Pesquisa identifica origem da tainha por assinatura química
Estudo da Embrapa e parceiros usou ressonância magnética para diferenciar peixes de três regiões brasileiras
12:00
Fonte: Wenderson Araujo/Trilux (CNA)
Pesquisadores da Embrapa e de instituições parceiras identificaram uma “impressão digital química” capaz de indicar a origem geográfica da tainha brasileira (Mugil liza) a partir de pequenas moléculas presentes no músculo do peixe. O estudo analisou exemplares da Lagoa de Araruama e da Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro e do litoral de Santa Catarina, e apontou diferenças químicas associadas às condições ambientais, salinidade, metabolismo e alimentação dos animais.Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram a espectroscopia por Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (RMN de ¹H) com a metabolômica, área que analisa os metabólitos produzidos pelo organismo. A técnica permitiu identificar 23 compostos químicos naturais no músculo das tainhas, entre eles lactato, creatina, taurina e aminoácidos relacionados ao metabolismo. “O grande diferencial desse estudo é demonstrar que é possível identificar a origem geográfica da tainha por meio de um perfil metabólico altamente específico, que atua como uma assinatura química do pescado. É uma ferramenta inovadora para autenticação, rastreabilidade e agregação de valor”, destaca a pesquisadora Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ).As amostras foram coletadas em diferentes épocas do ano e analisadas em equipamento de RMN de alta resolução. Segundo o pesquisador Luiz Colnago, da Embrapa Instrumentação (SP), a técnica possibilitou identificar compostos relacionados à alimentação, ao metabolismo e às condições ambientais enfrentadas pelos peixes. “Diferentemente de métodos convencionais, que muitas vezes não conseguem fornecer informações detalhadas sobre as alterações bioquímicas que ocorrem no pescado, a RMN oferece uma análise rápida, abrangente e não destrutiva da amostra. O resultado é um perfil metabólico detalhado que funciona como um ‘código de barras químico’, capaz de diferenciar peixes de regiões distintas”, afirma. A análise estatística mostrou separação entre os grupos, especialmente pelas concentrações de lactato, histidina, treonina, fenilalanina e ornitina. O tamanho dos peixes e a sazonalidade tiveram pouca influência sobre o perfil metabólico geral.A Lagoa de Araruama apresentou uma assinatura química particularmente característica. Considerada a maior lagoa hipersalina permanente do mundo, ela tem salinidade média de 52%, condição que influencia o metabolismo das tainhas e provoca adaptações relacionadas à osmorregulação, ao metabolismo energético e ao uso de aminoácidos. “O ambiente deixa marcas bioquímicas detectáveis nos peixes. A Lagoa de Araruama produz uma assinatura metabólica muito característica, associada à salinidade extrema e às adaptações fisiológicas da espécie”, ressalta Fogaça.Segundo os pesquisadores, a tecnologia pode contribuir para rastrear a procedência do pescado, combater fraudes comerciais, substituição de espécies e falsificação de origem, além de apoiar sistemas de certificação. O estudo servirá de base técnica para o pedido de Indicação Geográfica, na modalidade Denominação de Origem, da tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A pesquisa também utilizou ferramentas de inteligência artificial na análise e organização dos resultados.