poderão encontrar exatamente nelas os melhores clientes da próxima década. O produtor saudável abandonado por um banco ou fornecedor porque compartilha CEP, cultura ou região com empresas problemáticas torna-se uma oportunidade extraordinária para quem conseguir analisá-lo individualmente. É assim que participação de mercado muda de mãos durante crises ao invés de acontecer quando tudo vai bem.Mas quando o medo impede concorrentes de distinguir risco de oportunidade. O vencedor desse ciclo talvez não seja quem tiver a política de crédito mais conservadora. Será quem possuir
a política de crédito mais precisa, mais coerente com a realidade dos produtores. Porque risco zero não existe. Existe risco mal-entendido. E risco mal-entendido sempre acaba caro.Fechando esta análise informo que a recuperação judicial veio para ficar no agronegócio brasileiro. O credor pode tratá-la como traição, fechar a carteira e cobrar de todos o preço do medo ou pode tratá-la como uma variável nova do negócio: analisar caixa, segmentar clientes, reforçar garantias, monitorar deterioração e cobrar corretamente pelo risco assumido. Um modelo protege o balanço por reflexo. O outro protege o capital por inteligência. E a diferença entre eles pode definir quem conservará os melhores clientes quando essa crise terminar.
O credor que gritar primeiro perde. O que enxergar primeiro ganha.Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).