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Como o agronegócio integra a produção de alimentos e energia?

Da cana ao milho e à soja, cadeias agroindustriais transformam matérias-primas em alimentos, combustíveis, eletricidade e coprodutos

16:05

Foto: Freepik
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A produção agropecuária brasileira está cada vez mais conectada ao setor de energia. Em diferentes cadeias, a mesma matéria-prima pode dar origem a alimentos, combustíveis, eletricidade, ração animal e outros produtos. Essa integração entre agronegócio e energia amplia as possibilidades de receita e melhora o aproveitamento dos recursos disponíveis.

No Brasil, a produção de alimentos e energia está especialmente ligada às cadeias de cana-de-açúcar, milho e soja. A cana produz açúcar, etanol de cana e eletricidade; o milho pode ser destinado à alimentação e à fabricação de etanol de milho, gerando DDGs utilizados na nutrição animal; enquanto a soja fornece óleo para o biodiesel e farelo para a produção de rações.

Esse modelo também ajuda a explicar a importância da bioenergia no Brasil e cria oportunidades para produtores, agroindústrias e investidores.

O que é a integração entre alimentos e energia no agro?


A integração ocorre quando matérias-primas agrícolas são direcionadas para diferentes finalidades dentro de uma mesma cadeia produtiva. Em vez de considerar resíduos e subprodutos como materiais sem valor, a indústria passa a utilizá-los para gerar novos produtos e receitas.

O milho é um exemplo. Além de alimentar animais e atender ao consumo humano, o cereal pode ser processado para produzir etanol. Durante esse processo, são gerados DDGs, que retornam à cadeia pecuária como ingrediente para rações.

Na soja, o esmagamento do grão gera óleo e farelo. O primeiro pode ser destinado à alimentação ou ao biodiesel, enquanto o segundo é amplamente utilizado na alimentação animal.

Na cana-de-açúcar, o bagaço resultante da moagem pode ser utilizado para gerar energia elétrica. Assim, a matéria-prima agrícola participa simultaneamente dos mercados de alimentos, combustíveis e energia.

Principais cadeias que conectam comida e bioenergia


Cana-de-açúcar: açúcar, etanol e bioeletricidade


A cadeia sucroenergética é um dos principais exemplos brasileiros de integração entre alimentos e energia. A cana pode ser utilizada para fabricar açúcar e etanol, enquanto o bagaço da moagem é aproveitado para geração de energia térmica e elétrica.

A bioeletricidade pode abastecer a própria usina e, em determinadas situações, o excedente pode ser comercializado. O aproveitamento da biomassa aumenta a eficiência da cadeia e transforma um subproduto em fonte adicional de receita.

Também existem oportunidades para a produção de biogás e biometano a partir de resíduos da atividade sucroenergética.

Milho: ração, etanol e DDG/DDGs


O crescimento do etanol de milho aproximou ainda mais as cadeias de grãos, energia e pecuária. O processamento do grão também gera DDGs, coprodutos utilizados na alimentação de bovinos, aves e suínos.

Para os produtores, a expansão das usinas de etanol pode criar mercados para o milho, especialmente em regiões próximas às plantas industriais. Ao mesmo tempo, a oferta de DDGs cria uma alternativa para a formulação de rações.

Soja: óleo, biodiesel e farelo


A soja também possui uma forte conexão com a matriz energética. O esmagamento do grão gera óleo e farelo, permitindo que a mesma cultura abasteça tanto o setor de alimentos quanto o de combustíveis.  Hoje, o óleo de soja é uma das principais matérias-primas do biodiesel brasileiro.  

O farelo, por sua vez, permanece como importante fonte de proteína para a indústria de rações. Essa combinação demonstra como a industrialização da soja pode gerar diferentes produtos a partir de uma única matéria-prima.

O papel dos biocombustíveis na matriz energética brasileira


Os biocombustíveis já ocupam posição relevante na matriz energética brasileira. Etanol e biodiesel são utilizados no transporte e possuem participação determinada por políticas públicas e regras de mistura.

O RenovaBio, criado pela Lei nº 13.576/2017, busca ampliar a participação dos biocombustíveis e reduzir a intensidade de carbono da matriz de transportes. Entre seus instrumentos estão metas de descarbonização, certificação da produção e os Créditos de Descarbonização (CBIOs).

Esse ambiente regulatório influencia diretamente a demanda por matérias-primas agrícolas e, consequentemente, pode afetar mercados como os de cana, milho e soja.

Coprodutos e economia circular no agronegócio


Um dos principais ganhos da integração está no aproveitamento dos coprodutos do agro. O bagaço da cana pode gerar eletricidade; resíduos da atividade sucroenergética podem ser direcionados à produção de biogás e biometano; e os DDGs resultantes do processamento do milho podem ser utilizados na alimentação animal.

Essa lógica aproxima o agronegócio da economia circular, na qual materiais que poderiam ser descartados são reinseridos em outras cadeias produtivas.

Para o produtor rural, esse processo também pode representar novas oportunidades. Uma usina de etanol instalada em uma região produtora de milho, por exemplo, pode ampliar a demanda local pelo cereal e criar um mercado adicional para os coprodutos utilizados pela pecuária.

Impactos econômicos e ambientais da integração


A integração entre alimentos e energia movimenta diferentes setores da economia. A instalação de usinas e agroindústrias gera demanda por transporte, armazenamento, equipamentos, serviços técnicos e mão de obra.

Para produtores rurais, a existência de diferentes compradores pode ampliar as alternativas de comercialização. No entanto, decisões de investimento devem considerar preços das commodities, custos logísticos, contratos e condições de mercado.

No aspecto ambiental, o aproveitamento de resíduos e biomassa pode reduzir desperdícios e substituir parcialmente fontes fósseis. Os benefícios, porém, dependem das características de cada cadeia e devem considerar fatores como uso da terra, água, fertilizantes, transporte e processamento.

Desafios regulatórios e de mercado


A expansão da integração entre alimentos e energia exige investimentos elevados em infraestrutura. Usinas de etanol, plantas de biodiesel e sistemas de geração de energia precisam de capital e planejamento de longo prazo.

Também há riscos relacionados à volatilidade dos preços das commodities. O aumento do preço do milho, por exemplo, pode pressionar as margens das usinas de etanol. Na cana, as empresas precisam avaliar constantemente as oportunidades entre açúcar e etanol.

As políticas públicas também influenciam o setor por meio de mandatos de mistura, metas de descarbonização e regras ambientais. Por isso, produtores e investidores precisam acompanhar tanto os mercados agrícolas quanto as políticas relacionadas à energia.

Tendências: transição energética e descarbonização


A transição energética no agronegócio deve aprofundar a integração entre agricultura, pecuária, indústria e energia. Por exemplo, o crescimento do etanol de milho é uma das principais tendências.

O biometano produzido a partir de resíduos agrícolas também apresenta potencial, principalmente em regiões com forte concentração de atividades pecuárias e agroindustriais. A bioeletricidade, por sua vez, pode ganhar espaço com tecnologias que aumentem o aproveitamento da biomassa.

Outras alternativas, como combustíveis sustentáveis para aviação e diesel de baixo carbono, também ampliam as possibilidades de utilização das matérias-primas agrícolas.

Para o produtor rural, a principal mudança é que culturas como milho, cana e soja passam a estar conectadas a uma cadeia de valor mais ampla.

Para o investidor, isso significa observar o agronegócio não apenas pelo volume de alimentos produzido, mas também pela capacidade de transformar biomassa em combustíveis, energia e produtos de maior valor agregado.

A integração entre produção de alimentos e energia, portanto, não significa necessariamente escolher entre uma atividade e outra. O modelo brasileiro mostra que é possível combinar diferentes mercados a partir da mesma matéria-prima, aumentando a eficiência dos sistemas produtivos e criando novas oportunidades econômicas.

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