Os democratas conquistaram as duas casas do Congresso nos Estados Unidos. Que o partido do presidente perca terreno numa eleição de meio de mandato é a regra, não a exceção. O que torna este resultado incomum é onde a derrota aconteceu: em estados que Trump venceu com folga há apenas dois anos.Com a apuração ainda em andamento, os democratas somam 228 cadeiras na Câmara (+25), contra 139 dos republicanos (−29), segundo a AP. A maioria exige 218. Desde a Segunda Guerra, o partido do presidente perde em média cerca de 25 cadeiras na Câmara nas eleições de meio de mandato, e os republicanos já perderam mais que isso.O Senado mostra melhor a natureza da onda. Os democratas chegam a 54 cadeiras (+7) contra 44, e todos os sete ganhos vieram de cadeiras republicanas: Maine, Carolina do Norte, Ohio, Iowa, Texas, Kansas e Carolina do Sul. Alasca e Mississippi, também em mãos republicanas, ainda não têm resultado. Os democratas não perderam nenhuma das cadeiras que defendiam. Seis desses sete estados foram vencidos por Trump em 2024, cinco deles por mais de dez pontos.Os marcos se acumulam. No Texas, James Talarico derrotou Ken Paxton e se tornou o primeiro senador democrata eleito pelo estado desde 1988, e Gina Hinojosa venceu Greg Abbott, encerrando mais de três décadas de governos republicanos. O Kansas elegeu seu primeiro senador democrata desde 1932. Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms se tornou a primeira mulher negra eleita governadora no país. Uma derrota em estados onde o presidente venceu com tanta folga não se explica só pela polarização. Nossa hipótese é que ela começa no orçamento doméstico. Em setembro, a inflação acumulada em doze meses chegou a 3,7%, contra uma alta de 3,0% nos salários nominais: uma queda de 0,7% no salário real por hora. Um ano antes, os salários reais ainda cresciam 0,8%, ou seja, a piora foi de 1,5 ponto percentual em doze meses. E, embora a economia continue crescendo em ritmo saudável, a renda disponível real está cerca de [2%/3%] abaixo da sua tendência de longo prazo.Para quem ganha menos, o quadro é pior. O índice da DA Economics para o “americano humilde” reorganiza os pesos em torno do que pesa no orçamento dessas famílias: aluguel (39%), alimentação em casa (18%), transporte público (17%), energia (14%), saúde (8%) e vestuário (4%). Por essa cesta, a inflação em doze meses está em 5,26%, contra 3,70% do CPI oficial. A diferença se abriu porque justamente os itens que dominam essa cesta, energia e moradia, foram os que mais subiram.A guerra contra o Irã transformou esse desconforto em choque. A gasolina subiu 34,2% em doze meses e o óleo combustível, mais de 70%. Segundo séries compiladas pela Bloomberg, a aprovação líquida de Trump na política externa caiu para −28,6 pontos, contra uma média de −17,3 desde dezembro de 2025. Na economia, caiu para −31,8, contra uma média de −22,5. As duas séries pioraram de forma contínua ao longo do ano e estão nas mínimas do mandato. Trump voltou à Casa Branca prometendo combater a inflação e evitar novas guerras, e as urnas cobraram as duas promessas.
A conta chega à IA
A primeira reação dos mercados não foi um alívio fiscal, e sim uma venda concentrada no complexo de IA. Democratas e medidas votadas nas urnas contra novos data centers venceram em vários estados, e investidores passaram a temer que os novos eleitos, do nível local ao federal, tentem desacelerar a expansão desses projetos. O índice de semicondutores, que vinha corrigindo desde o pico de outubro, acelerou a queda e está cerca de 20% abaixo do nível de agosto.O risco é concreto. Texas e Geórgia estão entre os principais polos de data centers, e os governos estaduais controlam licenciamento, incentivos fiscais e custo de energia (no Texas, inclusive as regras do operador da rede elétrica, o ERCOT). Para um ciclo de investimento intensivo em capital e financiado em boa parte com crédito, mais incerteza regulatória significa cronogramas mais longos e financiamento mais caro.No campo fiscal, a partir de janeiro, com o governo dividido, novos cortes de impostos ou aumentos de gastos vão depender de negociação com um Congresso de oposição. Isso indica menos impulso fiscal na margem, mas não resolve o desequilíbrio estrutural das contas públicas, e aumenta o risco de impasses no orçamento e de paralisações do governo. E há uma ressalva importante: as duas fontes do choque de preços recente, as tarifas e a guerra, continuam nas mãos do presidente, fora do alcance do Congresso.
E o Fed?
A questão central será distinguir uma redução saudável do prêmio fiscal americano de uma queda dos juros causada por expectativas de crescimento mais fraco. Por enquanto, o mercado aponta para a segunda hipótese. O de-risking no complexo de IA pesa sobre um dos principais motores recentes do PIB, e os juros de 10 anos já estão 47 pontos-base abaixo da máxima recente.Isso leva à pergunta mais interessante do fim do ano: como o Federal Reserve vai reagir? A curva de OIS precifica 67% de probabilidade de alta de juros em dezembro, ante 90% na semana passada. Se os democratas conseguirem pressionar o Executivo por uma desescalada da guerra, a combinação de crescimento menor com choque inflacionário menor pode encerrar o ciclo de aperto do Fed mais cedo do que o mercado espera.Os americanos não votaram só contra a inflação de hoje. Votaram depois de anos de poder de compra corroído, num ambiente em que a promessa de recuperação ainda não tinha chegado ao orçamento doméstico, e em que a guerra pôs um novo choque de preços justamente sobre o essencial. Puniram o governo até em estados onde ele parecia intocável. O mercado entendeu rápido que a conta pode chegar também à IA e, talvez, ao Fed.Por Alex Lima, fundador e estrategista-chefe de conteúdo da DA Economics.