Boi gordo atrai novos investidores e reforça protagonismo do Brasil
Painel no 6º Fórum Pecuária Brasil destaca avanço da liquidez do BGI e maior presença estrangeira no mercado nacional
16:38
Foto: DATAGRO
O mercado futuro do boi gordo brasileiro passa por uma transformação que vai além do aumento do volume negociado. A diversificação do perfil dos investidores, com maior participação de capital estrangeiro, instituições financeiras e agentes que não estão diretamente ligados à produção, amplia a liquidez dos contratos e acompanha a crescente relevância do Brasil no mercado mundial de proteína animal.Essa foi uma das principais discussões do painel “Mercado Futuro do Boi – a retomada de liquidez do contrato BGI na B3”, realizado nesta quarta-feira (16), em São Paulo (SP), durante o 6º Fórum Pecuária Brasil, organizado pela DATAGRO. O debate foi moderado por Guilherme Nastari, diretor da DATAGRO, com participação de Camila Faria de Castro, coordenadora de produtos da B3; Gustavo Ricotta, broker de commodities agrícolas da Genial Investimentos; Breno Maia, commodities broker na Necton Investimentos; e Henrique Aguiar, head de private/comercial na Nova Futura Investimentos.Na abertura, Nastari relacionou o desenvolvimento do mercado financeiro ligado ao agronegócio à posição ocupada pelo Brasil na produção mundial. “O Brasil é um dos países mais eficientes na produção de comida e energia”, afirmou. De acordo com o diretor da consultoria, o país se diferencia pela capacidade de produzir ambos em escala continental.Nastari traçou ainda um paralelo com o mercado de açúcar. “Eu sou um analista de açúcar e álcool e vendemos açúcar em Nova York. O Brasil tem relevância para vender esses mesmos contratos aqui”, disse. Para o executivo, desenvolver instrumentos financeiros localmente significa aproveitar a própria dimensão do agronegócio brasileiro. “Vamos trabalhar em projetos que ajudem o país.”
BGI ganha investidores além da cadeia pecuária
Na apresentação que abriu o painel, Camila mostrou que o contrato futuro de boi gordo, negociado sob o código BGI, vem atraindo diferentes perfis de participantes.Os dados apresentados pela executiva mostram uma mudança particularmente relevante na presença de investidores não residentes. A participação desse grupo no volume negociado passou de 8,4% em 2020 para 28,5% em 2026. No mesmo período, a participação das pessoas físicas passou de 44,9% para 40,4%.Em 2026, além dos 40,4% das pessoas físicas e 28,5% dos não residentes, outros participantes representam 18,3% do volume, instituições financeiras respondem por 7,1% e investidores institucionais, por 5,6%, conforme os números apresentados pela representante da B3.“Vemos que o perfil de cliente muda muito. Passa pela pessoa física, como os pecuaristas e frigoríficos, depois pelas instituições financeiras e não residentes, como estrangeiros que olham para nosso contrato e fazem uma gestão de risco com o preço da arroba do Brasil”, explicou Camila.A entrada de participantes com diferentes objetivos é relevante porque amplia a quantidade de compradores e vendedores no mercado. Ao mesmo tempo que pecuaristas e empresas da cadeia podem recorrer aos contratos para proteção contra oscilações, investidores podem assumir posições com outras estratégias.Gustavo Ricotta, destacou justamente essa mudança, ao destacar que o mercado antes tinha presença principalmente de pecuaristas passou a despertar o interesse de outros participantes em busca de oportunidades de investimento.Para ele, a presença do especulador também exerce uma função na formação de um mercado mais líquido. “Quanto mais gente de mercado para fazer edge, para fazer a margem, só tem como aumentar a margem para o mercado futuro. O especulador é bom para o mercado para trazer liquidez”, afirmou.O próximo movimento, segundo o broker, é aproximar as duas pontas. “Agora o plano é trazer o investidor do agro para o mercado financeiro e adaptar na sua produção”, disse.
Proteção de margem ganha espaço
A função dos derivativos como instrumento de gestão de risco permeou o debate. Camila ressaltou que a volatilidade inerente às commodities torna difícil prever com antecedência o preço recebido pelo produtor.“O boi gordo, assim como outras commodities, tem mudanças de valor. É quase impossível dizer daqui um tempo quanto vai ser esse preço, tem muitas variações que podem afetar”, disse ela, salientando que uma ferramenta para definir essa margem para a venda em uma data futura “é muito importante”. O BGI tem como base São Paulo e é cotado em reais por arroba de 15 quilos. Cada contrato corresponde a 330 arrobas líquidas, aproximadamente 20 animais, com vencimentos em todos os meses do ano, segundo as especificações apresentadas pela B3.Outro número levado ao painel ajuda a dimensionar o mercado pecuário ao qual o contrato está ligado. A apresentação apontou 11,85 milhões de toneladas de abate nacional em 2025 e informou que 95% do volume total negociado naquele ano passou pela B3.Ricotta afirmou que o produtor precisa relacionar a proteção financeira ao custo efetivo de produção. Na avaliação do broker, seguro e prêmio permitem estabelecer um risco controlado e podem funcionar como porta de entrada para quem ainda não utiliza esses instrumentos. “A gente conversa o dia inteiro com um pecuarista de várias partes do Brasil”, disse.Henrique Aguiar reforçou que o objetivo da proteção não deve ser simplesmente acertar qual será a cotação futura. “O produtor não vive do preço, e sim da margem. Travar esse preço e ter essa previsibilidade é uma parte muito importante do negócio”, afirmou.
Capital estrangeiro olha para o boi brasileiro
Para Breno Maia, o aumento das negociações começa a refletir o amadurecimento dos instrumentos de referência disponíveis no Brasil.“Começamos a colher os frutos da seriedade do indicador DATAGRO, olhando o volume de crescimento no dia a dia que vem acontecendo”, afirmou. De acordo com Maia, pecuaristas e participantes industriais respondem por um número expressivo das operações.O broker também defendeu que o trabalho de disseminação das informações sobre o mercado não fique restrito ao produtor brasileiro. Para ele, a Bolsa também exerce um papel na apresentação da pecuária nacional ao capital internacional.“Além de levar a informação para o pecuarista no Brasil, também é importante levar a seriedade da pecuária nacional para os investidores mundiais”, disse, associando esse movimento à posição brasileira entre os principais atores da produção e da exportação mundial de carne bovina.
Mais produtores podem ampliar liquidez
Mesmo com a diversificação do perfil dos participantes e o crescimento dos investidores estrangeiros, a B3 vê espaço para aumentar a presença do próprio pecuarista. Conforme explicado por Camila, ampliar essa base, hoje inserida na parcela de pessoas físicas, contribuiria para aumentar a liquidez dos contratos.“Para desenvolver um indicador precisa avaliar com a indústria, com os participantes, para que vocês tragam para a gente o que poderíamos fazer de diferente para disponibilizar novos produtos”, afirmou.Nastari também levantou a possibilidade de desenvolvimento de novos índices em parceria com a B3. A DATAGRO vem trabalhando na coleta de informações diretamente com pecuaristas por meio do Indicador do Boi. Saiba mais aqui.