Mesmo com El Niño, projeto orçamentário prevê incerteza para seguro rural em 2027, diz FPA
Proposta condiciona liberação de recursos e colegiado alerta para falta de previsibilidade diante de aumento do endividamento
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O governo federal encaminhou na última segunda-feira (31) o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2027. Na proposta, o Executivo destina R$ 1,2 bilhão para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). No entanto, 73,5% dos recursos estão vinculados a fontes condicionadas, que na prática, dependem de vontade política para serem executadas.Uma análise do PLOA 2027 indica uma diferenciação na origem dos recursos destinados ao Seguro Rural. Do montante de R$ 1,2 bilhão, R$ 318,5 milhões tem como fonte recursos livres, ou seja, receitas ordinárias que vem da arrecadação ordinária dos impostos. O restante, R$ 881,5 milhões, tem como origem os recursos condicionados à Regra de Ouro. Essa receita não é executada de forma automática. Para que ela ocorra depende de crédito suplementar por meio de aprovação no Congresso Nacional ou da substituição de fonte. Uma terceira possibilidade é caso haja uma arrecadação extraordinária, isto é, arrecadar mais dinheiro do que o esperado.O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), criticou a incerteza que o arranjo orçamentário cria. “Não dá para termos uma agropecuária pujante, competente e forte, como temos hoje, sem qualquer tipo de segurança e com um seguro pífio, como o que temos atualmente”, afirmou.A manobra feita pelo governo incrementa mais um degrau de imprevisibilidade já que a maior parte dos recursos do PSR não está garantida. Na leitura da vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), esse movimento agrava o cenário do setor.“A falta de previsibilidade pode trazer ainda mais danos para toda a agropecuária, porque o produtor já está endividado e o risco climático aumentou com o Super El Niño. Isso é preocupante, sobretudo porque risco e crédito caminham juntos: quanto maior o risco, maiores tendem a ser os juros finais”, destacou.Parcela livre equivale a 13,4% do valor para recuperar níveis de 2021Uma simulação do Centro de Estudos em Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Agro) mostra que o valor vindo de recursos livres corresponde apenas a 13,4% do montante necessário para recuperar os patamares do Seguro Rural em 2021.A estimativa aponta que, com R$ 2,37 bilhões, seria possível assegurar uma área de 13,45 milhões de hectares e beneficiar 209 mil apólices, alcance semelhante ao de 2021 — ano em que o Seguro Rural atingiu seu melhor desempenho em abrangência. Com a liberação total dos recursos previstos no PLOA 2027, a cobertura chegaria a apenas 50,6% do patamar registrado em 2021.A instituição de pesquisa também indicou que o governo vem dando mais atenção para mecanismos posteriores às perdas do que para prevenção. Um dos indicativos é o volume previsto para o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), que é cinco vezes maior do que todo o PSR.“É muito mais racional apoiar seguro antes da perda do que renegociar dívida depois da quebra. Quando o PSR é subfinanciado, o risco não desaparece. Ele volta como inadimplência, renegociação, Proagro, socorro emergencial e pressão sobre o orçamento público”, lembrou o coordenador do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV-Agro, Pedro Loyola.A diferenciação nas fontes de recursos também remete ao histórico recente ruim. Desde 2025, os recursos aprovados pelo PSR vêm sendo bloqueados e contingenciados. No ano passado, de R$ 1,06 bilhão aprovados na LOA 2025, apenas R$ 581 milhões foram executados. Neste ano, o orçamento era de R$ 1,01 bilhão, mas cortes e bloqueios reduziram a disponibilidade para R$ 473,8 milhões.