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Como o preço do petróleo impacta algumas cadeias produtivas do agro brasileiro?

Entenda como as oscilações do petróleo influenciam custos, logística e rentabilidade no campo

15:15

Foto: Freepik
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O preço do petróleo exerce influência direta sobre diversos setores da economia mundial e o agronegócio brasileiro está entre os mais sensíveis a essas variações. Embora o combustível não seja um insumo agrícola, ele está presente em praticamente todas as etapas da produção rural, desde a fabricação de fertilizantes até o transporte da safra e o abastecimento das máquinas no campo.

Quando a cotação internacional do barril sobe, os reflexos costumam aparecer rapidamente nos custos do agronegócio. O aumento do diesel, fertilizantes, defensivos agrícolas e frete reduz a margem de lucro dos produtores e pode impactar os preços dos alimentos ao consumidor final.

Por outro lado, em momentos de queda no preço do petróleo, alguns custos tendem a diminuir, embora esse movimento nem sempre ocorra com a mesma velocidade devido a fatores como câmbio, tributação e dinâmica do mercado internacional.

Neste artigo, entenda como o petróleo influencia as principais cadeias produtivas do agro, quais são os setores mais afetados e de que maneira essas oscilações podem alterar a rentabilidade do produtor rural.

Relação entre petróleo e fertilizantes


A ligação entre fertilizantes e petróleo é uma das mais importantes dentro do agronegócio.

Grande parte dos fertilizantes nitrogenados utilizados na agricultura depende diretamente da indústria petroquímica. Produtos como ureia e nitrato de amônio utilizam gás natural como matéria-prima, combustível intimamente ligado ao mercado internacional de petróleo.

Embora o Brasil seja um dos maiores produtores agrícolas do mundo, ainda importa boa parte dos fertilizantes consumidos no país. Isso significa que as oscilações internacionais afetam diretamente os preços pagos pelos agricultores.

Quando o petróleo sobe, normalmente ocorre:

  • Aumento no custo de produção dos fertilizantes;

  • Elevação das despesas com transporte internacional;

  • Maior pressão sobre o preço final dos insumos.


Além disso, conflitos geopolíticos frequentemente elevam simultaneamente os preços do petróleo e dos fertilizantes, ampliando o impacto para o produtor rural.

Durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, houve forte alta tanto no barril de petróleo quanto nos fertilizantes, gerando preocupação em praticamente todas as cadeias produtivas do agro brasileiro.

O efeito é especialmente sentido em culturas altamente dependentes de adubação, como:

Nesses casos, pequenas variações no custo dos fertilizantes podem representar milhares de reais por safra.

Além do impacto financeiro, o aumento dos fertilizantes também pode levar produtores a reduzirem doses de aplicação, o que compromete produtividade e qualidade da produção.

Impacto no custo do frete


Outro fator diretamente relacionado ao preço do petróleo é o transporte da produção agrícola.

O Brasil possui uma matriz logística fortemente dependente do transporte rodoviário. Grande parte dos grãos, carnes, frutas, leite e demais produtos agrícolas percorre milhares de quilômetros em caminhões movidos a diesel. Assim, quando o petróleo sobe, normalmente ocorre aumento no valor do diesel agrícola, elevando imediatamente o custo do frete.

Esse impacto aparece em praticamente todas as etapas da cadeia:

  • Transporte de fertilizantes até as propriedades;

  • Entrega de sementes;

  • Distribuição de defensivos;

  • Escoamento da produção;

  • Transporte para portos;

  • Distribuição para supermercados e indústrias.


Em estados produtores como Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará, onde as distâncias até os portos podem superar 2 mil quilômetros, o peso do frete sobre os custos é ainda maior. Segundo especialistas em logística agrícola, o transporte representa parcela significativa do custo operacional em algumas culturas.

Quando há aumento no diesel, produtores podem enfrentar:

  • Redução da margem de lucro;

  • Aumento dos custos de comercialização;

  • Necessidade de renegociar contratos;

  • Menor competitividade internacional.


Além disso, empresas exportadoras também passam a enfrentar custos maiores para levar os produtos até os terminais portuários, reduzindo a eficiência logística brasileira.

Influência sobre defensivos agrícolas


Outro segmento bastante afetado é o dos defensivos agrícolas.

Grande parte dos herbicidas, inseticidas, fungicidas e reguladores de crescimento possui componentes derivados da indústria petroquímica. Além dos princípios ativos, embalagens plásticas, solventes e diversos insumos utilizados na fabricação desses produtos também dependem do petróleo.

Quando há aumento na cotação internacional, ocorre pressão sobre toda a cadeia industrial, o que impacta no bolso do agricultor, que pode pagar mais caro por produtos essenciais para o controle de pragas e doenças. O impacto é ainda maior porque muitos defensivos são importados. Nesse cenário, dois fatores costumam agir simultaneamente:

  • Alta internacional do petróleo;

  • Valorização do dólar.


Essa combinação pode elevar significativamente os custos do agronegócio. Culturas como soja, milho, café, frutas e hortaliças dependem de programas fitossanitários intensivos. Em anos de maior pressão de doenças, reduzir aplicações pode gerar perdas produtivas superiores ao próprio aumento do custo dos insumos. Por isso, o produtor precisa realizar planejamento financeiro, negociação antecipada e estratégias de compra para reduzir os efeitos da volatilidade internacional. Muitas cooperativas, inclusive, realizam compras coletivas justamente para minimizar o impacto dessas oscilações.

Petróleo e biocombustíveis


A relação entre petróleo e agro também ocorre no sentido inverso. Quando o barril apresenta forte valorização, os biocombustíveis tornam-se mais competitivos economicamente. No Brasil, essa relação é especialmente importante por causa do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e do milho, além do biodiesel obtido principalmente da soja. Se o petróleo sobe, os combustíveis fósseis tendem a ficar mais caros.

Com isso:

  • Aumenta a demanda por etanol;

  • Cresce o consumo de biodiesel;

  • Melhora a competitividade dos combustíveis renováveis.


Esse movimento pode beneficiar diretamente algumas cadeias produtivas do agro. No caso da cana-de-açúcar, preços elevados da gasolina costumam favorecer o consumo de etanol hidratado. Já o biodiesel impulsiona a demanda por óleo de soja, fortalecendo um dos principais mercados da agricultura brasileira.

Além disso, políticas públicas de mistura obrigatória de biodiesel ao diesel comum ampliam a importância do setor. Nos últimos anos, o Brasil tem elevado gradualmente os percentuais de mistura, fortalecendo toda a cadeia produtiva. Esse cenário cria oportunidades para:

  • Produtores rurais;

  • Cooperativas;

  • Usinas;

  • Indústrias de esmagamento de soja;

  • Empresas de energia renovável.


Efeitos na rentabilidade do produtor


No fim da cadeia, todos esses fatores acabam refletindo diretamente na rentabilidade do agricultor. O produtor rural precisa lidar simultaneamente com diversas variáveis que fogem ao seu controle:

  • Preço internacional do petróleo;

  • Cotação do dólar;

  • Custos dos fertilizantes;

  • Valor dos defensivos;

  • Preço do diesel;

  • Frete;

  • Clima;

  • Mercado internacional.


Quando vários desses fatores sobem ao mesmo tempo, a margem operacional diminui. Mesmo em anos de boa produtividade, o lucro pode ser reduzido pelo aumento dos custos. Por outro lado, produtores que utilizam gestão eficiente conseguem minimizar parte desses impactos. Entre as principais estratégias estão:

  • Compra antecipada de insumos;

  • Travamento de preços;

  • Planejamento financeiro;

  • Diversificação de culturas;

  • Investimento em agricultura de precisão;

  • Maior eficiência operacional.


A tecnologia também desempenha papel importante: máquinas mais econômicas, sistemas de monitoramento, softwares de gestão e agricultura digital ajudam a reduzir desperdícios de combustível, fertilizantes e defensivos.

Outra tendência crescente é o uso de fontes renováveis de energia dentro das propriedades, como sistemas fotovoltaicos e produção de biogás, reduzindo parcialmente a dependência dos derivados de petróleo. Além disso, cooperativas agrícolas vêm ampliando programas de compras coletivas, armazenagem estratégica e negociação antecipada de insumos para proteger os produtores das oscilações de mercado.

O petróleo continuará influenciando o futuro do agronegócio


Mesmo com o avanço das energias renováveis, da eletrificação de máquinas agrícolas e da expansão dos biocombustíveis, o petróleo continuará sendo um componente estratégico para o agronegócio por muitos anos. A dependência de combustíveis fósseis no transporte, a utilização de derivados na indústria química e a forte integração dos mercados globais mantêm essa relação estreita.

Para o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do planeta, acompanhar as oscilações do mercado internacional de petróleo tornou-se parte da gestão do negócio rural. Mudanças na oferta global, decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), tensões geopolíticas e variações cambiais podem alterar rapidamente os custos de produção e a competitividade das exportações.

Nesse contexto, investir em planejamento, inovação tecnológica, eficiência logística e uso racional de insumos é fundamental para reduzir a exposição às oscilações do mercado. Também ganham relevância práticas sustentáveis, como o fortalecimento dos biocombustíveis, a adoção de energia renovável nas propriedades e a melhoria da infraestrutura de transporte, capazes de tornar as cadeias produtivas mais resilientes.

Em um cenário de constantes mudanças, compreender como o preço do petróleo influencia os custos do agronegócio, a relação entre fertilizantes e petróleo, o impacto sobre o diesel agrícola e o funcionamento das diferentes cadeias produtivas do agro é essencial para produtores, investidores e todos os profissionais envolvidos no setor. Esse conhecimento permite tomar decisões mais estratégicas e contribuir para a sustentabilidade econômica de uma atividade fundamental para a segurança alimentar e para a economia brasileira.

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