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Trave o câmbio antes das convenções partidárias

Por Arlélio Leite dos Santos

15:30

Trave o câmbio antes das convenções partidárias
Estamos em um período do calendário de 2026 que vale mais para a margem do produtor rural do que qualquer relatório bem feito de safra: o período das convenções partidárias, entre a segunda quinzena de julho e a primeira de agosto, quando as chapas presidenciais serão definidas e o mercado de câmbio começará a precificar nomes de candidatos aprovados em vez de hipóteses. A partir dali, o preço do dólar deixa de ser uma variável econômica com ruido politico e vira uma variável politica com fundamento econômico. Quem tem receita ou custo em dólar e ainda não decidiu o que fazer com essa exposição esta tomando, por omissão e descuido, consciente ou não, a maior posição especulativa da sua safra.

A tese, em uma frase: o custo de travar câmbio hoje é o premio de seguro mais barato do semestre, e o produtor que não decidir agora estará terceirizando sua margem para o resultado de uma eleição cujas consequências econômicas ninguém tem a mínima ideia e que economistas não conseguem prever. Este texto não recomenda compra ou venda de nenhum ativo. Recomenda uma decisão responsável de gestão: a de escolher conscientemente qual risco carregar, em vez de carrega-lo por inercia e depois reclamar do resultado.

Seguem cenários, com números e datas de referência. As projeções de mercado e minhas estimativas pessoais situam o dólar num intervalo amplo conforme o desfecho eleitoral: intervalo entre R$ 4,80 e R$ 5,40 com o suporte na região de R$ 5,00 a R$ 5,20 considerando um cenário percebido como fiscalmente ancorado. Já se considerarmos um cenário alternativo adverso (desancoragem fiscal) o modelo estima patamares muito piores para o câmbio com valores próximos ou superiores a R$ 6,00 neste cenário oposto catastrófico. O terceiro trimestre certamente será o pico de estresse cambial do ano oriundo do ciclo eleitoral (com Trump presidente temos outras variáveis soltas externamente que podem trazer surpresas após a eleição brasileira)

De outro lado de forma simultânea temos a Selic, mantida em 15% no inicio do ano, com uma trajetória projetada de queda incerta, com mercado estimando o encerramento de 2026 entre 13,25% e 14,00%. Esse segundo numero importa tanto quanto o primeiro: o diferencial de juros internos no Brasil e o diferencial de taxas entre SELIC brasileira e a taxa básica do FED americano e de outros BCs do mundo é o que remunera quem carrega real e segura o câmbio via fluxo ou carry trade global; quando o diferencial cai, um dos esteios do fortalecimento recente do real enfraquece exatamente no trimestre de maior ruido politico. As duas curvas se cruzam no pior ponto possível para quem esta vendido em previsibilidade.

O mecanismo que o produtor conhece mal e paga caro. A renda do campo brasileiro e estruturalmente dolarizada nas duas pontas: a soja, o açúcar, o café, o algodão e a proteína exportável são precificados em dólar; o fertilizante, o defensivo e parte das maquinas também. Isso cria a ilusão confortável do hedge natural, a ideia de que as duas pontas se compensam. A compensação existe, mas é sempre parcial e, sobretudo, defasada: o insumo da safra 2026/27 se compra num semestre anterior, e a produção se vende em outro no futuro. Entre a compra e a venda existe exatamente a janela eleitoral. O produtor não esta protegido pela dolarização dupla; esta exposto ao descasamento de calendário entre elas, e o calendário de 2026 colocou a eleição no meio do descasamento.

A historia recente não é amostra estatística, mas sim um grande e sonoro aviso: os ciclos eleitorais brasileiros de maior incerteza produziram movimentos cambiais violentos em janelas curtas. O ponto não e prever a repetição. O ponto e que o custo de se proteger contra ela é conhecido e pagável hoje, e o custo de sofre-la é desconhecido e potencialmente proibitivo no futuro. Mas o que isto significa, em termos de decisão, para cada leitor.

Para o produtor de grãos e fibras: a pergunta operacional é dupla. Quanto da receita esperada da safra ja esta fixada em preço e câmbio, e quanto do custo dolarizado da próxima safra já esta travado ou comprado? Os instrumentos existem e são acessíveis em qualquer mesa bancaria ou de trading: contratos a termo de moeda, opções, fixações em dólar com conversão posterior, antecipação física de insumo, instrumentos diversos de balcão. A escolha entre eles é técnica, individual e customizada para as condições de risco e credito de cada um e deve ser feita com assessoria própria. A escolha de não escolher, de ir de peito aberto, sem coleta protetor para levar um possível balaço do câmbio é a única indefensável.

Para a usina e o exportador de proteína: a receita em dólar contra custo majoritariamente em real cria a exposição inversa, e a tentação simétrica: deixar correr, porque dólar alto ajuda. Deixar correr sem pensar é sempre uma aposta travestida de "oportunidade" é aposta com o caixa da empresa e tem nome técnico em governança. A politica de hedge cambial deve estar escrita, aprovada em conselho e parametrizada antes de agosto, porque depois das convenções o preço da proteção embute o pânico e seguro comprado durante o incêndio custa o prédio.

Para o comprador de insumos da safra 2026/27: o fertilizante que será usado no plantio de setembro tem preço internacional e câmbio como componentes. A janela de compra antes do pico de estresse projetado para o terceiro trimestre e uma decisão de aquisição, não de especulação. Empresas que compram cedo com cambio conhecido podem errar o preço; empresas que esperam o melhor momento costumam encontra-lo no retrovisor.

Um esclarecimento técnico que evita o erro oposto: travar não significa travar tudo. Proteção integral elimina o risco cambial e cria outro, o de assistir o mercado andar contra a trava com cem por cento da posição travada, o que em operação familiar costuma gerar a pior consequência de todas: o abandono definitivo da disciplina de hedge depois da primeira experiencia frustrante. A pratica madura trabalha com faixas: uma parcela mínima protegida que garante a sobrevivência da operação no pior cenário, uma parcela gerenciada conforme o mercado, e uma parcela aberta que participa do movimento favorável. Os percentuais são decisão de cada balanço e de cada apetite, com assessoria própria. O principio é universal: o objetivo do hedge não é acertar o câmbio, é tirar o câmbio da lista de coisas capazes de quebrar a operação.

Uma palavra sobre o que este texto não diz. Não diz que o dólar vai subir; o intervalo entre R$ 4,80 e R$ 6,00 (ou mais) é exatamente a confissão de que ninguém sabe o que vai acontecer. Não diz qual instrumento usar nem em que proporção; isso depende de balanço, fluxo e apetite de cada operação, e exige assessoria própria. Diz apenas o que trinta anos de balcão ensinam: risco cambial em ano eleitoral não se prevê. Administra-se. E administrar tem hora, e a hora e antes de agosto. Agora o fecho sem retorica: a eleição de outubro vai produzir um vencedor, e o câmbio de novembro vai produzir vencedores e perdedores. Os primeiros serão definidos nas urnas. Os segundos estão sendo definidos agora, nas mesas em que se decide travar ou esperar. Escolha na mesa, na sua empresa, no ambiente da sua operação antes que a urna escolha por você. Se você for escolhido pela urna não reclame depois dos ganhadores da eleição eles muito possivelmente não o conhecem pessoalmente e não poderão ser culpados a posterior de sua especulação com base eleitoral a priori.

Por Arlélio Leite dos Santos, sócio-Fundador, vice-Presidente e líder acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (Abramagro).

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