Campeão mundial de Fórmula E destacou o potencial brasileiro dos biocombustíveis e abordou inteligência artificial, inovação e mobilidade
A transição energética não será conduzida por uma única tecnologia, uma vez que a eletrificação, etanol, biodiesel e outras alternativas terão papéis complementares de acordo com as características locais de cada mercado. Essa foi uma das principais mensagens de Lucas di Grassi, piloto profissional, campeão mundial de Fórmula E e piloto da Lola Yamaha ABT, durante o segundo dia do GAFFFF – Global Agribusiness Festival, nesta sexta-feira (2).Di Grassi participou do painel “Transição Energética e o Futuro da Mobilidade", moderado por Guilherme Nastari, diretor da DATAGRO. A apresentação conectou a transformação do automobilismo às mudanças que inteligência artificial, eletrificação e novas fontes de energia já provocam em diferentes setores da economia.“Eu vi uma transição de tecnologias nos últimos 20 anos maior do que nos últimos 100”, afirmou Di Grassi. Segundo o piloto, quando iniciou sua trajetória no automobilismo, praticamente não havia tecnologias elétricas nas competições, enquanto atualmente até a Fórmula 1 utiliza motores híbridos.
Das pistas para as ruas
Di Grassi ressaltou o papel histórico do automobilismo como laboratório para tecnologias que posteriormente chegam aos veículos comerciais. De acordo com o piloto, soluções como turbo, freios a disco e até o espelho retrovisor passaram pelas competições antes de se difundirem nos carros de rua.“O automobilismo é ligado com as tecnologias porque o que acontece nas pistas é convertido para o carro de rua”, explicou. Para o piloto, a modalidade representa uma combinação entre capacidade humana e desenvolvimento tecnológico.Essa relação ganhou uma nova dimensão com a inteligência artificial. Di Grassi afirmou que já discutia aplicações de IA desde 2018 e relatou sua experiência utilizando a tecnologia como ferramenta de treinamento e aprendizado. Durante a apresentação, também mostrou um veículo em atividade sem piloto.Apesar da evolução das máquinas, ele ressaltou que a participação humana continua necessária, inclusive diante de sistemas capazes de superar pessoas em determinadas tarefas.Inteligência artificial e a cultura do erro
A apresentação levou a discussão para além da mobilidade. Di Grassi abordou o potencial das simulações baseadas em IA inclusive para atividades como o plantio, mostrando como ambientes virtuais podem permitir testes em grande escala antes da tomada de decisões no mundo físico.Um dos conceitos apresentados foi o de “gêmeo virtual”, ferramenta que pode testar milhões de cenários e acelerar o processo de aprendizagem. A lógica, conforme descrito pela apresentação, é colocar a tecnologia a serviço da capacidade humana de resolver problemas.Nesse processo, Di Grassi defendeu que empresas criem espaço para experimentação. Ele diferenciou o erro que ocorre na fronteira do conhecimento, capaz de gerar novas informações, da falha na execução de um processo que já é conhecido e otimizado.“Uma cultura de erro dentro de uma empresa é importante. É com ele que coletamos a informação, modificamos o processo e aprendemos”, afirmou.Brasil pode ampliar papel do etanol na transição energética
A discussão sobre mobilidade também abriu espaço para o potencial brasileiro na descarbonização dos transportes. Guilherme Nastari observou que diferentes regiões terão desafios próprios e, consequentemente, poderão adotar soluções distintas, como veículos elétricos ou híbridos flex.Para Di Grassi, a eletrificação traz benefícios principalmente para a qualidade do ar nas cidades, uma vez que os veículos elétricos não geram emissões. Entretanto, ele destacou que o contexto brasileiro favorece uma participação maior dos biocombustíveis.“A nível Brasil, precisamos usar etanol, muito mais do que usamos hoje. Eu acredito que o etanol de milho e de cana são super importantes para a transição energética”, afirmou.Na avaliação do piloto, essas alternativas não devem ser tratadas como adversárias dentro da transformação da matriz energética. “Não há uma competição entre o elétrico e o biodiesel, temos que unir os dois contra os combustíveis fósseis”, completou.Guilherme Nastari também chamou atenção para um desafio comercial do etanol: a fidelização do consumidor. De acordo com o diretor da DATAGRO, a escolha pelo combustível ainda está fortemente associada ao preço, indicando espaço para melhorar a comunicação de seus atributos ao público.Para Di Grassi, o avanço para uma mobilidade de menor impacto ambiental dependerá não apenas da evolução tecnológica, mas também das escolhas de consumo. “O caminho da transição de energia possibilita um ar mais limpo e consumo sustentável, mas isso depende muito do uso de cada um e do que o consumidor realmente precisa para a sua realidade”, concluiu.