Safra 2026/27: produzir mais é importante, mas gerar valor será decisivo
Por Felipe Daltro
15:11
O início de uma nova safra de grãos sempre renova as expectativas do agronegócio brasileiro. É o momento em que produtores colocam em prática decisões tomadas meses antes, investimentos começam a se transformar em lavouras e o país se prepara para mais um ciclo de produção. Na safra 2026/27, porém, esse movimento acontece em um cenário que exige uma reflexão importante: produzir mais continua sendo fundamental, mas transformar produtividade em rentabilidade será cada vez mais decisivo para a competitividade do setor.O Brasil construiu uma das agriculturas mais eficientes e tecnificadas do mundo. Ao longo das últimas décadas, avançamos em genética, manejo, mecanização e tecnologias adaptadas às condições tropicais. Essa evolução nos permitiu ampliar a produção, conquistar mercados e assumir um papel estratégico na segurança alimentar global. Mas o crescimento também trouxe novos desafios, especialmente em um ambiente marcado pela volatilidade dos preços, pelas restrições de crédito e pelas incertezas climáticas.O Brasil poderá alcançar um novo recorde na safra de grãos 2026/27, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A estimativa é de uma produção de 367,1 milhões de toneladas, crescimento de 1,4% em relação ao ciclo anterior. As projeções da DATAGRO também apontam para um cenário de expansão. De acordo com a consultoria, a produção brasileira de soja deverá atingir 185,6 milhões de toneladas, avanço de aproximadamente 2% na comparação com a temporada passada. Para o milho, a estimativa é de 145,3 milhões de toneladas, também com crescimento próximo de 2%.Os números reforçam a dimensão e o potencial da agricultura brasileira. Entretanto, uma safra maior não significa, necessariamente, melhores resultados financeiros para quem produz. O agricultor precisa tomar decisões sobre investimentos, insumos, tecnologias e financiamento muito antes de conhecer as condições de mercado no momento da comercialização. Essa dinâmica torna a gestão de riscos tão importante quanto o desempenho agronômico.Durante muito tempo, associamos o sucesso da agricultura principalmente ao crescimento da produção. E temos razões para celebrar cada avanço. Mas precisamos ampliar essa visão. A produtividade continua sendo essencial, porém deve caminhar ao lado da eficiência econômica, da disciplina financeira e da capacidade de adaptação. Afinal, não basta colher mais se os custos, as condições de financiamento e as oscilações do mercado comprometem o retorno sobre o investimento.Nesse contexto, a inovação assume um papel ainda mais estratégico. Tecnologias de proteção de cultivos, soluções biológicas, agricultura digital e ferramentas de análise de dados contribuem para uma tomada de decisão mais precisa e para o melhor aproveitamento do potencial produtivo das lavouras. O desafio está em integrar essas soluções às necessidades de cada propriedade, considerando não apenas os ganhos de produtividade, mas também os resultados econômicos que podem proporcionar.Outro aspecto fundamental é o acesso a instrumentos que permitam ao produtor planejar melhor seus investimentos e administrar riscos. Crédito, seguros agrícolas, alternativas de financiamento e mecanismos de comercialização precisam fazer parte de uma estratégia integrada de gestão. Em um setor no qual boa parte dos custos é assumida antes da colheita, preservar a capacidade de investimento é indispensável para sustentar a competitividade ao longo dos ciclos.Também precisamos reconhecer que os desafios da agricultura não terminam dentro da porteira. Infraestrutura, logística, armazenagem, ambiente regulatório e acesso a mercados influenciam diretamente os resultados. Por isso, fortalecer a conexão entre produtores, empresas, cooperativas, distribuidores, instituições financeiras e centros de pesquisa será cada vez mais importante. A competitividade do agro depende da eficiência de toda a cadeia.A safra 2026/27 representa, portanto, mais do que uma nova oportunidade de ampliar a produção brasileira. É também um momento para reforçarmos uma mudança de mentalidade que já está em curso no campo: a passagem de uma agricultura orientada principalmente pelo volume para um modelo que valoriza, na mesma medida, produtividade, rentabilidade e resiliência.Temos conhecimento, tecnologia e capacidade empreendedora para continuar avançando. O próximo passo é garantir que esse potencial se traduza em resultados consistentes para quem produz, investe e movimenta a economia do país.Porque o futuro do agronegócio brasileiro não será definido apenas por quantas toneladas conseguiremos colher, mas pela nossa capacidade de transformar cada safra em mais eficiência, competitividade e prosperidade para toda a cadeia.Por Felipe Daltro, Presidente para a América Latina da Corteva Agriscience.