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Sucessão no Agro: o elo entre patrimônio e gestão

Por Gabriel Fernando Pesciallo

14:37

Sucessão no Agro: o elo entre patrimônio e gestão
Por muito tempo, herdar o negócio no campo significava apenas repassar a terra. O objetivo? Manter tudo dentro da família, de geração em diante. Um pai plantava, o filho colhia. Era assim que funcionava. Hoje não basta só passar o nome na escritura. O mundo rural virou um ambiente mais complexo. Planejar a saída do comando agora exige olhar além dos documentos. Mudanças chegaram devagar, mas transformaram cada etapa. Quem antes via somente raízes, agora precisa enxergar redes.

Agora, sobretudo em meio a grandes cooperativas do campo e agricultores com maior acesso a recursos, o assunto já não gira somente em torno de questões legais nem ligadas à família. Virou ponto central nas decisões sobre finanças, planejamento e estrutura de comando. De fato, quem herda o controle pode manter firme o patrimônio... ou desmontá-lo por completo no setor agropecuário do país.

O tamanho mudou e as operações agora são maiores, cheias de camadas difíceis de desvendar. Algumas fazendas deixaram para trás o antigo formato e hoje funcionam como negócios completos. Dinheiro entra em escala pesada, com controle total da produção até a venda. Clima vira questão gerencial. Financiamentos seguem planos detalhados. Moedas internacionais mexem nos números. Tudo gira em torno de máquinas, dados, sistemas. Apesar disso tudo, muitas ainda giram em torno de uma única pessoa: quem começou.

Hoje, esse detalhe atrai olhares atentos de instituições financeiras, gestoras e assessores do setor rural. Em boa parte das fazendas, saber como funciona mesmo fica restrito à memória do proprietário. Processos bem definidos? Quase nunca aparecem por ali. Estrutura de decisão escrita nem se fala. Quem vai comandar tudo dali a alguns anos ainda voa solto na conversa.

Acontece que o mercado agora pede mais. Não basta só estar presente, exige qualidade diferente.

Agora, fazendeiros fecham negócios diretos com empresas do exterior, entram em operações montadas sob medida, lançam CRAs, falam sobre FIAGRO, usam proteção contra oscilações e lidam com taxas que cobram mais rigor na administração. Por isso, deixar o futuro da propriedade sem definição virou uma ameaça ao bolso.

Por coincidência mesmo, o assunto começou a aparecer até na rotina dos escritórios da Faria Lima. Especialistas em gestão de fortunas, fusões, regras para famílias ricas e organização de bens passaram a ver a troca de geração no campo como uma frente com futuro claro no mercado médio do Brasil.

Claro que sim, tudo começa pelo fato de o campo acumular riqueza importante. Ainda assim, anda atrás na estruturação frente a áreas urbanas mais consolidadas. Muitas vezes, negócios valendo milhões funcionam sem controle firme nos números. Falta visibilidade na gestão, os processos se enrolam. Confiança entre pessoas acaba pesando mais do que regras claras.

Precisamente aqui é onde um planejamento claro ganha espaço diante dos demais. Quando tudo está definido com antecedência, algumas situações seguem caminhos menos turbulentos. A ordem previamente estabelecida cria vantagem sutil, mas real. Em meio ao caos comum, certas decisões já prontas abrem brechas para avançar. Nem sempre o maior talento leva adiante - às vezes é quem preparou melhor os passos seguintes.

Quem tem ido além nisso costuma andar em três frentes ao mesmo tempo. Administração mais séria aparece logo: controle no dinheiro entra junto com metas claras do dia a dia. Estratégia na hora de pagar impostos faz parte disso também, assim como manter o bolso da firma longe das compras pessoais.

A seguir vem montar esquemas sociais bem arrumados, do tipo holdings do campo, combinações entre sócios ou regras caseiras por escrito. Tais recursos diminuem atritos, guardam o que foi acumulado e deixam nítido quem faz o quê, o que tem cada um, onde começa e termina o dever de cada sucessor.

A terceira etapa, possivelmente a central, envolve treinar devagar os jovens que vêm depois. Sobre isso, vale observar com cuidado.

Hoje, o novo perfil no campo muda de forma sutil e alguns dos que assumem propriedades fizeram curso de administração, engenharia, agronomia ou finanças. Já outros tiveram trajetórias em multinacionais, bancos ou startups tech antes de voltar ao interior. A maneira de enxergar o trabalho agora prioriza precisão, uso de tecnologias e decisões guiadas por números.

Por outro lado, manter o passo certo nessa mudança não é simples. Tudo aquilo que o fundador aprendeu na prática ainda pesa muito. Negociar, lidar com pressão, manter a equipe rendendo – saber quando agir ou esperar – poucos cursos ensinam isso direito.

O que tem funcionado de verdade vem de misturar o jeito antigo com o novo - quem já viveu o dia a dia do negócio junto com quem pensa os passos seguintes.

Começa a ficar claro para o setor. Quem opera com equipes mais estruturadas consegue financiamento em termos vantajosos, chama atenção de parceiros com menos esforço, enfrenta desconfianças menores. Traduzindo: regras internas e plano para futuro agora mexem no preço que se paga por uma empresa.

Nos próximos anos, essa direção ganha força. Enquanto isso, o agronegócio do Brasil passa por uma mudança visível: reúne-se mais, organiza-se melhor. Fundos entram com frequência maior, assim como gestoras, escritórios familiares e capital externo - tudo isso pede modelos estáveis, longe de depender só de uma pessoa.

Pode ser que, daqui alguns anos, a troca de geração no campo já não pareça só um problema particular dessas famílias. Começará a ganhar espaço entre os assuntos mais importantes do setor agropecuário no Brasil - principalmente onde houver planos de aumentar produção, buscar investimento ou manter o negócio vivo por muito tempo.

Fim da linha: passar o bastão no campo agora tem cara de negócio. Não se trata mais só de receber algo dos pais, mas manter a operação viva, segurar o patrimônio junto e saber mudar com os tempos e tudo isso num ambiente que exige cada vez mais competência técnica.

Por Gabriel Fernando Pesciallo, CEO da RE/MAX Agro.

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