Semicondutores se tornam peça central nas inovações do agronegócio brasileiro
No entanto, elevada dependência externa desses produtos e tensões geopolíticas expõem riscos às cadeias produtivas
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Nas últimas décadas, o agronegócio brasileiro passou por uma transformação tecnológica que elevou significativamente a produtividade da agricultura e da pecuária. Nesse processo, os semicondutores se consolidaram como componentes tão essenciais que uma eventual escassez desses chipspoderia gerar impactos relevantes sobre toda a cadeia produtiva da agropecuária nacional.Nas propriedades rurais, os semicondutores estão presentes nos mais diversos equipamentos: medidores de umidade e pressão, chips de rastreamento animal e sistemas de agricultura de precisão dependem diretamente desses componentes. Sem esses dispositivos, grande parte das tecnologias que sustentam o ganho de eficiência no campo simplesmente não existiria.Segundo Guilherme Camboim, diretor de Conhecimento para Inovação, Ciência e Tecnologia da Secretaria de Inovação do Rio Grande do Sul, “as aplicações de chips no agro vão de biossensores à fabricação de maquinário agrícola e outros veículos, que podem ter mais de mil semicondutores por unidade”.Além de máquinas como tratores e colheitadeiras, esses dispositivos também são fundamentais para equipamentos de monitoramento climático e coleta de dados no campo, permitindo o acompanhamento do desenvolvimento das lavouras em tempo real. No caso da agricultura de precisão, esses componentes viabilizam o uso de satélites, drones, servidores e sistemas de análise de dados, essenciais para o mapeamento de áreas e gestão de pegadas carbono, explica Camboim.Em um setor cada vez mais orientado por dados e tecnologia, a disponibilidade de chipstornou-se um fator estratégico para a soberania nacional do país, que tem como um de seus pilares econômicos a produção agrícola. A limitação no acesso a esses insumos pode desacelerar a adoção de novas tecnologias, reduzir a eficiência produtiva e elevar custos operacionais.
Cadeia global e riscos geopolíticos
Apesar da relevância estratégica, a indústria de semicondutores apresenta uma cadeia produtiva altamente globalizada e fragmentada, o que gera fragilidade para o setor em tempos de crises geopolíticas. Os principais países produtores concentram as etapas iniciais da fabricação, enquanto o Brasil atua majoritariamente nas fases finais, de menor custo. “Alguns países dominam afabricação dos chips mais avançados, enquanto o Brasil se concentra na testagem e encapsulamento, um processo bem menos complexo”, pontua Camboim. O Brasil ainda depende fortemente da importação de semicondutores para atender à demanda interna. De acordo com especialistas, cerca de 90% dos chips utilizados no país são importados, o que expõe setores estratégicos — incluindo o agronegócio — a riscos de desabastecimento.Dados da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi) indicam que a produção nacional está concentrada principalmente em memórias utilizadas em dispositivos eletrônicos. A capacidade atual gira em torno de 200 milhões de chips encapsulados por ano, o equivalente a somente 8% da demanda interna.Atualmente, os principais polos produtores estão em Taiwan, Chinae Coreia do Sul, com participação relevante também dos Estados Unidos e dos Países Baixos. Segundo Daniel Souza Correa, pesquisador da Embrapa Instrumentação, há uma disputa global por domínio tecnológico. “As principais potências estão em uma corrida para controlar a cadeia de semicondutores”, afirma.Esse cenário torna o setor vulnerável à episódios de gargalos logísticos. Conflitos internacionais, como as recentes tensões no Oriente Médio, podem afetar rotas estratégicas e comprometer o abastecimento global de insumos essenciais para a indústria de chips. “Guerras são um péssimo negócio para o mercado de semicondutores”, diz o pesquisador da Embrapa.
Brasil busca reposicionamento no setor
Diante desse cenário, o Brasil tem buscado ampliar sua participação na cadeia global de semicondutores. Nos últimos anos, foram implementadas políticas públicas voltadas à reestruturação do setor.Entre as iniciativas, destaca-se a reformulação do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), retomada em 2023, com foco na produção de componentes eletrônicos estratégicos. No âmbito estadual, programas como o SemicondutoresRSbuscam fomentar startups locais e atrair novos investimentos internacionais.Segundo Camboim, a estratégia envolve a criação de um ambiente favorável à inovação e à instalação de novas fábricas no país. Paralelamente, o governo federal também tem ampliado o interesse na pauta de minerais críticos e terras raras, insumos fundamentais para a produção de chips.De acordo com Correa, outras iniciativas, como projetos acadêmicos voltados à fabricação de semicondutores na Universidade de São Paulo (USP), também vêm ganhando relevância. A criação de novas unidades de pesquisa e produção no Brasil é vista como um passo importante para reduzir a dependência do fornecimento externo de chips, marcado pela volatilidade da política internacional.